A vitória sobre o golpismo na Bolívia e as lições para o Brasil
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A vitória sobre o golpismo na Bolívia e as lições para o Brasil

A contundente vitória do MAS sobre os candidatos golpistas dá ânimo ao povo boliviano e aos lutadores de toda a América Latina.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 21 out 2020, 19:51

Apesar de pouco noticiada pela mídia neoliberal e pró-imperialista brasileira, a eleição boliviana do último domingo foi o acontecimento mais importante do ano na geopolítica regional. A expressiva vitória popular da fórmula do MAS-IPSP (Luis Arce presidente e David Choquehuanca vice) no primeiro turno, com mais de 50% dos votos conforme todas as pesquisas e contagens iniciais, é uma vitória para nosso continente latino-americano, a Pátria Grande. Parafraseando os versos de Pablo Milanés, a noite de domingo foi de lindos festejos, quando indígenas, mineiros e o povo todo puderam pisar as ruas novamente, após um ano do golpe de 2019 e da repressão que deixou La Paz ensanguentada.

Ano passado, com apoio da OEA, de Trump e de Bolsonaro, o golpe de Estado levou a uma onda de perseguição de políticos do MAS, de dirigentes políticos e sindicais, muitos dos quais tiveram suas casas incendiadas, e levou à renúncia e exílio de Evo Morales e Alvaro García Linera. Como posteriormente comprovaram pesquisadores do MIT, as alegações de fraude eleitoral eram falsas. A repressão, conduzida por forças policiais e do Exército, gerou dezenas de mortes enquanto o governo de fato da golpista Jeanine Áñez adiou as eleições duas vezes e mudou a composição do tribunal eleitoral visando a ampliar sua permanência no governo, o que ficou ainda mais claro com o registro de sua candidatura à presidência, posteriormente retirada em benefício de Carlos Mesa.

A contundente mobilização do povo boliviano, dos movimentos camponeses, indígenas e das organizações operárias derrotou as tentativas de fraude e de eleição de um governo da direita como continuidade do golpe. A votação contundente de Arce e Choquehuanca teve que ser reconhecida interna e externamente. Como afirmamos em editorial recente, a disputa na Bolívia era um dos acontecimentos mais importantes da luta de classes no continente neste ano. A derrota dos candidatos golpistas dá ânimo ao povo boliviano e aos lutadores de toda a América Latina.

O PSOL esteve na linha de frente da solidariedade internacional ao povo boliviano. Nosso partido enviou uma delegação ao país e a líder na Câmara, Sâmia Bomfim, foi observadora do Parlasul, contribuindo com o esforço de fiscalização da eleição e pressão sobre o governo golpista de Áñez.

O povo boliviano mostrou o caminho

Muitos se perguntam por que, ao contrário de outros países onde golpes institucionais foram consumados e proscreveram movimentos sociais e partidos opositores, a volta do MAS ao governo ocorreu tão brevemente. A resposta, em essência, está na mobilização e na auto-organização popular.

O setor golpista, entrincheirado no governo Áñez, tentou de tudo para perpetuar seu poder – se possível, sem a realização de eleições ou até com eleições muito fraudadas. A luta popular, entretanto, impôs-se, com uma ação que unificou setores simpatizantes diretos do MAS a setores que estiveram na oposição ao governo Evo para construir uma agenda comum de resistência e organização popular. Um exemplo desta luta foi a decretação, mesmo em plena pandemia, de uma forte greve geral, organizada pela Federação Mineira. Um dos aspectos fundamentais para o reconhecimento do resultado eleitoral foi a organização das bases. Nas ruas de La Paz, escutava-se que, se não fosse respeitada a vontade popular, “El Alto iria descer”, ou seja, a pressão por meio da mobilização era grande.

Além disso, a grande comunidade boliviana no exterior, especialmente em países como a Argentina e o Brasil, protagonizou uma grande onda de protestos em novembro de 2019, pressionando o governo golpista e chamando a atenção da comunidade internacional para a situação boliviana. Não por acaso, a votação do MAS no exterior foi acachapante, com cerca de 80% dos votos, como mostram os dados preliminares.

Há um tema relacionado ao próprio MAS: a capacidade de renovação e articulação do partido, numa posição que leva em conta a unidade entre o “social” e o “político”. Uma das grandes evidências da campanha eleitoral foi a mensagem de renovação, não apenas na chapa presidencial, mas de uma nova geração de lideranças com capacidade de aglutinar setores como a ex-presidente do Senado Adriana Salvatierra e o jovem líder camponês, com pouco mais de 30 anos, Andrónico Rodriguez. Tal processo também permeia o movimento social, na figura de Orlando Gutierrez à frente do setor mineiro, que tradicionalmente é muito combativo, mas também com uma estrutura em geral muito burocrática.

Bolsonaro saiu derrotado e desmoralizado

Sem dúvida, internacionalmente, Bolsonaro e a extrema-direita continental foram os grandes derrotados com os resultados contundentes da vitória do MAS. A tentativa de transformar o governo brasileiro numa ponta de lança do trumpismo na América do Sul, articulando e subsidiando todo tipo de golpismo, foi derrotada.

Luis Camacho, uma das lideranças golpistas de 2019, foi a expressão boliviana desse fracasso. Tendo participado ativamente das articulações internacionais pelo golpe na Bolívia, Camacho liderou a grotesca operação de tomada do palácio presidencial com bíblias e crucifixos, quando as bandeiras da whipala foram baixadas e queimadas. Apoiado por parcelas da burguesia de Santa Cruz, Camacho teve um resultado eleitoral pífio, de cerca de 10%, conforme mostram as sondagens e os primeiros resultados.

Também perdem e se debilitam os governos conservadores da região, com o de Piñera no Chile, onde agora haverá o plebiscito que deve abrir caminho para uma nova constituição, no aniversário de um ano do grande levante popular de outubro de 2019. A política de Trump para a América Latina também sai derrotada, num momento em que o presidente estadunidense encontra-se em dificuldades na campanha presidencial ianque.

Por tudo isso, a vitória na Bolívia é um motivo de celebração e uma lição importante para os lutadores do Brasil: é nosso papel atuar e criar as condições para derrotar Bolsonaro. É possível e necessário vencer a extrema-direita no Brasil e na América Latina!

Na linha justa e na linha de frente: PSOL em solidariedade ao povo boliviano!

Nossa corrente, desde o golpe, tem-se dedicado à campanha em solidariedade internacional ao povo boliviano. Esta batalha política foi prontamente acolhida pelo PSOL. Temos orgulho do papel que cumpriu nossa companheira Sâmia Bomfim e a delegação internacional do partido, com presença de Bruno Magalhães, coordenando as atividades do Observatório Internacional do PSOL, e da companheira Ana Carvalhaes.

Ao mesmo tempo, temos buscado nos integrar à comunidade boliviana e às tarefas de solidariedade que se abrem no curto prazo, como a campanha internacional por Justiça Para as Vítimas do Massacre de Senkata, ação policial realizada em novembro de 2019 que executou dezenas de jovens na cidade de El Alto no contexto do golpe de Estado.

A grande lição que fica é a de que é possível derrotar a extrema-direita golpista, mas são necessárias a mobilização e a auto-organização popular, além de um programa voltado para os interesses da maioria social. Para esta tarefa, o PSOL dedicará seus esforços!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.