Em memória de um revolucionário: 80 anos do assassinato de Leon Trotsky
Leon Trotsky

Em memória de um revolucionário: 80 anos do assassinato de Leon Trotsky

Relembramos Leon Trotsky (1879-1940), dirigente da Revolução Russa e fundador do Exército Vermelho.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 22 ago 2020, 20:52

“Se na praça em Moscou
Lênin caminha e procura por ti
Sob o luar do oriente”

Vitor Ramil

As páginas dos jornais do mundo estampavam um dos mais impressionantes assassinatos políticos do século XX naquele 21 de agosto de 1940. Com um piolet afiado, pelas costas, como marca a ação dos covardes, Ramon Mercader desferiu um golpe fatal contra a cabeça inquieta de Lev Davidovich Brostein: o dirigente da Revolução Russa e fundador do Exército Vermelho Leon Trotsky. O atentado no dia 20 de agosto seria o auge de uma das maiores operações do serviço secreto stalinista após a tentativa frustrada, conduzidas semanas antes por David Alfaro Siqueiros, de eliminar Trotsky e sua família com o fuzilamento de sua casa. No dia 21 de agosto, apagou-se a última chama de vida que restava no intrépido revolucionário, findando uma das trajetórias mais impressionantes da vida política da modernidade. Era meia-noite no mundo.

No combate sem tréguas, Trotsky deixou um legado. De alguma forma, Mercader, a GPU e Stalin não lograram seu objetivo vil. Depois de uma grande vida revolucionária, uma vasta obra literária e política, atravessando a perseguição contra sua família, Trotsky completou a “maratona” pelo programa, edificando uma frágil, porém necessária organização: a IV Internacional. Organizando uma rede para manter vivos um projeto e um programa: o do socialismo com liberdade, envolto no “Programa de Transição”.

80 anos após seu assassinato, seguimos uma luta constante por sua memória e seu legado: eis a nossa batalha.

Lev Davidovich Brostein, revolucionário e internacionalista

Nascido na Ucrânia, filho de judeus, Lev Davidovich tornou-se Trotsky em referência a um personagem que conheceu no cárcere. Sua vida pessoal e política carregou duas marcas indeléveis: a de revolucionário e internacionalista.

O revolucionário viveu, escreveu e se envolveu com o maior acontecimento da história contemporânea: a vitoriosa Revolução Russa. De forma permanente, com o ensaio geral da Revolução de 1905, a derrubada do czar em fevereiro de 1917 e a inédita vitória dos trabalhadores na Revolução de Outubro, Trotsky teve contribuição decisiva para a construção do primeiro Estado Operário da história, vingando os comunardos de Paris.

O militante internacionalista percorreu o mundo, sendo um defensor intransigente das conquistas da Revolução na União Soviética, porém compreendendo que esta era apenas o prelúdio da Revolução Mundial. Tomou lugar ativo nas batalhas da Revolução Alemã, nos debates europeus e sobre a Revolução Chinesa, chegando ao continente americano onde viveu seus últimos de vida.

Trotsky carregava outra característica decisiva, que moldou sua prática ao longo de toda a sua vida: a de entender a atividade política como uma atividade integral. Muito jovem, foi o líder do Soviete de Petrogado na Revolução de 1905, com apenas 26 anos. Ali, colocou-se à frente da primeira experiência de democracia direta e auto-organização popular. Trotsky acompanhou Lenin e Rosa Luxemburgo no combate contra a traição da II Internacional na I Guerra Mundial e atuou de forma decisiva na Revolução de 1917, sendo um de seus mais destacados dirigentes. Também teve papel marcante naquela que considerava uma das maiores conquistas políticas do proletariado do planeta: a III Internacional.

Nas duas décadas seguintes, lutou pelo triunfo da revolução em diversos países, advertiu como poucos sobre os riscos da ascensão do fascismo, além de defender o Estado Operário da URSS de seus piores inimigos: o cerco estrangeiro e a contrarrevolução termidoriana da burocracia de Stalin.

Como chefe militar e diplomata, tem em seu currículo feitos colossais. Foi um dos mais brilhantes negociadores da política externa russa, participando das tratativas de Brest-Litovsk e da localização do novo Estado no sistema de nações, sendo referenciado inclusive por Max Weber como o mais habilidoso e culto dos articulistas internacionais. Fundou, ergueu e dirigiu o Exército Vermelho, numa condição de alto nível militar, combinando os aspectos essenciais da ciência militar moderna com novos patamares de politização e democracia entre o corpo armado mais intenso que o século XX conheceu.

Sua genialidade verificava-se, também, na paixão pelo conhecimento, pela ciência e pela escrita. Ele escreveu muito sobre temas diversos, como literatura e psicanálise, além de organizar, com Diego Rivera e André Breton, o conhecido “Manifesto por uma Arte Independente e Revolucionária”, congregando as manifestações em defesa de um olhar artístico desprovido das razões de Estado, como já defendiam os arautos de Stalin.

Trotsky foi um revolucionário sem fronteiras, num planeta sem passaporte.

Os crimes de Stalin: afinal, quem “venceu”?

Stalin não cometeu apenas “desvios políticos”. Ele organizou alguns dos piores crimes políticos até então conhecidos. O famoso dossiê, relevado em 1956 pela burocracia dirigente da URSS, apenas confirma o que os revolucionários do mundo já denunciavam: Stalin liquidou a velha guarda bolchevique para pavimentar a burocratização a serviço de seu projeto de poder. Ele comprometeu parte dos processos revolucionários mais importantes, como as lutas na Espanha, na Grécia e em diversos países para garantir esse projeto na chamada “coexistência pacífica”. Matar Leon Trotsky, a qualquer preço, era parte desse plano.

Matar o homem que liderava um plano alternativo tanto às forças fascistas da burguesia quanto ao projeto autoritário da burocracia era o ápice de um processo em que foram liquidados os camaradas de Lênin membros do Comitê Central bolchevique, atacados os direitos democráticos conquistados pela Revolução e os sovietes para, assim, consolidar um projeto estranho ao da classe trabalhadora.

Apesar das tentativas tardias e fracassadas de reabilitação do criminoso Stalin, a classe trabalhadora mundial e as novas vanguardas lutadoras no mundo não estão mais condenadas a repetir as falsificações históricas stalinistas montadas pelo aparelho estatal soviético apropriando-se da simbologia e do prestígio da Revolução de Outubro. O stalinismo, hoje, como organização e programa, é muito mais fraco do que quando os trotskystas eram por eles perseguidos, fisicamente atacados ou impedidos de falar em assembleias, caluniados com a cantilena de que eram “agentes do imperialismo”. Hoje, o trotskysmo é mais forte e mais vinculado às lutas dos povos. Nomes importantes, como CLR James, pioneiro no estudo e difusão da Revolução Haitiana, e a filósofa ucraniana Raya Duvanieska, são parte de uma cultura que impulsionou o trotskysmo tanto nos meios intelectuais quanto no “coração da classe”.

Estamos presentes nas experiências reais de luta em todo o mundo, como nos levantes latino-americanos, nas manifestações que gritam “Black Lives Matter”, em partidos que tem presença na sociedade como o PSOL brasileiro e em outras dezenas de formações da esquerda radical, com força em sindicatos e parlamentos mundo afora, lutando com a classe trabalhadora. Os trotskystas falam diferentes idiomas, da África às Filipinas, passando pelo Paquistão, Peru ou Hong Kong.

O trotskysmo como programa para a “geração millennial

No século XXI, além do legado de uma bandeira sem manchas de luta pela revolução socialista e pela emancipação da classe trabalhadora e dos povos oprimidos, temos nas mãos a importante tarefa de levantar um programa pela transição ao socialismo, vinculado aos dilemas de nossa época, sem dogmatismo e fruto da elaboração e das lutas do presente.

Felizmente, para esta tarefa de grande magnitude, temos um fio de continuidade com a história e podemos nos lembrar com orgulho das lições dos trotskystas e dos que cerraram fileiras em defesa de sua honra e de seu legado: no Brasil, com Patricia Galvão (Pagu), Mário Pedrosa, Lélia Abramo, a revista Versus, que foi um ponto de impulso para as lutas latino-americanas e da negritude, no grupo SOMOS, precursor da luta LGBT ainda no final da ditadura, no movimento organizado das mulheres, na conformação do PT e da CUT e na fundação decisiva de nossa ferramenta de luta, o PSOL: uma ponte entre gerações de lutadores.

Ao mesmo tempo, temos tarefas inadiáveis, entre as quais construir a IV Internacional, com seu programa anticapitalista e ecossocialista, buscando formular um novo programa de transição para a “geração millennial”, feminista, antirracista e de ruptura com o grande capital e as burocracias. Como internacionalistas, devemos seguir apoiando as lutas concretas dos trabalhadores e dos povos em todo o mundo, como o enfrentamento que se desenvolve atualmente contra o golpe na Bolívia, país onde os trotskystas construíram uma importante tradição entre os mineiros e o movimento operário.

E, por fim, como as tarefas são concretas e do presente, vamos aceitar o chamado da direção do Museu Leon Trotsky, no México, para fazer uma grande campanha em sua defesa, de aportes e de colaboradores para manter vivo o legado do nosso revolucionário exemplar, a quem Stalin quis apagar da história, mas que está mais vivo e brilhante do que nunca. Leon Trotsky vive em nossas lutas: até o socialismo sempre!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.