O anacronismo bolsonarista e o vigário bezerro de ouro
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O anacronismo bolsonarista e o vigário bezerro de ouro

Aspectos da política brasileira.

Ana Carolina Menegat e Elias Cloy 5 ago 2020, 19:15

Em tempos de crise sanitária, econômica e cultural passamos por um dos piores momentos no Brasil: um governo composto de um ser totalitarista que utiliza de mentiras e “rédeas” para se manter no poder e esquematizar seu próximo passo. Uma campanha sempre voltada a combater a oposição e impedir críticas, que visa manter o controle dos cidadãos e daqueles que o defendem por meio de seus atos.

Utilizando de práticas conservadoras extremistas relacionadas a idade das trevas, Bolsonaro tenta convencer a população de que a COVID-19 é um ato demoníaco da oposição e se utiliza de argumentos anacrônicos na tentativa de fragilizar a própria ciência. Além disso, atua como um curandeiro nacional, receitando por conta própria um medicamento que pode trazer mais problemas do que soluções no tratamento da doença, colocando milhares de vidas em perigo. Ao supostamente testar positivo para o vírus, o presidente segue difundindo o uso da hidroxicloroquina – medicamento com eficácia duvidosa que apresenta diversos riscos já observados -, afirmando que está bem e que ainda viverá por muito tempo.

A preocupação do atual presidente em manter uma conduta neoliberal econômica e seu controle perante a nação nos mostra a cada fala que a morte dos cidadãos brasileiros não importam, como fica bem claro quando ele diz “e daí?” e “todos nós iremos morrer um dia”, e na demissão de dois ministros da saúde em pouco tempo. Na maior pandemia do século, ocupando o segundo lugar em número de mortes do mundo, o Brasil completa mais de 60 dias sem um ministro titular da saúde e sem nomeações certeiras, contando apenas com um ministro interino, Eduardo Pazuello, que por coincidência é um militar sem afinidades com a área médica, como ele mesmo afirma. Está claro que Bolsonaro está preocupado com a manutenção do seu poder e agradar seus seguidores (a elite) ao invés de assistir à população brasileira que enfrenta um grande caos. Em meio a esse cenário, é importante entender alguns fatores.

Anacronismo das trevas

Em uma perspectiva histórica, a dita “Idade das Trevas” simboliza o fim do império Romano, dando destaque a deterioração no âmbito social total da Europa, termo também que vai simbolizar no período iluminista o embate entre trevas e luz. E é com esse termo que se caracteriza o Brasil desde 2019, com os atos de Jair Messias Bolsonaro, sob orientação de Olavo de Carvalho, que recentemente também rompeu com o presidente.

O corte de recursos na área das ciências humanas, principalmente Filosofia e Sociologia, começam a dar ênfase ao fim do pensamento crítico, trazendo consequências para aqueles que se arriscam a pensar ou questionar fora da caixinha governamental. O desejo desse governo é arrancar as “resistências” e fechar um curto nas mentalidades, até que se finde a luz e que o rumo seja as trevas.

Tais atitudes trazem para nós a demonialização das doenças e o descaso com a saúde e com a ciência. Por conseguinte, o discurso de ódio impera sob as soluções viáveis nesse tempo, como as recomendações da OMS e as recomendações médicas. Por conta desse pensamento do curandeiro das trevas, Jair Bolsonaro, contra a ciência e a favor da cloroquina “santa”, chegamos a mais de 94 mil mortos e 2,7 milhões de infectados no país, e mesmo assim esse pensamento do medievo não muda. Quantas mortes são necessárias para percebermos que tirar Bolsonaro é uma questão ética para minimizar os danos e as mortes causadas pelo vírus?

Para derrotar o anacronismo das trevas perante a pandemia, profissionais da saúde estão se esgotando ao máximo enquanto o senhor das trevas segue dando  passeios de jet-ski, se pronunciando sem máscara – mesmo infectado e indo na contramão de todas as recomendações da OMS. O apoio a ciência agora será extremamente necessário e ser a favor da ciência e da saúde é ser contra Bolsonaro.

O conto do Vigário

“Pouco a pouco, temos ainda que educar os ouvintes alemães para a tolerância, para a aceitação de outros modos de pensar. Enquanto este trabalho não for concluído, as comissões de vigilância são imprescindíveis.” Esta era a opinião de Goebbels, ministro do Interior do Reich, no início da década de 1930.

A partir dessa frase do ministro nazista, podemos refletir que a propaganda governamental baseada em uma nova “educação tolerante” visava controlar as massas através de rádios, sendo vista como melhor forma de concentrar a nação em um pensamento unificado ao do Reich. Logo, o controle e a censura da mídia ficaram na mão da câmara de radiodifusão e todos os funcionários foram obrigados a se filiarem a ela. Em 1939, a cultura do Reich começava a ganhar força.

Infelizmente hoje, em pleno 2020, não está muito diferente. No Brasil, o ministério da cultura visa a uma programação midiática disseminadora de ódio, na qual se faz descaso às mortes e a ciência e homenagem a fascistas. Esse ministério, aliado com o pensamento do presidente, tem gerado intolerância aos profissionais da cultura e jornalista, com falas ignorantes e ataques diários, além da disseminação de fake news que visam desvalorizar o jornalismo e arte brasileira.

O descaso com a cultura brasileira, visando apenas a propaganda totalitária extrema, alimenta o ódio contra o jornalismo nacional e influenciadores culturais e passa a manipular mentes em prol de um governo protofascista. Nunca imaginaria que em pleno período pós-moderno voltaríamos a enfrentar problemas de ataque às mentalidades e a cultura da nação.

O bezerro de Ouro

O bolsonarismo é radical em sua essência, porém as “carreatas da morte” nos mostram uma radicalização religiosa. Para um grupo mais enraizado do movimento bolsonarista, Jair Messias Bolsonaro já não é apenas um líder político, mas sim um ser divino, infalível e inquestionável da seita do “Messias”.

A necessidade humana de se criar uma figura fraternal patriarcal, conforme Harari explica em sua obra HomoDeus, se volta a fabricação de um ídolo para entender as necessidades de um povo, sendo retratada de forma mais explícita na passagem bíblica de Êxodos 32, quando Aarão, para suprir as necessidades do povo com a ausência de Moisés, cria um bezerro de ouro para ser cultuado como esperança para os desolados.

Apesar desse grupo ser composto por uma diversidade em relação às crenças, sendo católicos carismáticos e outra parcela de nenhuma vertente religiosa, o consenso maior do núcleo bolsonarista se dá por neopentecostais, fator que corrobora para o apoio que o presidente ainda encontra na bancada evangélica.

No “neopentecostalismo de Bolsonaro” fica explícita sua desconexão com o próprio evangelho, apesar de usar o nome Jesus em sua propaganda e utilizar de sua imagem para ser o garoto propaganda de sua política, os valores do cristianismo são ignorados e o evangelho serve apenas como “chaveiro” propagandista.

Me arrisco em afirmar que esse movimentismo neopentecostal está mais próximo de uma seita mística, de uma vertente dita cristã que defende um “Messias” de maneira inquestionável e corrobora com sua defesa com o discurso de “nação escolhida”, do que do cristianismo propriamente dito.

Esse bolsonarismo cristão se amalgama por mera conveniência, uma vez que a mensagem cristã é completamente ignorada por um radicalismo compilado por interpretações fundamentalistas do velho testamento.

Em termos históricos, todo este contexto não é novidade e guarda muitas semelhanças com o ocorrido na Alemanha dos anos 1930, quando Hitler inicialmente ascendeu ao poder bajulando ora protestantes, ora católicos, conforme o oportunismo da situação. Ao se consolidar como o centro de um culto personalista, não teve pudores em transmutar sua própria figura de um líder político forte e impulsivo em uma figura messiânica e sabedora de todas as verdades. O “cristianismo positivo”, encabeçado pelo movimento Deutsche Christen durante a ascensão nazista, que se transformou rapidamente em uma seita messiânica, na qual seus membros idolatravam a figura divinizada de Hitler, criando uma mistura de cristianismo distorcido com elementos estéticos de paganismo germânico destinada a se transformar na futura Reichskirche (igreja do reich).

Este contexto, no qual já não existe conexão racional entre o que se pensa crer e o que se crê de fato, é um terreno fértil para o surgimento de um culto messiânico baseado na idolatria de um personagem artificial, fabricado por forças maiores que o próprio presidente, para atender aos desejos de submissão de seus fiéis. É o cenário ideal para a criação de um bezerro de ouro, como o de Aarão.

Assim, com o controle da propaganda, da mentalidade científica e da religião, o bolsonarismo vem crescendo e ganhando força, sendo cada dia mais necessário ser combatido, e cabe a nós, o povo, aqueles que ainda tem esperança de dias melhores e acreditam numa mudança, que beneficiará a todos de maneira comum, nos organizar e nos fortalecer por um ato comum de repúdio ao atual governo, para que novamente possamos acreditar que amanhã há de ser outro dia, como canta Chico Buarque.

O impeachment se torna cada vez mais necessário ao combate a irresponsabilidade com a nação e aqueles que aqui habitam e amam. O fascismo jamais será aceito em nossa nação e para isso devemos lutar de maneira democrática para dar fim a esse lamentável governo.

Já dizia o sábio poeta Mario Quintana, adaptando a nossa realidade:

“Todos esses que aí estão
Atravancando “nosso” caminho,
Eles passarão.
“Nós” passarinho!

Fiquem em casa, lavem as mãos e resistam! Dias melhores virão para aqueles que acreditam na mudança e na esperança de um dia melhor. Todos, uni-vos em um só clamor: Impeachment já!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.