Teich está fora: quem deve sair é Bolsonaro!
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Teich está fora: quem deve sair é Bolsonaro!

É fundamental unificar a oposição numa ação unitária pelo impeachment e tomar iniciativas reais de mobilização para exigir seu encaminhamento por Rodrigo Maia. A timidez dos maiores partidos da oposição como PT e PCdoB deve ser superada! Fora, Bolsonaro!

Israel Dutra e Thiago Aguiar 15 Maio 2020, 20:48

Nelson Teich anunciou nesta sexta-feira, 15 de maio, sua demissão do Ministério da Saúde. Num momento em que cidades brasileiras, como São Paulo e o Rio, completam quase dois meses em regime de quarentena, as contradições políticas e sociais se aprofundam. Já saíram Mandetta e Moro, os dois ministros com maior aprovação popular. Agora, Teich entra para história política do país como um ministro breve e impotente. A crise escala mais um degrau.

A combinação das crises sanitária e econômica impõe-se sobre o planeta. Já se contam quase cinco milhões de infectados no mundo. Nosso país tem mais de 15 mil mortes por Covid-19, com a trágica marca que se aproxima de mil óbitos por dia. Somos um dos campeões de subnotificações. E, ao contrário de outros países, nos quais a burguesia apela para o sentimento de unidade nacional seguindo os padrões da OMS, o negacionismo de Bolsonaro é a maior ameaça contra o achatamento da curva de contágio.

A ruptura de Teich sela mais uma experiência com o governo. Além de mais uma frente de combate simultâneo em que Bolsonaro e seu clã envolvem-se, a nova demissão demonstra que é impossível conviver com a linha sanitária do governo, errática e com vocação para a morte. É hora de somar toda as forças para exigir o recebimento do impeachment na Câmara e dobrar a mobilização social, da forma que for possível, para tirar Bolsonaro da presidência.

O negacionismo de Bolsonaro faz do Brasil epicentro da pandemia

A situação brasileira é dramática. Os dados recém-divulgados pelo IBGE mostram uma queda intensa da atividade econômica em março e indicam uma piora ainda mais intensa, com perspectiva de falências generalizadas nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a situação nacional agrava-se pela atuação do governo federal, que sistematicamente sabota os esforços de controle da crise sanitária, condenando milhares de brasileiros à morte, e intensificando a dimensão da crise econômica futura. Com tal cenário dramático, muitos questionam, incrédulos, por que a oposição ao governo é tão passiva e incapaz de oferecer uma resposta à escalada golpista de Bolsonaro e de seu entorno.

Sem limites para o deboche, quando o país superava a marca mórbida de 10 mil mortes, Bolsonaro dava seu passeio de jet sky pelo Lago Paranoá, no último domingo, e afirmava que 70% da população serão contaminados pelo vírus e, portanto, não haveria o que fazer, salvo reabrir o comércio e as atividades econômicas.

Esta linha de sabotagem, sistematicamente adotada pelo governo federal desde o início, é a responsável pelo não achatamento da curva. Enquanto isso, o colapso da rede hospitalar é uma realidade em cidades como Belém, Fortaleza e Manaus – onde já se realizam enterros em valas comuns –, uma realidade para a qual se encaminham São Paulo e o Rio de Janeiro diante da adesão baixa ao isolamento social.

A colisão entre Teich e Bolsonaro, para além da querela sobre o uso do medicamento cloroquina, representa o esgotamento no campo conservador de qualquer mediação acerca da gestão do Ministério da Saúde, deixando à deriva a condução do combate à pandemia, num salto para o vazio ou, melhor dizendo, num salto para o abismo, onde estamos como epicentro de mortes.

Tentação autoritária

Nesses dois meses, contudo, Bolsonaro perdeu apoio social e seu governo caminha para um maior isolamento. Ao mesmo tempo, diante do isolamento crescente do governo, há uma escalada autoritária do bolsonarismo. Estimulados pelo presidente, seus apoiadores organizam “carreatas da morte” pelo país, ameaçam e atacam jornalistas, organizam milícias digitais na internet para atacar adversários com fake news e começam a organizar uma vanguarda de lunáticos com uma propaganda de ataque armado em defesa de Bolsonaro. Pateticamente, o corrupto Roberto Jefferson vinculou-se a esta orientação fotografando-se armado em publicações na internet.

As manifestações e carreatas pró-governo, na realidade, reúnem pouquíssimas pessoas e expressam a necessidade de Bolsonaro dar alguma resposta à perda de apoio na sociedade e ao risco de impeachment por meio de ameaças de golpe. No entanto, diante da falta de respostas da oposição e da sociedade – também por conta das medidas de isolamento – estes grupos sentem-se à vontade e fortalecidos para promover suas manifestações golpistas.

A outra via autoritária é o controle político do aparelho de Estado. A crise que resultou na ruptura com Moro, agravada pela expectativa da divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, expressa a necessidade da “interferência” política para acobertar os crimes do clã Bolsonaro. A tentativa de nomeação de Ramagem seria a consolidação do controle. Por usa vez, a Medida Provisória 966 flexibiliza a responsabilização dos agentes públicos durante a pandemia e é parte da ofensiva que busca intimidar a oposição.

O PSOL, por meio de sua líder de bancada Fernanda Melchionna, atuou de forma resoluta para enfrentar a MP, recorrendo à Justiça e fazendo agitação em rede nacional.

Fora Bolsonaro para valer! Impeachment Já!

A novidade da semana foi a publicação na imprensa de partes do vídeo da reunião de ministros de 22 de abril em que Bolsonaro teria ameaçado trocar o comando da PF e demitir Moro se não houvesse a troca da superintendência do Rio de Janeiro, que buscaria “foder”, em suas palavras, com seus familiares e amigos. Como parte das investigações do STF, a eventual divulgação da íntegra do vídeo, segundo antecipou a imprensa, será um duro golpe ao governo, já que houve, na reunião, ameaças de prisão de ministros do STF, governadores e prefeitos por nomes como Weintraub e Damares Alves, escancarando o caráter golpista do entorno bolsonarista.

O fundamental, neste momento, é unificar a oposição numa ação unitária em prol de impeachment, aproximando entidades como a OAB, a ABI e a CNBB, e tomar iniciativas reais de mobilização para exigir seu encaminhamento por Rodrigo Maia. A timidez dos maiores partidos da oposição como PT e PCdoB deve ser superada! É hora de ação!

O exemplo vem das profissionais da saúde: no último dia 12, com atos e intervenções em diversos hospitais, como o HU da USP, a ação do sindicato das enfermeiras do DF, que se prolongou em atos simbólicos em capitais como Porto Alegre no GHC, entre várias outras ações; no dia 15, por sua vez, o movimento estudantil marcou um ano do levante dos livros com faixas, cartazes e distribuição de máscaras em pontos centrais de diversas cidades, gesto que o sindicato dos metroviários já tinha feito em Porto Alegre.

Devemos lutar pela implantação de uma fila única de leitos, que permita atender todos os doentes graves, além da ampliação da renda emergencial e de medidas econômicas que façam os ricos pagarem pela crise. É preciso parar o golpismo de Bolsonaro e dos fascistas que o cercam enquanto ainda é tempo, para salvar as vidas dos brasileiros e o futuro de nosso país. Estamos empenhados num “Fora, Bolsonaro” para valer, com um pedido de impeachment real, pressão sobre Rodrigo Maia para que finalmente o aceite e defesa de medidas democráticas, como novas eleições, que permitam reorganizar o Brasil.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.