As tensões politicas nas ultimas semanas e a tarefa da esquerda socialista
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As tensões politicas nas ultimas semanas e a tarefa da esquerda socialista

Nas últimas semanas e meses, temos acompanhado um constante crescimento da escalada da tensão política no âmbito nacional e internacional.

Rennan Fields 25 jun 2020, 20:21

Nas últimas semanas e meses, temos acompanhado um constante crescimento da escalada da tensão política no âmbito nacional e internacional.

Nacionalmente, podemos destacar as mais diversas investidas que o governo tem sofrido. Para começar, vamos  ressaltar a mais barulhenta, que foi a do judiciário. No início da semana o governo demonstrou estar acuado em relação ao STF, uma vez que passou a ser ventilada a demissão de Abraham Weintraub do Ministério da Educação. Cumpre lembrar que o então ministro tornou-se uma espécie de desafeto dos ministros da Suprema Corte desde o vídeo da reunião ministerial. Além disso, podemos adicionar sua participação nos atos que pediam fechamento do STF e congresso. No dia 18, Weintraub foi demitido. Para muitos isso foi uma clara tentativa do governo de amenizar a crise com o Supremo, todavia, como veremos a seguir, essa tentativa não surtiu muito efeito. O principal assunto do dia, no entando, foi a prisão de Fabrício Queiroz. Este acontecimento, inclusive, levou a uma mudança de postura do presidente que pouco apareceu nas redes, reforçando claramente que o governo encontra-se numa defensiva. Cabe lembrar que o fato da prisão ter sido efetuada dentro de uma propriedade do advogado da familia Bolsonaro, Frederick Wassek, reforça a tese de envolvimento da família não somente com o escândalo da rachadinha, mas, acima de tudo, torna claro a relação dos bolsonaros com a milícia carioca. O Presidente nega que Wassek seja seu advogado, contudo, aparições cada vez mais constantes do mesmo no Palácio do Planalto tornam insustentáveis as negativas no que se refere esta relação.    

Além do front supracitado, existem outros abertos pelo judiciário, os quais podemos destacar as investigações contra o esquema de fake news, onde o bojo das ações dos investigadores circula o gabinete do ódio, controlado por Carlos Bolsonaro, e que podem acarretar na cassação da chapa eleita em 2018. Podemos mencionar também as recentes prisões de militantes ligados às manifestações antidemocráticas, entre eles a Sara Geromini, que optou por utilizar o codinome Winter uma antiga espiã nazista, integrante da União Britânica Fascista, na decada de 40 do século passado. Estas lideranças ficaram conhecidas por fazerem parte do grupo 300, que além de reproduzirem uma estética semelhante aos rituais da Ku Klux Klan, nos EUA, atacaram diretamente o STF com bombas e ainda ameaçaram o Ministro Alexandre de Moraes. Essas prisões tendem a enfraquecer e desencorajar o movimento bolsonarista nas ruas.  

Um outro revés nos ultimos dias foi por parte de setores da burguesia que começaram externar seu descontentamento com o governo, que por sua vez se mostra incapaz de manter a agenda econômica liberal. Os ataques da mídia, em especial, as longas edições do Jornal Nacional,  evidenciam que há claramente um rompimento com uma parcela importante da burguesia.

Isto posto, precisamos apontar para a necessidade do povo se colocar nas ruas e se tornar um agente importante no cerne da disputa política, que, até então, estava sendo travada por cima.

Nesse sentido, é mister destacar que atos os combativos dos últimos finais de semana, colocaram o campo democrático novamente no circuito, tirando os apoiadores do governo do conforto de se sentirem os únicos nas ruas. É importante ressaltar a valiosa presença dos torcedores antifascistas nesses atos, além de lideranças de comunidades carentes que sofrem com ações do Estado e do movimento negro. Somente com o povo nas ruas a luta pelo impeachment do Bolsonaro tomará a força necessária para fazer o processo tramitar no Congresso.  

Além da crise política e econômica, podemos acrescentar a questão da crise sanitária, onde o Presidente irresponsavelmente vem dando sinais genocidas a cada ato. Chegando ao absurdo de encorajar criminosamente seus seguidores à invadirem hospitais. Enquanto isso, passamos da casa de 1 milhão de infectados e 50 mil mortos pela pandemia do covid-19. Isso sem levarmos em conta os casos de subnotificação, que segundo especialistas, poderiam aumentar e muito os números já alarmantes. Contudo, o negacionismo do governo parece não surtir efeito na população, que esta cada vez mais consciente da importância das medidas de isolamento social, impostas pelas autoridade de saúde. Podemos afirmar isso, tendo em vista as recentes pesquisas que mostram que a sociedade não concorda com as medidas do governo. O cenário de insatisfação tende a crescer na medida que o Bolsonaro continue atuando como um verdadeiro genocida, agindo como principal aliado do vírus

Ainda sobre o contexto  nacional, precisamos olhar com atenção duas frentes que foram abertas nas últimas semanas: A primeira é relativa ao debate a respeito da renda básica, o qual o governo demonstra sua vontade pela descontinuidade do programa. Uma renda básica universal para garantir  dignidade ao povo, seria, sem dúvidas, uma dura derrota à política neoliberal de Paulo Guedes . A outra é referente ao embrionário – mas não menos importante – processo de descontentamento dos entregadores de aplicativo, iniciado na cidade de São Paulo e que vem ganhando capilaridade por todo Brasil, e também não deixa de ser um contraponto à política neoliberal praticada pelo desgoverno Bolsonaro, uma vez que as relações de trabalho dos entregadores

traduzem fielmente a retirada de direitos trabalhistas proposta pelo ministro da economia.  É necessário estar do lado dessas lutas legítimas !

No âmbito internacional, o centro do debate segue sendo o levante da juventude negra nos EUA, que teve seu estopim após a morte de George Floyd, pela polícia, onde desde a década de 60 do século passado, a qual militavam os Panteras Negras, Malcom X e Martin Luther King (como bem aborda o texto de Pedro Fuentes: “ George Floyd Deixou de Respirar, Mas o Mundo Respira Por Ele”, não se via tanta efervescência nas ruas. Essa luta ganhou dimensão mundial, onde diversos países do globo aderiram a pauta contra o racismo. Podemos reproduzir essa luta aqui no brasil, onde nossa juventude negra e pobre segue sendo massacrada nas favelas, fruto de uma política fascista do Estado Brasileiro, que marginaliza e criminaliza o povo negro e pobre.

Sendo assim, o campo socialista precisa fortalecer o debate interno e colaborar com a crescente tomada das ruas por setores populares para o enfrentamento concreto ao bolsonarismo, e assim tornar o impeachment viável,  assim como unir a luta contra o preconceito racial dos Estados Unidos à luta contra a opressão do Estado nas comunidades pobres no Brasil. Essas são as principais tarefas que teremos em um curto espaço de tempo.  

Referências bibliográficas:

Pedro Fuentes: “ George Floyd Deixoy de Respirar, Mas o Mundo Respira Por Ele”, Revista Movimento;

Ítalo Jardim, “Por quem os Sinos se dobram”, Revista Movimento;

Ítalo Jardim, “Por que as revoltas antirracistas espalham-se pelo mundo”, Revista Movimento

Israel Dutra e Thiago Aguiar, Editorial: “O Cerco Está fechando-se”, Revista Movimento;

Mauricio Costa, “Periferia Quer Viver”, Revista Movimento;

Secretariado do MES, “Notas Breves Sobre Conjuntura, Revista Movimento.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.