TRANSgressão política: a força das candidaturas transexuais nas eleições municipais de 2020
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TRANSgressão política: a força das candidaturas transexuais nas eleições municipais de 2020

Assistimos no último dia 15 de novembro uma ascensão política significativa da comunidade T nas eleições municipais brasileiras.

Nicole Tassar e Thiago Moreira 4 dez 2020, 14:47

Assistimos no último dia 15 de novembro uma ascensão política significativa da comunidade T nas eleições municipais brasileiras, comunidade que na sigla oficial LGBTQI+ representa pessoas transexuais e travestis. ​Segundo a ANTRA -Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil​, foram​ contabilizadas duzentas e noventa e três candidaturas de pessoas trans nas eleições de 2020, um número histórico, sendo duzentas e sessenta e duas candidaturas de mulheres trans ou travestis, dezenove de homens trans e doze de pessoas que se identificam como não-binárias.

De todas estas, trinta foram democraticamente eleitas. Número nunca antes alcançado na história do país e que representa 200% a mais se comparado aos números das eleições de 2016. O recorde dessas representações políticas nos coloca diante da oportunidade de presenciar um capítulo importante da história da luta pelos direitos das pessoas trans, mas também desperta o sentimento de contradição, já que o próprio sistema define que os recordes ligados à essas pessoas no Brasil sejam infelizmente cruéis e desumanos. No mesmo ano em que o número de rostos transexuais impressos nas urnas por todo o Brasil cresceu, também houve um aumento de 47% nos assassinatos dessas pessoas em relação ao mesmo período de 2019. Foram, até aqui, cento e cinquenta e uma mulheres e travestis mortas pelo sistema que insiste em tentar negar as identidades de toda uma população.

O paralelo entre os dois recordes mostra que várias mulheres trans não puderam ser combatidas pelo sistema, o que tornou-as portanto, combativas. A importância da ocupação de espaços políticos institucionais pela população trans é uma luta por sobrevivência e reconhecimento de dignidade. Por mais progressista e aliado à causa que fosse qualquer representante político cisgênero, este jamais seria capaz de entender as subjetividades de ser transexual em um país historicamente transfóbico e que ocupa, ainda hoje, o primeiro lugar nos assassinatos de transgêneros no mundo.

Por isso o papel de pessoas cis, protagonistas no processo comunicacional, precisa ser de amplificar essas vozes que ecoam em toda parte. É obrigação da grande mídia e dos produtores do bom jornalismo trazer para suas pautas conquistas como esta, de uma população que se mostra cansada por aparecer nas manchetes apenas como estatística. Os nomes das candidatas e candidatos eleitos de norte a sul do país precisam ser conhecidos, com destaque para a primeira categoria, já que entre as trinta candidaturas eleitas, apenas uma foi de um homem trans. Eleito vereador de São Paulo entre os vinte mais votados, Thammy Miranda teve 40 mil votos e representa o primeiro homem trans eleito para um cargo público no país.

Essa discrepância nos números não é representada apenas no momento da eleição, ao mesmo tempo em que mais mulheres trans chegaram ao poder dos cargos públicos, elas também são a maioria nos números referentes a violência. No ano de 2020, 100% dos casos de generocídio – termo que define o assassinato de pessoas apenas pelo seu gênero – foram contra mulheres trans e travestis, em sua maioria, negras. É um grito de resistência os resultados nas urnas, quando 35% das eleitas são mulheres negras e sete candidatas foram as mais votadas em suas

cidades, sendo​ elas: Linda Brasil (Aracaju – SE), Dandara (Patrocínio Paulista – SP), Tieta Melo (São Joaquim da Barra – SP), Lorim de Valéria (Pontal – SP), Duda Salabert (Belo Horizonte – MG), Titia Chiba (Pompeu – MG) e Paullete Blue (Bom Repouso – MG).

Outro destaque importante a ser pontuado é a candidatura de Érika Hilton, a candidata travesti e negra de São Paulo que alcançou várias marcas importantes, contrariando as estatísticas e sendo eleita como a mulher mais votada da maior cidade da América Latina. Além disso, Érika foi também a mulher negra mais votada na história de São Paulo e a mulher mais bem votada do PSOL em todo o Brasil.

“Sigamos firmes, sigamos resistentes, sigamos resilientes. Estamos dando apenas um ​start no que será uma longa, bela e produtiva caminhada, não seremos interrompidas, não nos intimidaremos e faremos história não só na câmara municipal de São Paulo, faremos história no mundo, porque nossas vozes vão ecoar. […] Este não é um mandato de gabinete, é um mandato do povo. Sepreparem, as travestis, as negras, as pobres voltaram com força e para fazer revolução!” disse Érika no discurso da vitória em sua rede social.

Que seja assim, o primeiro passo para uma grande revolução agregadora, em que este e outros grupos minoritários façam parte da estruturação de uma nova noção de sociedade, respeitando suas especificidades, potencialidades e principalmente necessidades. Que seja o princípio de uma real TRANSformação na política desse país.

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Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.