A combinação de lutas pela vacinação
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A combinação de lutas pela vacinação

A vacina é uma necessidade de todos e que não pode ser tratada como uma política pública exclusiva para alguns.

João Pedro de Paula 16 dez 2020, 12:11

A conta de Jair Bolsonaro fica cada vez maior. Superamos recentemente 180 mil mortos pela pandemia da COVID-19, sendo que muitas vidas teriam sido evitadas se houvessem políticas concretas para o enfrentamento dessa crise. A tendência é que o governo continue a legitimar o genocídio que ocorre no país, como já disse o presidente: “estamos no finalzinho da pandemia”.

Países como a Inglaterra já iniciaram o processo de vacinação da população. No Brasil, o Estado de São Paulo e a cidade de Niterói saíram na frente com negociações para campanhas no início do ano. Contudo, trata-se de um estado e uma cidade que estão entre os mais ricos do país. A vacina é uma necessidade de todos e que não pode ser tratada como uma política pública exclusiva para alguns.

Uma pesquisa elaborada pelo Datafolha demonstrou que 73% dos brasileiros pretendem tomar a vacina contra o coronavírus. Jornais como a Folha de S. Paulo já publicaram editoriais exigindo a vacinação e o próprio STF exigiu que o governo apresente uma previsão de início e término do Plano Nacional para tanto. A tensão é iminente, temos claramente uma luta de maioria social. Mas sabemos que a saída deve passar por nossas mãos. Bolsonaro já acumula mais de 50 pedidos de impeachment, todos protegidos por Rodrigo Maia. Não podemos delegar a institucionalidade uma tarefa que ela sozinha não pode e nem pretende cumprir. A barbárie que vem sendo gerenciada e blindada por Maia, o “centrão democrático” e a “direita científica” não será encerrada espontaneamente.

A nossa tarefa central é construir uma luta imediata pela vacinação! Isso só sera possível com a combinação de todos os atores sociais que acumularam forças nesse último período, os quais tiveram expressão tanto nas ruas como nas eleições. Como as mulheres que protagonizaram o #EleNão; o setor da educação que colocou milhares de pessoas em defesa das universidades em 2019 e impôs derrotas ao governo federal; o povo que se ergueu no levante antirracista deste ano; além dos trabalhadores da saúde que lutaram por condições dignas de trabalho. Trazer a unidade de ação para os movimentos é o desafio que está colocado para nós.

A luta é antirracista porque são os negros que mais morrem e adoecem por conta da Covid, como apontou uma pesquisa da Fiocruz. É feminista pois muitas mulheres se expõe mais ao vírus diante do trabalho de cuidado que lhes é imposto pela sociedade patriarcal. Vale lembrar: a primeira vítima fatal da pandemia no Rio foi uma empregada doméstica de 63 anos, que contraiu o vírus pela sua patroa em um apartamento no Leblon.

A luta é pelo SUS, já que para uma imunização universal e gratuita o sistema de saúde pública deve ser fortalecido com investimentos. Não podemos deixar esse processo ser terceirizado a instituições privadas, que gerenciam vidas pela lógica excludente do lucro. Muito menos deixar essa luta ser protagonizada por agentes políticos da burguesia, como João Dória e Luciano Huck, que atuam firmemente pela precarização da saúde pública.

Vale ressaltar que poucos países tem uma sistema de saúde unificado que pode facilitar o processo de vacinação se for devidamente utilizado. O SUS é um patrimônio nosso. Devemos portanto pautar sua valorização e fortalecimento nesse processo.

Também passa pelos milhares de estudantes e trabalhadores que lutaram contra os cortes em 2019 nos Tsunamis da Educação. São as universidades públicas que possuem hospitais de excelência, mas que se encontram sem verbas, além de pesquisadores com capacidade de contribuir para um melhor plano de imunização. Sem instituições de ensino fortalecidas, o enfrentamento da pandemia é enfraquecido.

2020 foi um ano em que a tamanha indignação foi contida em parte pela pandemia. Agora nossos esforços tem que ser dirigidos para essa convergência dos movimentos sociais a favor de uma campanha nacional de vacinação! Quanto antes ocorrer a imunização, mais vidas serão salvas: estamos numa luta contra o tempo em meio a ausência de leitos nos hospitais. Mas também se trata de um embate que permitirá a retomada em peso das ruas. Se no início do ano somamos mais de um milhão de assinaturas pelo impeachment do presidente (naquele pedido liderado pelos deputados federais do Juntos!), poderemos colocar boa parte dessa revolta em movimento em 2021. A derrota de Bolsonaro e seu negacionismo perpassa por essa importante batalha que só pode ser travada por lutas sociais.

Artigo originalmente publicado no site do Juntos!.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.