Vivemos rodeados de vírus perigosos. Habituamo-nos?
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Vivemos rodeados de vírus perigosos. Habituamo-nos?

A ameaça à China é considerada pela Casa Branca o principal trunfo de Donald Trump para as eleições de novembro.

Francisco Louçã 25 Maio 2020, 16:39

Mike Pompeo, o secretário de Estado de Trump, afirmou em conferência de imprensa que o vírus pode ter sido fabricado como arma biológica pela China. Perguntado de seguida se aceitava a conclusão do diretor da Inteligência Nacional, negando tal possibilidade, manteve-se impassível e concordou. Perguntado sobre a contradição, garantiu que os serviços estavam certos e, dito isso, voltou a reafirmar o contrário. Não pense que isto é confusão. É só campanha eleitoral. A ameaça à China é considerada pela Casa Branca o principal trunfo de Trump para as eleições de novembro. Vai cavalgar o assunto, o que ocultará dois problemas reais.

Os vírus podem fugir

O primeiro problema é que um vírus com estas características assustadoras, alta contagiosidade e letalidade, existe mesmo. E como são estudados em laboratórios mesmo depois de contidos na população pode haver erros que os libertem de novo. Em 1978, um laboratório britânico registou pessoas que tinham sido infetadas por uma reserva de varíola, dada como extinta no planeta mas mantida nesse local para investigação científica. Tinha havido um erro na segurança. Temeu-se um recrudescimento da epidemia de SARS, que matou 774 pessoas em 2002-3 e tinha sido extinta, quando houve duas perdas de vírus de laboratórios em Pequim em 2004. O vírus da doença da boca, mãos e pés escapou de um laboratório britânico em 2007. Laboratórios norte-americanos perderam amostras de antrax, gripe das aves e ébola. Em todos estes casos, os efeitos foram reduzidos, dado que o contexto era controlado e as autoridades chinesas, britânicas e norte-americanas conseguiram impedir rapidamente novos contágios.

Assim, mesmo que estes laboratórios sejam de alta segurança, há riscos. No mundo existem cerca de setenta unidades com o protocolo de biossegurança BSL4, o mais elevado, e dois deles estão na China. O que abriu em 2017 em Wuhan tem conduzido várias experiências com coronavírus, explorando a transmissão de morcegos para vários animais, como acontece noutros laboratórios da mesma categoria. Uma experiência que envolveu cientistas chineses, norte-americanos e italianos sobre os riscos e as formas de contaminação com coronavírus, foi publicada na newsletter do instituto em novembro de 2019 e também na revista científica “Nature Medicine”. Os vírus existem e o estudo do risco de zoonoses, a contaminação de humanos por outros animais, exigem que sejam analisados.

O inverno está a chegar?

A OMS e diversos laboratórios públicos e privados confirmam as conclusões da Inteligência Nacional dos EUA, este vírus não resulta de uma manipulação técnica, nada indica que seja uma arma que se soltou. As sequências do genoma demonstram que não existem os marcadores típicos de engenharia genética e, aliás, as autoridades chinesas foram as primeiras a disponibilizar a sua descodificação. Mas, com a pandemia da covid-19 a caminho dos 250 mil mortos e a ultrapassar os 3 milhões de infetados sintomáticos, está dado o sinal arrepiante de um perigo que os países do norte se habituaram a considerar que estava reservado ao sul do planeta e que agora se mostra global. Houve então quem notasse que a peste negra do século XIV demorou dez anos a chegar do oriente à Europa e que agora bastaram poucos dias para se espalhar pelo mundo, mas esse registo banal esquece o essencial.

E é aqui que entra o segundo problema que o jogo trumpista quer ignorar: estamos cada vez mais expostos a vírus desconhecidos e, como os epidemiologistas vêm alertando, outras pandemias estão a caminho. A sua explicação é que a progressiva desflorestação e a destruição de habitats naturais multiplica riscos de novas contaminações, agravados pela promoção industrial da criação de animais reduzindo a sua diversidade genética, que foi uma barreira natural contra esses vírus. Acresce ainda outro risco desconhecido, o efeito do degelo dos solos permafrost (um quarto da superfície do hemisfério norte), que poderia libertar mais vírus desconhecidos que aí estarão congelados. Winter is coming, como descobrimos nesta primavera. Só a ciência, a prudência e as escolhas sociais nos podem proteger.

Artigo originalmente publicado no jornal “Expresso” em 9 de maio de 2020. Reprodução da versão disponibilizada pelo Esquerda.net.


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