A arte da resistência
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A arte da resistência

Passaram-se décadas, mas o fascismo recriado ao século XXI segue sendo inimigo da arte plural e contestadora.

Fabiana Amorim 12 jun 2020, 17:02

Você deve ter visto bastante nos últimos tempos o termo “marxismo cultural”. Ele tem sido utilizado pela extrema-direita que está a frente do governo brasileiro para censurar e cortar verbas das universidades e projetos culturais, mesmo que de marxistas pouco ou nada tenham. Porém, não é a primeira vez que esse termo é utilizado como forma de atacar a diversidade da produção artística e intelectual. Com a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha em 1933, uma das principais experiências na arte e no design foi duramente atacada: com centenas de torturados e mortos, a Escola de Bauhaus que havia iniciado em 1919, não conseguiu ser liquidada, mas ganhou ainda mais projeção na história.

Quebrando os paradigmas entre a arte para a contemplação e a utilidade da vida prática, a Escola de Bauhaus construiu um espaço libertário e de experiementação, conectada com as novas demandas de uma sociedade urbana e industrial que surgia. A partir de uma linguagem estética formada pela construção de formas geométricas, artes gráficas, fontes e desenhos, a Bauhaus transformou o papel do artista e da arte frente a ideia de “progresso”, construindo uma arte total.

Com o surgimento do sistema capitalista, a lógica da divisão do trabalho passou a se dar por “partes” e funções específicas, eternamente retratado em “Tempos Modernos” de Charles Chaplin. Em seu Manifesto, escrito por Walter Gropious, a Escola de Bauhaus defendia não haver diferença nenhuma entre o artista e o artesão, e que portanto todos os arquitetos, pintores e escultores devem compreender a estrutura multiforme da construção em todas as suas partes. Com sua arte voltada para a ideia de totalidade, foi possível descobrir inovações das mais simples – como a cadeira que nos sentamos -, às mais complexas, como a construção de um projeto de habitações populares para famílias trabalhadoras.

Conectado com o mesmo processo da fundação de Bauhaus em 1919, assim foi para nós a semana de 1922. No seio das greves multitudinárias que vivia o Brasil e o mundo, a Semana de Arte Moderna foi um marco que permitiu o encontro entre a vanguarda da arte e da literatura brasileira com nomes como o de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Anita Malfati, fazendo parte do mesmo momento também o próprio Oscar Niemeyer. O movimento que transformou para sempre o que conhecemos enquanto Brasil, busca de uma arte total, que fosse para além de um reflexo do que se fazia na Europa. Ali se abriu caminho para as literaturas regionais que passaram a reencontrar as narrativas de uma realidade brasileira.

O resgaste da Bauhaus, que completou 100 anos em 2019 é mais um dos muitos exemplos ao longo da história do quanto a arte pode servir como objeto e olhar de transformação. Além de recriar elementos para um mundo novo, a arte é sobretudo uma ferramenta de resistência. Diz o zika Emicida que uma letra de rap muda “um mundo” quando altera a perspectiva de vida de uma pessoa. No Brasil de passado escravocrata, pautado entre a eugenia e a “democracia racial”, a arte indígena, negra e popular foi fundamental para que os povos historicamente oprimidos do Brasil pudessem resistir a partir da manutenção de suas culturas, reprimidas desde a capoeira até os bailes funks de favela.

Passaram-se décadas, mas o fascismo recriado ao século XXI segue sendo inimigo da arte plural e contestadora. Num momento de acirramento da luta política, os símbolos ganham importância ainda maior. Quando Bolsonaro vai ao ato pelo AI-5 em plena pandemia de coronavírus, ele não precisa diretamente pedir o fim do Congresso: a fotografia dele estar ali já nos apresenta um significado para além de suas palavras ditas ou não ditas. Precisamos estar atentos e disputar os símbolos de um mundo novo que se apresenta, como a força de uma trabalhadora da saúde frente aos promoteres da morte que pedem o fim do isolamento social nos EUA. É também para isso que serve a arte. Mas não só. Ela pode ir muito além do que nossa imaginação alcança. Serve para resgatar utopias ou facilitar nosso dia-a-dia. Nas trincheiras da vida ou da morte, da modernidade ou dos negacionistas, a arte livre e a serviço do nosso povo está do lado de cá.

Artigo originalmente publicado no Jornal do Juntos!.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.