Não ao fechamento da Ford! O governo precisa agir
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Não ao fechamento da Ford! O governo precisa agir

Ford anuncia o encerramento de suas atividades no Brasil. Bolsonaro e governadores se eximem da responsabilidade. Exigimos providências!

MEOB, MOVER e TLS 20 jan 2021, 14:25

No dia 11/01, a Ford anunciou que fechará as fábricas que ainda operam no Brasil. Os milhares de trabalhadores que ficarão sem empregos souberam da medida pelas redes sociais. Meses antes, a empresa anunciou novos investimentos, o que fez os trabalhadores acreditarem que seus empregos estavam garantidos. A forma desrespeitosa com que a companhia tratou seus funcionários os deixou desolados.

Atualmente, a Ford opera em Taubaté-SP, Horizonte-CE e Camaçari-BA. A situação é particularmente dramática nesta última. Toda a economia da cidade depende da fábrica. Comerciantes e prestadores de serviços sobrevivem graças à movimentação econômica gerada pela renda dos operários da Ford. Sem estes empregos, a economia da cidade pode entrar em colapso.

Os futuros ex-funcionários da Ford irão engrossar a fila de brasileiros desempregados que já soma 14,1 milhões de pessoas, de acordo com último levantamento do IBGE. Menos da metade da população em idade para trabalhar está ocupada atualmente. A situação torna-se ainda mais preocupante com o encerramento do auxílio emergencial.

Não serão apenas os 5 mil contratados diretos da Ford que ficarão sem emprego. As fábricas são a base de uma cadeia de valor que emprega indiretamente ou de forma induzida muitos outros trabalhadores. Portanto, de acordo com pesquisa realizada pelo DIEESE, até 118.864 postos de trabalho serão perdidos com a saída da empresa do Brasil, ocasionando uma redução na massa salarial de R$ 2,5 bilhões ao ano. Além disso, o impacto na atividade econômica do país irá reduzir a arrecadação de impostos em R$ 3 bilhões ao ano.

É preciso lembrar ainda que esta bomba econômica foi detonada num contexto de grave crise humanitária – cuja expressão máxima foi o indignante sufocamento em massa causado pela falta de cilindros de oxigênio em Manaus -, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dos trabalhadores.

Diante dessa catástrofe na vida dos trabalhadores, a postura de Bolsonaro foi, assim como na condução da crise sanitária e de qualquer tema de seu governo, covarde. O presidente declarou que a Ford estava saindo pois o governo se recusou a conceder benefícios fiscais. E ainda completou, como quem lava as mãos: “Perdeu a concorrência. Lamento.” Dessa forma, Bolsonaro trata a questão como se não houvesse mais o que fazer, preocupando-se mais em se eximir da responsabilidade do que resolver o problema dos desempregados. Afinal, conceder benefícios fiscais é a única coisa que o governo poderia ter feito?

Para responder a esta pergunta, é preciso entender, primeiramente, por que a Ford está deixando o Brasil. Os economistas liberais argumentam que a causa foi o que chamam de “custo Brasil”: “excesso” de direitos trabalhistas e normas burocráticas e “altos” salários e impostos. Isto obviamente é uma falácia. Desde 1999, a Ford recebeu R$20 bilhões em isenções fiscais. Além disso, a reforma trabalhista, que retirou direitos dos trabalhadores, jamais teve impacto na geração de empregos. Portanto, não é por excesso de impostos ou encargos trabalhistas que esta e outras indústrias deixam o Brasil.

De acordo com a própria Ford, os motivos seriam: desvalorização do real, que faz com que torne-se muito custoso importar peças para serem montadas aqui no Brasil; diminuição dramática nas vendas; interesse da companhia em investir em plantas mais modernas para a fabricação de carros elétricos. Todos esses motivos são consequências da política econômica neoliberal adotada nas últimas décadas no Brasil e que ganhou contornos mais puros no governo Bolsonaro. A desvalorização do real foi adotada para beneficiar especuladores e exportadores de itens básicos, como o agronegócio. A diminuição nas vendas é consequência da falta de políticas de geração de emprego e renda e do aumento da desigualdade. Por fim, a impossibilidade de se criar fábricas com tecnologia de ponta é consequência da falta de investimento em educação, ciência e tecnologia.

Dessa forma, o fechamento da Ford, infelizmente, não é um fato isolado. Segue na esteira da desindustrialização que ocorre no Brasil desde os anos 1980. Trata-se do fenômeno que Plínio de Arruda Sampaio Jr. denomina “reversão neocolonial”: o Brasil tem aprofundado as características típicas de uma economia colonial – alta desigualdade, produção de itens básicos para exportação, alta dependência das potências estrangeiras. Nos últimos 6 anos, este processo recrudesceu ainda mais. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o Brasil perdeu em média 17 fábricas por dia no período. O governo Bolsonaro é um agente ativo da reversão neocolonia ao estimular a exploração ambiental desenfreada, o aumento da desigualdade e a dependência de nossa economia em relação à exportação de commodities, como o agronegócio. Portanto, não pode fingir que não possui responsabilidade neste caso.

Mas, afinal, o que o governo deveria fazer diante do fechamento da Ford no Brasil? Exigimos, primeiramente, que o governo utilize todo seu arsenal jurídico para impedir as demissões. Garantidos os empregos pelos próximos meses, o governo deve então comprar as fábricas e iniciar o processo de reversão industrial, isto é, de transformação dessas indústrias para que produzam não mais automóveis poluentes mas soluções para problemas ambientais e sociais, como a produção de respiradores. Finalmente, como política estrutural para evitar novos fechamentos, deve-se investir em ciência e tecnologia assim como remodelar toda a política fiscal e tributária de modo a reverter o processo de desindustrialização.

A indignação contra o governo aumenta. Protestos e pedidos de impeachment voltam à pauta do dia. A hecatombe econômica, social e sanitária pela qual estamos passando não pode ficar sem resposta. Portanto, a saúde e a garantia de empregos para todos devem ser as palavras de ordem de todos que constroem os movimentos sindicais do país.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.