Identidades e totalidade na luta política – Em defesa de uma candidatura de mulheres para o PSOL
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Identidades e totalidade na luta política – Em defesa de uma candidatura de mulheres para o PSOL

A necessidade de defender a totalidade não passa por apagar as particularidades.

Luana Alves 11 jul 2020, 14:32

Recentemente, após o anúncio da chapa Sâmia Bomfim e Alexya Salvador para a disputa na prévias do PSOL na cidade de São Paulo, uma série de questionamentos, no que se refere à “tática eleitoral” das figuras da chapa, começaram a surgir. O exercício da crítica é a base do avanço teórico-político. O processo reflexivo amplo e aberto, em especial em partidos políticos, é fundamental. Algumas das críticas, porém, estão nitidamente baseadas em equívocos comuns do campo da esquerda brasileira, erros históricos, que não se repetem por acaso. Parte do questionamento à escolha de Sâmia e Alexya numa única chapa, de mulheres e feminista, é que uma chapa de composição “setorial”, de “identidade”, não seria a ideal para a candidatura majoritária, que deveria representar a “totalidade” da política. Uma chapa feminista, formada por uma mulher cis branca e uma mulher trans negra não seria capaz de expressar a totalidade da política do PSOL, um partido socialista, que tem como programa a emancipação da classe trabalhadora como um todo.

Como militantes que atuam num país profundamente racista e patriarcal, não restam dúvidas para a esquerda brasileira sobre como as mulheres, a negritude, as LGBT’s, são mais profundamente atingidos pela exploração capitalista, são grande parte do chamado precariado. Já é quase consenso, mesmo entre os dirigentes partidários menos próximos dos movimentos chamados “identitários”, como os levantes de mulheres e da negritude são chave para a superação desse sistema. Ainda assim, persiste o erro, gerado por uma visão de mundo forjada pelo patriarcado e pelo racismo estrutural, de pensar a “política geral”, a totalidade, separada das políticas “setoriais”, de mulheres, de negritude, de LGBTs. Dessa forma, seria suficiente, num processo eleitoral municipal, que as candidaturas à vereança representassem as “parcialidades”, enquanto a chapa majoritária deveria ser a “totalidade” da nossa política de classe. Essa visão não somente ignora que a classe trabalhadora brasileira é majoritariamente negra e mulher, mas ignora que sua experiência de opressão como classe trabalhadora é profundamente determinada pelo racismo, pelo patriarcado, e pela LGBTfobia. O entendimento que o racismo e o patriarcado são pilares para o sistema capitalista não é uma simples constatação histórica. Assumir esse entendimento significa dizer que hoje, a classe trabalhadora brasileira experiencia de forma imediata, cotidiana, concreta, as opressões de gênero e de raça. Que sua experiência como classe é assim vivenciada.

Compreender essas opressões como não-totais, como parciais, como secundárias a uma opressão de classe que seria aí sim, o universal, é uma enorme abstração. O universal se manifesta no particular. A necessidade de defender a totalidade não passa por apagar as particularidades, pelo contrário! É na multiplicidade de experiências das pessoas como classe trabalhadora que devemos armar a política de derrubada desse sistema. A tentativa de apagar as lutas chamadas “setoriais”, ou de colocá-las como secundárias, não apenas demonstra uma prática colonial, mas leva ao afastamento dos setores mais dinâmicos da classe, como as mulheres, e é caminho certo para a derrota.

As experiências subjetivas vividas pela classe, em especial num país em que a classe trabalhadora é seccionada em várias camadas de progressiva precariedade, em várias camadas de progressiva desumanização dos que estão embaixo na pirâmide, são o combustível para a revolta, para a indignação que pode se traduzir em luta popular organizada. Um partido político que se pretende socialista, jovem, dinâmico, capaz de apresentar figuras públicas que representem essa mobilização, tem a obrigação de ser capaz de conectar as opressões vividas de forma particular com a luta política universal, classista. Uma chapa majoritária formada por mulheres, como a chapa Sâmia Bomfim e Alexya Salvador, não apenas é suficiente para expressar nosso programa total, mas é a ideal para isso, assim como seria uma chapa de negritude, colocando nosso programa político, que é total e socialista, conectado com o sentimento de revolta, de indignação, que são geradas pelas brutais opressão de gênero, de raça, de sexualidade que nosso povo, em especial nossa juventude, vivenciam. As mulheres, a negritude, os LGBTs, não serão parte de um programa anticapitalista. Nossa luta é a luta antissistêmica, é a totalidade. Não podemos retroceder!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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