As duas internets

As duas internets

Há mais um processo de divisão em duas internets: na China, Facebook e Google são barrados. Se Trump se impuser, as empresas chinesas serão barradas no ocidente.

Francisco Louçã 12 out 2020, 21:17

A ofensiva de Trump contra a China, tendo como alvos imediatos a Huawei, a TikTok e a WeChat, é a guerra fria do nosso tempo. O resultado será a polarização do mundo entre duas internets.

O poder de mandar

A ordem da Casa Branca para proibir, a partir deste mês, o fornecimento de semicondutores é um golpe poderoso contra a Huawei. A empresa chinesa, que domina o 5G, depende da compra de chips e pode ficar sem acesso aos fornecedores. O efeito é mundial: uma empresa de Taiwan, a MediaTek, pediu às autoridades norte-americanas autorização para lhe continuar a vender, mas o Departamento do Comércio, que conduz a operação sob instruções do Presidente, deve recusar a licença. Mesmo o principal fornecedor chinês, a SMIC, pode ter que fechar os seus negócios com a Huawei, dado que depende de equipamento importado dos EUA e não pode arriscar-se a ficar sem essa capacidade.

Vários aliados de Trump, como Boris Johnson ou o Governo australiano, já tinham obedecido à ordem de anular os contratos com a Huawei. Portugal fica numa posição curiosa, dado que sofre a pressão da Casa Branca para recusar a Huawei, por ser uma empresa com ligações ao Governo chinês, mas Passos Coelho vendeu as empresas de energia a capital oficialíssimo de Pequim. Em todo o caso, a Huawei, dada a sua vantagem efetiva no 5G, aumenta a sua quota de mercado, pelo que Washington decidiu atacar a sua cadeia de fornecimento. Esse bombardeamento é, para já, efetivo, dado que a indústria norte-americana ainda domina alguns segmentos de máquinas sofisticadas e tem vantagem científica em semicondutores. Mas tem uma consequência: a China procurará avançar depressa na produção desses equipamentos e na investigação em chips ou em sistemas operativos. E pode recuperar o atraso em poucos anos. Assim, as empresas chinesas podem tornar-se autossuficientes em tecnologia de ponta.

A vingança

É por saber que o conflito não tem solução na guerra contra a Huawei, e que se trata de uma disputa pelo mercado global, que Trump, que ainda controla os circuitos financeiros e alguma alta tecnologia, ataca também as redes de difusão e de fidelização de utilizadores. Foi por isso que tomou como alvo a TikTok, com 100 milhões de utilizadores nos EUA, e a WeChat, duas das empresas chinesas que melhor penetram no mercado norte-americano.

O argumento das suspeitas é escasso. De facto, tem havido muito mais evidência de abuso de posição dominante e de desrespeito pelos direitos dos utilizadores pelo Facebook e pelo Twitter do que pela TikTok, sobre a qual só pende uma alegação sobre a nacionalidade da empresa proprietária e uma vingança pelo fracasso clamoroso de um comício eleitoral do Presidente norte-americano. Mas, ao que se saiba, a Cambridge Analytica baseou-se em dados disponibilizados pelo Facebook, e não pela empresa chinesa. Em todo o caso, temos aqui mais um processo de divisão do mundo em duas internets: na China, Facebook e Google são barrados, e, se Trump se impuser, as empresas chinesas serão barradas no ocidente.

E ainda há os jogos

Tecnologia de produção e sistemas de acesso são, assim, as duas primeiras frentes desta batalha. E há uma terceira, os jogos. A chinesa Tencent, dona da WeChat e que já tem uma margem operacional maior do que o Facebook, está a apostar nos jogos em streaming, fundindo as plataformas Huya e DouYu. Ficaria com 300 milhões de utilizadores na China, a somar a posições dominantes noutros mercados: quando a Tencent comprou a RiotGames norte-americana, adquiriu a League of Legends, cuja final do campeonato foi vista online por 44 milhões de pessoas, o dobro das que assistiram à final do baseball. Neste domínio, é ainda a luta entre empresas que predomina, a Apple e a Google contra a Epic Games, que produz o Fortnite, ou todas as empresas norte-americanas contra a Tencent, mas depressa será entre Governos.

As duas internets lutam pela atenção e pelos dados, as armas mais poderosas do nosso tempo. A guerra já começou.

Artigo publicado no jornal Expresso em 26 de setembro. Reprodução da versão disponibilizada pelo esqueerda.net.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.