Para derrotar o fascismo na eleição estadunidense e além, é preciso reconhecer que se trata de uma resposta fracassada à crise capitalista
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Para derrotar o fascismo na eleição estadunidense e além, é preciso reconhecer que se trata de uma resposta fracassada à crise capitalista

Sobre a eleição nos Estados Unidos e a luta contra o trumpismo e o neofascismo ao redor do mundo.

William Robinson 3 nov 2020, 18:32

Poucos discordariam, à luz dos eventos recentes, que o governo Trump, seus apoiadores mais obstinados, supremacistas brancos da extrema-direita mais fanática e elementos do Partido Republicano estão cogitando um golpe fascista. Se esse golpe continuará avançando ou se ele será derrotado é algo que depende de como se desenrolam os acontecimentos na eleição de 3 de novembro e suas sequelas, e especialmente da capacidade da esquerda e das forças progressistas de se mobilizar em defesa da democracia e em prol de uma agenda de justiça social como um contraponto ao projeto fascista.

Esta luta pode se beneficiar de uma clareza analítica sobre o que nós enfrentamos – em particular, a análise que vincula a ameaça do fascismo ao capitalismo e sua crise. Eu tenho escrito sobre a ascensão dos projetos fascistas por todo o mundo neste século desde 2008. Embora um projeto deste tipo esteve sendo gestado nos EUA desde o começo do século XXI, ele entrou num estágio qualitativamente novo com o surgimento do trumpismo em 2016 e parece estar sendo acelerado agora conforme se aproximam as eleições.

No panorama mais amplo, fascismo – seja no século XX ou em sua variante no século XXI – é uma resposta particular da extrema-direita à crise capitalista, como aquela da década de 1930 e aquela que começou com o colapso financeiro de 2008 e que agora foi enormemente intensificada pela pandemia. O trumpismo nos EUA, o Brexit no Reino Unido, a crescente influência dos partidos e movimentos neofascistas e autoritários por toda a Europa (incluindo Polônia, Alemanha, Hungria, Áustria, Itália, Países Baixos, Dinamarca, França, Bélgica e Grécia) e por todo o mundo (tal como em Israel, Turquia, Filipinas, Brasil e Índia) representam uma resposta da extrema-direita à crise.

Trumpismo e fascismo

Os signos reveladores da ameaça fascista nos Estados Unidos saltam à vista. Movimentos fascistas expandem-se rapidamente desde a virada do século na sociedade civil e no sistema político através da ala mais à direita do Partido Republicano. Trump provou ser uma figura carismática capaz de galvanizar e encorajar forças neofascistas díspares, dos supremacistas brancos, nacionalistas brancos, milícias, neonazis e membros da Ku Klux Klan até os Oath Keepers, o Movimento Patriótico, os fundamentalistas cristãos e os grupos justiceiros anti-imigrantes. Desde 2016, outros grupos numerosos emergiram, dos Proud Boys e QAnons ao movimento Boogaloo (cujo objetivo explícito é provocar uma guerra civil) e ao grupo terrorista de Michigan conhecido como Wolverine Watchmen. Eles estão fortemente armados e se mobilizando para o confronto em sintonia quase perfeita com a ala da extrema-direita do Partido Republicano, a qual há muito tempo capturou o partido e o tornou um instrumento absoluto do reacionarismo.

Animados pelas bravatas imperiais de Trump, sua retórica nacionalista e populista, e seu discurso abertamente racista, radicado em parte no sentimento anti-imigrante, antimuçulmano e antinegro, eles começaram a polinizar de forma cruzada até um grau jamais visto em décadas, ao mesmo tempo em que ganhavam terreno na Casa Branca de Trump e nos governos locais e estaduais de todo o país. O paramilitarismo espalhou-se dentro de muitas dessas organizações e se sobrepôs às agências repressivas estatais. As milícias racistas, fascistas e de extrema-direita, identificadas pelo FBI e pelo Departamento de Segurança Nacional como a ameaça terrorista doméstica mais letal, operaram dentro das agências policias. Já em 2006, uma avaliação de inteligência governamental alertava sobre “a infiltração dos supremacistas brancos nos aparatos policiais por grupos organizados e a infiltração autoiniciada por agentes policiais simpáticos às causas supremacistas brancas”.

A insurgência fascista alcançou um ponto máximo na esteira dos protestos massivos provocados pelo assassinado de George Floyd perpetrado pela polícia em maio. Entre os incidentes recentes bastante numerosos para serem enumerados, os membros das milícias fascistas se apresentaram de forma rotineira fortemente armados em manifestações antirracistas com o objetivo de ameaçar os manifestantes e, em vários casos, cometeram assassinatos. Trump negou-se a condenar a insurgência armada da extrema-direita. Ao contrário, ele defendeu um autodenominado justiceiro e entusiasta do movimento “Blue Lives Matter” [“As vidas dos policiais importam”] que atirou para matar em manifestantes desarmados em Kenosha (Wisconsin) em 25 de agosto. Em 3 de setembro, agentes federais executaram extrajudicialmente Michael Reinoehl, quem admitiu ter disparado alguns dias antes em um membro do grupo supremacista branco Patriot Prayer durante um confronto entre manifestantes contra e favor de Trump em Portland, Oregon. “É preciso haver represálias”, declarou Trump numa entrevista assustadora na qual ele parecia se arrogar os méritos de um fato que equivalia a uma execução por um esquadrão da morte.

Particularmente sinistro foi o complô de um grupo miliciano terrorista, dissolvido em 8 de outubro, para assaltar a capital de Michigan, sequestrar e possivelmente matar o governador e outros funcionários, uma conspiração que a Casa Branca recusou-se a condenar. Embora haja grandes diferenças entre o fascismo do século XX e o do século XXI e não se deva exagerar qualquer paralelismo, seria bom recordar o“Putsch da Cervejaria” na Baviera, Alemanha, que marcou um ponto de inflexão na ascensão nazista ao poder. Naquele incidente, Hitler e um grupo fortemente armado de seus seguidores tramaram um complô para sequestrar os líderes do governo bávaro. Oficiais leais ao governo sufocaram o golpe de Estado e encarceraram Hitler, mas a insurgência fascista alastrou-se como consequência.

O golpe fascista agora depende das eleições de novembro. O Estado de Direito está sendo derrubado. Trump já afirmou, sem nenhuma evidência crível, que as eleições serão fraudulentas, negou-se a comprometer-se com a transição pacífica do poder em caso de derrota, e sobretudo pediu a seus apoiadores que estejam preparados para uma insurreição. Ele próprio um capitalista transnacional, um racista e um fascista, Trump aproveitou os protestos pelo assassinato de George Floyd para levar o projeto para um novo nível, incitando, a partir da própria Casa Branca, a mobilização fascista na sociedade civil estadunidense, manipulando o medo e a reação racista com seu discurso de “lei e ordem”, e ameaçando uma escalada qualitativa do Estado policial. A supressão generalizada e sistemática de eleitores, especialmente dos situados em comunidades marginalizadas, já privou milhões de pessoas de seus direitos políticos. Donald Trump Jr. pediu em setembro que “todos os homens e mulheres sãos se unissem a um exército para a operação de segurança eleitoral de       Trump”.

Morfologia do projeto fascista

A atual crise do capitalismo global é tanto estrutural quanto política. Politicamente, os Estados capitalistas enfrentam crises de legitimidade em espiral depois de décadas de dificuldades e de decadência social provocadas pelo neoliberalismo, agravadas agora pela incapacidade destes Estados de gerirem a emergência sanitária e o colapso econômico. O nível de polarização e de desigualdade social global não encontra precedentes. A parcela de 1% mais rica da humanidade controla mais da metade da riqueza mundial enquanto os 80% do estrato inferior precisam conformar-se com apenas 5% desta riqueza. Desigualdades tão extremas podem somente ser sustentadas por níveis extremos de violência estatal e privada que servem aos projetos políticos fascistas.

Estruturalmente, a economia global está imersa numa crise de superacumulação, ou estagnação crônica, piorada pela pandemia. Enquanto as desigualdades aumentam, o sistema produz cada vez mais riquezas que a massa de trabalhadores não pode consumir. Como resultado, o mercado global não consegue absorver a produção da economia global. A classe capitalista transnacional não pode encontrar saídas para “descarregar” os trilhões de dólares já acumulados. Nos anos recentes, chegaram a níveis alucinantes a especulação financeira, o assalto e a pilhagem dos orçamentos públicos e a acumulação militarizada (ou acumulação por repressão). Isso refere-se a como a acumulação de capital chega a depender cada vez mais dos sistemas transnacionais de controle social, repressão e guerra, e a como o Estado global expande-se para defender a economia de guerra global das rebeliões a partir de baixo.

O fascismo busca resgatar o capitalismo dessa crise orgânica; isto é, ele busca restaurar violentamente a acumulação de capital, estabelecer novas formas de legitimidade estatal e suprimir ameaças vindas de baixo desincumbido de restrições democráticas. O projeto envolve uma fusão de um poder estatal repressivo e reacionário com uma mobilização na sociedade civil. O fascismo do século XXI, como o seu antecessor no século XX, é uma mistura violentamente tóxica de nacionalismo e racismo. Seu repertório discursivo e ideológico envolve nacionalismo extremo e a promessa de uma regeneração nacional, xenofobia, doutrinas de raça/supremacia cultural junto a uma mobilização violenta racista, masculinidade marcial, militarização de uma vida política e cívica e a normalização – ou mesmo a glorificação – da guerra, da violência social e da dominação.

Como sucedeu no fascismo do século XX, o projeto fascista deste século depende do mecanismo psicossocial de disseminar o medo e a ansiedade das massas (num tempo de crise aguda do capitalismo) em relação às comunidades tratadas como bodes expiatórios, sejam elas judias na Alemanha nazista, imigrantes nos Estados Unidos ou muçulmanas na Índia, além de um inimigo externo, como o comunismo durante a Guerra Fria, ou a China e a Rússia atualmente. Ele busca organizar uma base social massiva com a promessa de restaurar a estabilidade e seguranças que foram desestabilizadas pelas crises capitalistas. Os organizadores fascistas apelam para a mesma base social daqueles milhões que foram devastados pela austeridade neoliberal, o empobrecimento, o emprego precário e a transferência para as fileiras de mão-de-obra excedente, tudo isso agravado pela pandemia. Conforme o descontentamento popular se espalhou, a mobilização da extrema-direita e dos neofascismos cumpriu um papel crítico no esforço dos grupos dominantes para canalizar esses descontentamentos para longe de uma crítica do capitalismo global e na direção de apoiar a agenda da classe capitalista transnacional disfarçada pela retórica populista.

O apelo fascista é direcionado em particular para setores historicamente privilegiados da classe trabalhadora, tais como os operários brancos do Norte Global e as camadas médias urbanas no Sul Global, que estão experimentando uma maior insegurança e o espectro da mobilidade descendente e da desestabilização socioeconômica. O outro lado da moeda de se direcionar para certos setores descontentes é o controle violento e a repressão de outros setores – que, nos Estados Unidos, provêm de maneira desproporcional das fileiras de mão-de-obra excedente, das comunidades que enfrentam a opressão racial e étnica, ou religiosa, além de outras formas de perseguição.

Os mecanismos de exclusão coercitiva incluem o encarceramento massivo e a disseminação de complexos industriais de prisão; a legislação contra imigrantes e os regimes de deportação; a manipulação do espaço de novas formas para que tanto as comunidades fechadas como os guetos sejam controlados por exércitos de guardas de segurança privada e sistemas de vigilância tecnologicamente avançados; o policiamento ubíquo, frequentemente paramilitarizado; os métodos “não letais” de controle de multidões; e a mobilização das indústrias culturais e dos aparatos ideológicos estatais para desumanizar as vítimas do capitalismo global como perigosas, depravadas e degeneradas culturalmente.

Racismo e interpretações concorrentes da crise

Nós não podemos subestimar o papel do racismo para a mobilização fascista nos Estados Unidos. Mas necessitamos aprofundar nossa análise sobre isso. O sistema político estadunidense e os grupos dominantes enfrentam uma crise de hegemonia e de legitimidade. Isso envolve o colapso do bloco histórico racista branco que, numa ou noutra medida, reinou de modo supremo desde o fim da reconstrução do pós-Guerra Civil até o final do século XX, mas que se desestabilizou através da globalização capitalista. A extrema-direita e os neofascistas estão tentando reconstruir semelhante bloco, em que a identidade “nacional” se torna “identidade branca” como um substituto (isto é, um código) de uma mobilização racista contra aquilo que eles percebem como fontes de ansiedade e insegurança.

Entretanto, muitos integrantes brancos da classe trabalhadora vêm experimentando uma desestabilização econômica e social, uma mobilização descendente, uma maior insegurança, um futuro incerto e uma precarização acelerada – ou seja, condições de trabalho e de vida cada vez mais precárias. Este setor historicamente desfrutou dos privilégios étnicos e raciais que provêm da supremacia branca frente a outros setores da classe trabalhadora, mas foi perdendo tais privilégios com a globalização capitalista. A escalada de um discurso velado e também abertamente racista a partir de cima tem como objetivo levar os membros deste setor branco da classe trabalhadora a uma compreensão racista e neofascista de sua condição.

O racismo e o apelo ao fascismo oferecem aos trabalhadores do grupo racial ou étnico dominante uma solução imaginária para contradições reais: o reconhecimento da existência de sofrimento e opressão, ainda que a solução seja falsa. Os partidos e os movimentos associados a tais projetos apresentaram um discurso racista, menos codificado e menos mediado que os políticos mainstream, atacando as minorias racial, étnica ou religiosamente oprimidas, imigrantes e refugiados em particular, como bodes expiatórios. Entretanto, nessa era de capitalismo globalizado, há pouca possibilidade, nos Estados Unidos ou em outros lugares, de se oferecer tais benefícios, pelo que o “salário do fascismo” agora parece ser inteiramente psicológico. A ideologia do fascismo do século XXI repousa na irracionalidade – uma promessa de entregar segurança e restaurar a estabilidade que é emotiva, não racional. É um projeto não faz (e não necessita fazer) distinção entre a verdade e a mentira.

O discurso público do governo Trump de populismo e nacionalismo, por exemplo, não guarda relação com suas políticas atuais. “Trumponomics” – a política econômica de Trump – envolve uma desregulação do capital, cortes no gasto social, desmantelamento do que restou do Estado de bem-estar social, privatização, isenções fiscais para corporações e para os ricos, leis antitrabalhistas e uma expansão dos subsídios estatais ao capital – em resumo, um neoliberalismo radical. O populismo de Trump não tem substância política. É quase que inteiramente simbólico – daí o significado de seu lema fanático “construir o muro” e retórica similar, simbolicamente essencial para sustentar uma base social para a qual o Estado pode proporcionar pouco ou nenhum suborno material. Isso também ajuda a explicar o crescente desespero nas bravatas de Trump conforme se aproximam as eleições.

Mas aqui há um fator decisivo: as condições socioeconômicas deteriorantes e a insegurança crescente não levam automaticamente a uma reação racista ou fascista. Uma interpretação racista/fascista dessas condições deve ser mediada por agentes políticos e agências estatais. O trumpismo representa tal mediação.

Para enfrentar a ameaça do fascismo, as forças de resistência popular devem apresentar uma interpretação alternativa da crise, envolvendo uma agenda de justiça social fundada numa política da classe trabalhadora que pode conquistar a possível base social do fascismo. Essa possível base é composta em sua maioria de trabalhadores que experimentaram os mesmos efeitos deletérios do capitalismo global em crise assim como toda a classe trabalhadora. Nós necessitamos de uma agenda de justiça social e da classe trabalhadora que responda a sua condição crescentemente miserável, a fim de que não a deixemos suscetível à manipulação da extrema-direita populista dessa condição. Joe Biden deve ganhar a eleição. Entretanto, mesmo que ele triunfe e consiga tomar posse, continuarão existindo a crise do capitalismo global e o projeto fascista abordado neste artigo. Uma frente única contra o fascismo deve se basear numa agenda de justiça social que mire no capitalismo e em sua crise.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.