Maternidade, escolas e pandemia: sobrecarga e desigualdade de gênero
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Maternidade, escolas e pandemia: sobrecarga e desigualdade de gênero

A desigualdade histórica fica nessa conjuntura ainda mais evidente.

Thais Coutinho 23 jul 2020, 17:17

Em uma sociedade machista e patriarcal como a brasileira, recai sobre as mulheres a maior parte do trabalho doméstico e cuidados com filhos. As mulheres são sobrecarregadas com dupla-tripla jornada de trabalho e no período de pandemia essa sobrecarga e as desigualdades só aumentam. A desigualdade histórica fica nessa conjuntura ainda mais evidente. 

Os dados do IBGE anteriores a pandemia já demonstravam que semanalmente as mulheres gastavam cerca de o dobro de horas semanais no trabalho doméstico do que os homens.  E infelizmente o isolamento social ao invés de equalizar a situação, a agravou ainda mais. As escolas fechadas e falta de rede de apoio sobrecarregaram ainda mais as mulheres que na quarentena tentam conciliar o homeoffice com inúmeros outros papeis que desempenham. Nesse período, as mulheres ficam cada vez mais imersas no espaço privado. Os vídeos que viralizam na TV e na com imagens de homeoffice das mulheres frequentemente interrompidos por crianças retratam bem essa situação.

A escola (cuja função por óbvio está relacionada à criança – e não à mulher – já que é um espaço de aprendizagem para o estudante) muitas vezes é a única rede de apoio que as mulheres têm. Em especial, ao pensarmos em nosso país, onde muitas mulheres são as responsáveis únicas pelo seu lar. O momento em que os filhos estão nas escolas é o único tempo que muitas delas têm para trabalhar, estudar, etc. Mas com a escola fechada como ficam essas mulheres?

Antes de responder essa pergunta, lanço outra: com a escola fechada, como deveriam ficar essas mulheres? Certamente que com toda a garantia de preservar suas vidas e de seus familiares. Isso significa que deveria ter uma política pública séria para assisti-las, que passa inclusive (mas não só) pelas garantias das condições materiais. Nesse sentido a falta das cestas básicas fornecidas pelas escolas públicas, assim como de uma renda mínima ou ainda dificuldades em conseguir o auxílio emergencial mais do que o descaso dos governantes, demonstra um caráter assassino dos mesmos! Sim, para esses governos a vida das mulheres trabalhadoras e de sua família pouco vale. E por isso não são criadas formas eficazes de manter sua quarentena em segurança!

Dito isso, voltemos à pergunta inicial: com a escola fechada como ficam as mulheres trabalhadoras? Algumas, conseguindo manter o homeoffice, viram sua rotina alterada e ficaram sobrecarregadas; outras tiveram que abrir mão de seu emprego (para garantir uma quarentena segura); outras ainda arriscaram suas vidas (para colocar o pão na mesa). E, infelizmente, não é no sentido figurado não. Cabe lembrar que a primeira morte no RJ por COVID foi de uma doméstica infectada pelos seus patrões  (nesse caso, a trabalhadora  nem sequer sabia o risco que corria). O que prova a falácia do discurso que esse vírus é “democrático”. A precarização da saúde pública, somada ao descaso e as escolhas governamentais para lidar com a pandemia fazem com que esta atinja principalmente a classe trabalhadora.

Apesar da particularidade de cada situação, há algo em comum: o fechamento da escola em uma sociedade machista impõe uma dura realidade às mulheres. E como a escola atua nesse momento de aumento de estresse e sobrecarga das famílias? Aqui haveria dois caminhos a serem seguidos: por um lado a escola atuar como uma forma de apoio nesse momento tão difícil; o outro,  ser mais um fator desestabilizador nessas famílias. E infelizmente é esse o caminho que a maioria das escolas seguiu.

Pressionados pela lógica de querer mostrar serviço, as escolas implementam o ensino remoto, ignorando todas as particularidades e diversidades familiares, assim como o  acúmulo da própria área educacional (por exemplo, na Educação Infantil onde a Educação passa fundamentalmente pela interação) e até mesmo recomendações da Associação Brasileira de Pediatria (em relação ao uso da tela pelas crianças). Ignoram também que a pandemia como uma situação de crise afeta também o psicológico das crianças e jovens, que além de abrir mão de toda a forma de vida que conheciam para se isolarem, muitos passaram por perdas. Ignorando tantos elementos, muitas escolas seguem a todo vapor , no ritmo normal de antes, como se nada tivesse acontecido. Ao se tratar da escola pública há ainda um outro elemento agravante: ignora-se que a maioria dos estudantes sequer tem o meio tecnológico necessário para participar das atividades remotas (sem contar outros elementos, inclusive estruturais, como o próprio ambiente adequado para a aprendizagem).

Durante a pandemia, a atuação da escola acaba colaborando para aumentar ainda mais a sobrecarga física e psicológica vivida pelas mulheres. Estudos (como o realizado pela Kaiser Family Foundation) apontam que as mulheres estão sendo mais afetadas psicologicamente pela crise. E não são raras as notícias de jornais que mostram a preocupação das mulheres em relação às tarefas escolares dos filhos. Para exemplificar um caso que ocorreu em BH, na qual uma mãe desiste de pegar material escolar para o filho, pois ela se julgava (por ser analfabeta) incapaz de ajudá-lo com as mesmas. Muitas das tarefas necessitam do auxílio do responsável, o que pode representar uma grande dificuldade para as famílias, seja em relação ao grau de instrução (como no exemplo acima) ou por disponibilidade de tempo em conciliar com outras tarefas inclusive o homeoffice ou mesmo por dificuldade financeira (aumento de conta de luz e internet) ou ainda falta de equipamento… são diversos fatores com um só resultado: a escola prejudicando a saúde mental dessas mães em um momento já tão difícil.

Agora com a reabertura das escolas em pauta em diversas cidades, novas preocupações surgem. Muitas famílias desde o início da pandemia foram pressionadas, assediadas e ameaçadas. Nas escolas particulares, por exemplo, casos de ameaças de denúncias ao conselho tutelar para os pais que queriam tirar seus filhos das escolas (resultado da crise econômica e perdas de emprego). Além da preocupação de muitos pais de seus filhos perderam o ano letivo, nas escolas públicas a perda da vaga foi uma preocupação constante.  Infelizmente, em especial nas redes públicas, a escola não conseguiu cumprir o papel de acolher os alunos e famílias, de lhes garantir uma quarentena tranqüila e segura. Pelo contrário foi foco de mais preocupações: que passaram desde questões materiais (como toda a dificuldade para se conseguir uma cesta básica) até psicológicas (devido ao assédio moral sofrido pelos alunos devido às atividades remotas).  Mas não há preocupação maior do que a que se apresenta em pauta agora: como preservar a vida de nossos próprios filhos.

Com a desculpa de girar a economia e que as mães precisam trabalhar e, por isso, é preciso abrir as escolas, os governos colocarão mais um peso nas costas das mães trabalhadoras. Com a abertura das escolas, certamente,  os patrões pressionarão as mães que se encontram em homeoffice a retornarem ao trabalho presencial. Portanto, a abertura da escola só criará mais um problema para essas trabalhadoras. As propostas de reabertura apresentam revezamento de dias entre alunos e redução de horário (para garantir o distanciamento necessário entre os estudantes). Se a escola abrir, como as mulheres (que como já dito é sobre quem recai a maior parte do cuidado com filhos) conseguirão não trabalhar nos dias em que seus filhos não tiverem aula?  Como voltarão a tempo de buscar seus filhos em horário reduzido, se em muitos casos o tempo que a escola ficará aberta é o mesmo que se gasta na locomoção para o trabalho?  

Para todos os problemas que nosso país passa, a solução não é, e jamais será colocar nossos filhos em risco! A vida de nossos filhos vale mais que o lucro de qualquer empresário! E a nós, mães, mulheres , trabalhadoras,  só nos resta uma única alternativa: a LUTA! Lutar pelas nossas vidas e dos nossos filhos! Lutar para que as escolas permaneçam fechadas! Lutar por cesta básica e renda mínima! Lutar pela garantia do homeoffice! Lutar para que tenhamos condições de nos mantermos em quarentena com segurança! Mais principalmente: lutar para que esses governos que promovem um verdadeiro extermínio à classe trabalhadora caiam! Enquanto esses governos que priorizam o lucro em detrimento das nossas vidas estiverem no poder, infelizmente mais mortes ocorrerão. No Brasil,  já tivemos mais de 82 mil mortes pelo COVID-19. Mas o coronavírus não matou sozinho, teve como maior cúmplice o presidente do país com sua política negacionista, que em todo o momento incentivou a população a burlar a quarentena e não seguir os protocolos recomendados pelos órgãos internacionais de saúde e instituições científicas.  Por isso, é necessário não só combater o Covid, mas também,  para garantirmos as nossas vidas,  é preciso derrotar o Bolsonaro!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.