Greve política na NBA expõe a força do protesto negro e pode ser decisiva para as eleições nos EUA (ou até mais que isso?)
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Greve política na NBA expõe a força do protesto negro e pode ser decisiva para as eleições nos EUA (ou até mais que isso?)

Maurício Costa analisa o boicote dos jogadores da NBA em mobilização contra o racismo e por justiça social.

Maurício Costa 27 ago 2020, 19:44

A NBA, maior liga de basquete do mundo parou. Um dos maiores negócios do entretenimento esportivo mundial, que movimenta anualmente cifras bilionárias e alcança uma escala global foi obrigado a interromper suas atividades por uma ação coordenada de atletas em protesto político contra mais um assassinato brutal de um homem negro pela polícia dos EUA. O BOICOTE – esse é o nome reivindicado pelos jogadores que se recusaram a entrar em quadra – é um movimento histórico contra o racismo e por justiça social. O mundo dos esportes parou para discutir, mas não só. Por todo lado se debate a influência que o movimento pode ter nas eleições presidenciais estadunidenses deste ano e, mais, até onde poderia chegar.

Como começou

A gota d’água para a paralisação imposta pelos jogadores na fase final do campeonato foi a ação policial em Kenosha, no estado de Wisconsin, que alvejou o homem negro de 29 anos Jacob Blake com 7 tiros nas costas, desarmado, na frente de seus 3 filhos. Blake corre risco de ficar paraplégico. Essa ação policial ocorre em meio à onda de protestos negros que varrem os EUA há meses, dos quais muitos jogadores participaram.

Ao se inteirarem do caso, ainda na noite de terça-feira, os jogadores de Toronto Raptors e Boston Celtics que duelam por uma vaga na final da Conferência Leste e estão no mesmo hotel já haviam se reunido e discutiam a possibilidade de não entrar em quadra. Contudo, foi no dia seguinte, por iniciativa dos atletas dos Bucks de Milwaukee, cidade do mesmo estado de Wisconsin onde Blake foi baleado, que os jogos foram paralisados. O time, que tem a melhor campanha da temporada e o melhor jogador do campeonato Giannis Antetokoumpo, emitiu em conjunto uma declaração de que não realizariam seu jogo com o Orlando Magic em protesto contra a violência racista. Os jogos que viriam na sequência, entre Houston Rockets e Oklahoma City Thunder e entre Portland Trailblazes e Los Angeles Lakers – time de Lebron James, considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos também foram suspensos por iniciativa dos jogadores.

A decisão dos jogadores fez a Liga emitir uma nota dizendo que os jogos de ontem haviam sido “adiados”, termo que logo foi contestado imediatamente por Lebron James, dizendo que de fato se tratava de um BOICOTE e não de um adiamento, isto é, ao contrário do que poderia parecer, não era a Liga de basquete que estava coordenando as ações ou se manifestando de alguma forma, eram os jogadores autorganizados que estavam usando toda a visibilidade que seu jogo havia adquirido para dizer que já não era possível mais levar as coisas como vinham sendo levadas.

Histórico recente

Desde a morte de George Floyd, homem negro assassinado estrangulado por um policial branco ajoelhado em seu pescoço em Minneapolis em 25 de maio deste ano, uma rebelião tomou conta dos EUA e teve repercussões no mundo inteiro. Muitos jogadores do basquete estadunidense – um esporte com jogadores majoritariamente negros e parte da cultura negra do país e do mundo – foram vistos não só participando mas também convocando e protagonizado os protestos contra o racismo no país.

A retomada dos jogos da temporada, rodadas antes dos “playoffs”, fase das finais do campeonato, só aconteceu após uma longa e histórica negociação entre NBA e jogadores. Uma das principais pautas foi diretamente a questão sanitária, necessidade de protocolos que protegessem as vidas e a integridade física dos atletas, familiares e trabalhadores. Tais reivindicações foram respondidas pela NBA com a mobilização de um um enorme montante de recursos financeiros para viabilizar a logística e a adoção de normas rígidas para construir uma “bolha” dentro do complexo da Disney em Orlando onde se assegurou, até então, um modelo que permitiu a criação de condições para que não houvesse infecção por Covid naquele espaço e que inclusive virou referência para outros esportes.

Contudo, o outro forte motivo para a longa negociação entre a Liga e os atletas foi exatamente a força e a importância dos protestos. Muitos jogadores demonstraram-se nitidamente insatisfeitos com a retomada dos jogos em meio ao debate político nacional. Alguns como o Kyrie Irving, atual jogador do Brooklyn Nets e ex-parceiro e campeão com Lebron em Cleveland, consideraram que a volta poderia significar algo como um “distracionismo” diante de eventos tão relevantes e marcantes na história do país. Irving se recusou a voltar e abandonou a disputa do campeonato. Ao contrário de outros momentos, a NBA adotou um protocolo mais flexível, que não multou ou impôs qualquer punição aos atletas por decisões individuais contrárias às deliberações da Liga.

Também diferentemente de outros momentos na história onde a NBA endureceu suas posições contra os jogadores – o que levou, inclusive, ao fortalecimento da união entre os atletas e a atuação de um sindicato muito forte e representativo -, dessa vez o mandatário máximo da Liga, Adam Silver e as franquias tiveram que aceitar as exigências de que o debate sobre a situação política estivesse estampado nas quadras, camisetas e vozes dos atletas.

Quatro anos depois que o quarterback Colin Kaepernick, do time de futebol americano San Francisco 49ers, se ajoelhou durante a execução do hino estadunidense em protesto contra o racismo, quase a totalidade dos times e jogadores da NBA passaram a repetir o gesto que foi imortalizado por Martin Luther King na luta pelos direitos civis. Todas as quadras têm a expressão Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) estampadas no lugar principal, bem como nas camisetas que os jogadores vestem antes dos jogos. Nas jerseys (camisetas de jogo) os atletas puderam colocar frases como “Say Their Names” (fale os nomes deles), Justice (justiça), “Enough” (basta), Equality (igualdade), “Education Reform” (reforma educacional) e “Vote”, entre outras. Nas entrevistas a pauta política e os protestos viraram assuntos principais.

Histórico das lutas

Lebron James, Chris Paul, Jaylen Brown, Russel Westbrook entre tantos outros atletas negros que são vozes do protesto na NBA, têm em comum em suas trajetórias terem vivido a realidade racista onde Blakes, Breonnas Taylors e Georges Floyds são parte do cotidiano. A imensa maioria dos jogadores viveu infâncias pobres em uma país que não só preserva heranças perversas da escravidão como também enfrenta modernas formas de racismo como as que têm sido personalizadas nos discursos e ações do presidente Donald Trump, seu ideário conservador e fascista.

Nos EUA, a violência racista, a segregação e as saídas cosméticas capitalistas e consumistas que não só não combatem de fato como também aprofundam as desigualdades sociais e raciais são marcas tão importantes na histórica quanto as explosivas reações, rebeliões, boicotes e protestos negros. A própria história da NBA está recheada de exemplos.

Na década de 50 a luta contra segregação chegou à Liga e ainda que os primeiros atletas negros passassem a ser admitidos, o racismo seguia explícito. Nos anos 60, jogadores se organizaram para forçar a NBA a punir ofensas racistas nas quadras, tendo no multicampeão e um dos maiores jogadores da história Bill Russel um líder pioneiro nos boicotes como os que os jogadores fazem atualmente. Em 64, atletas tiveram que ameaçar não entrar em quadra no All-Star Game pra NBA reconhecer o direito de organização na associação dos jogadores. Nos anos 90 impasses contratuais entre franquias, árbitros e atletas paralisaram a liga em duas temporadas distintas, chegando a durar 6 meses, algo que aconteceu novamente em 2011. A partir de 2010 o Phoenix Suns passou a usar uma camiseta escrita “Los Suns” um apoio aos imigrantes no Arizona quando o estado aprovou uma política de imigração restritiva. Em 2012, Lebron James, Dwayne Wade e outros jogadores da NBA de diferentes equipes vestiram moletons fazendo referência ao assassinato do jovem Trayvon Martin, fato que impulsionou o movimento Black Lives Matter (vidas negras importam). Em 2014, contrariando o comissário Adam Silver, a geração de jogadores que já contava com Kobe Bryant, Kyrie Irving e Lebron James entrou em quadra com camisetas de treino com a frase “I can’t breath” (eu não consigo respirar), em alusão às últimas palavras de Eric Garner, trabalhador ambulante negro, morto sufocado pela polícia. Recentemente, Lebron James, ao ouvir de uma jornalista americana uma repreensão por suas posições políticas, recomendando que que ele “calasse a boca e jogasse”, posicionou-se diretamente chamando-a de racista e afirmando que era “mais que um atleta”.

Entretanto, que um negócio bilionário como a NBA estivesse paralisado por uma questão diretamente política é algo inédito. E só pode ser entendido dentro da história da luta do povo negro. De alguma forma o protesto dos jogadores da NBA tem conexão com as lutas históricas da negritude estadunidense, seja contra a escravidão, seja as que se seguiram posteriormente contra a segregação e o racismo, tendo como importantes exemplos históricos nas lutas de pessoas como Harriet Tubman, Frederick Douglass, John Brown, Daisey Bates, W.EB. Dubois, Claudia Jones, Marcus Garvey, C.R.L. James, Rosa Parks, Martin Luther King, Ella Baker, Malcolm X, Elaine Brown, Angela Davis, os Panteras Negras e tantos outros.

Entre o boicote de mais de um ano de Montgomerry, quando Rosa Parks se recusou a dar seu lugar no ônibus a um homem branco como as regras da segregação previam, até o boicote da NBA, passando pelas lutas de Selma, os “sit ins”, as marchas e rebeliões que marcaram com sangue e fogo a luta antirracista estadunidense, a ação direta da negritude foi a única forma de promover mudanças reais nas políticas e leis racistas do país.

Futuro

Não se sabe onde ou quando os protestos vão parar. A partir das ações do basquete masculino, a liga feminina de basquete (WNBA) também suspendeu os jogos. Há promessa de boicote no baseball também. O mesmo no futebol (soccer deles). Os jogos de tênis do Masters 1000 que estão acontecendo em Nova Iorque foram suspensos depois que uma das maiores tenistas da atualidade, Naomi Osaka, se recusou a participar das semifinais em apoio aos protestos. A frase que Lebron gosta de ostentar, “mais que um atleta”, parece estar ganhando um novo significado, mais amplo e profundo.

Ao que tudo indica, a reunião mais recente dos jogadores da NBA decidiu por retomar os playoffs, à revelia da posição minoritária de Lebron James, dos jogadores dos Lakers e dos Clippers, times de Los Angeles. A paralisação da temporada e saída dos jogadores da bolha para participar dos protestos como parece ter sido a posição de jogadores como James, Donovan Mitchell e Jaylen Brown, poderia significar um novo impulso e um salto de qualidade nos protestos que seguramente receberiam os atletas como verdadeiros heróis e seguramente os transformariam imediatamente em porta-vozes das ruas, papel ainda ausente, difuso e frágil entre os manifestantes.

Contudo, a decisão por seguir os jogos é apenas um capítulo da evolução do movimento, não seu fim. A paralisação dos dias 26 e 27 de agosto de 2020 é um marco na história da NBA e da luta antirracista. Mesmo com jogos, não deverá haver volta atrás na disposição dos jogadores em apoiar as lutas que para nada estão esgotadas. A NBA seguirá sendo uma plataforma para protestos alimentados pelas ruas antes, durante e depois dos jogos. Nos outros esportes também devem acontecer desdobramentos.

Ainda que não haja um programa claro para a disputa, a revolta negra que chegou ao maior palco de entretenimento do mundo está longe de se encerrada. Na noite de terça-feira (25 de agosto), um novo episódio racista provocou reações fortes nas ruas: dois manifestantes foram mortos a tiros e uma pessoa ficou ferida, confrontados por homens brancos armados descritos pela polícia como uma “milícia”. O autor dos disparos é um adolescente de 17 anos que viajou para o estado munido de um fuzil AR 15 com o propósito de atirar contra as manifestações. Há manifestações previstas para a capital e várias cidades estadunidenses  para esta sexta-feira, data que marca o aniversário da Marcha a Washington, comandada por Martin Luther King em 1963.

Todo esse processo inevitavelmente terá impactos eleitorais. Trump e os republicanos têm buscado rotular os protestos como ações de baderna, violência descontrolada ao arrepio das leis. O objetivo claro deste discurso que promove o medo é conquistar eleitores dos subúrbios residenciais de maioria branca que abandonaram o Partido Republicano recentemente e que moram em estados fundamentais para uma vitória na eleição de 3 de novembro, como é o caso de Wisconsin. Essa estratégia, visível na convenção republicana desta semana, segue à risca a cartilha republicana de Nixon, que se reelegeu mesmo acossado pelos protestos de 1968. Trump tenta, com isso, tirar o foco da crise social, racial e sanitária que assola o país.

Por outro lado, as manifestações do Black Lives Matter são muito populares no país que tem acompanhado em cores, por gravações de vídeos em celulares, a brutalidade racista do Estado, durante muito tempo escondida da maioria da população. Para nada está decidido que Trump não será reeleito mas os protestos na rua que agora ganharam as quadras tendem a se chocar de maneira ainda mais direta com o governo e tudo o que Trump representa. Lebron James, mesmo tendo perdido em sua posição pelo cancelamento da temporada, sabe o peso de sua voz e declara guerra a Trump chamando ao registro e ao voto do povo estadunidense. Ainda que os desdobramentos que têm nas ruas seu principal palco ainda sejam imprevisíveis, o certo é que, independentemente dos resultados eleitorais, essa história de luta está longe do apito final.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.