Rosa e Karl: mártires de uma revolução traída

15 de janeiro marca o aniversário da execução de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

Luciana Genro 14 jan 2021, 23:03

O dia 15 de janeiro marca o aniversário da execução de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, ocorrido em 1919, em Berlim. A morte destes dois revolucionários foi  incentivada e  acobertada pelos  dirigentes daquele que havia sido o maior partido de esquerda do planeta, até então: o SPD, Partido da Social Democracia Alemã.

A revolução alemã derrubou a monarquia mas a derrota iminente da Alemanha na I Guerra Mundial e a vitória da revolução russa de 1917 abriram possibilidades muito mais amplas.

O historiador Sebastian Haffner define assim aquele momento:

“Diante da derrota na Primeira Guerra, em 1918, os porteiros do império abriram, para os líderes social democratas, o portão exterior que há muito estava trancado e, não sem segundas intenções, deixaram que eles entrassem voluntariamente no átrio do poder; e então, irrompendo a partir de fora, atropelando seus líderes e soltando-se deles, as massas socialdemocratas saltaram os últimos portões que dava acesso ao núcleo do poder. Em novembro de 1918, depois de meio século de espera, a social democracia alemã parecia enfim ter alcançado seu objetivo.

E então aconteceu o inacreditável. Os líderes social democratas, elevados ao trono vazio, imediatamente convocaram os antigos guardas do palácio que haviam sido abandonados para que colocassem para fora justamente a massa social democrata. Um ano depois, eram os próprios líderes social democratas que já estavam sentados do lado de fora da porta – e para sempre.”[1] (28)

Depois de uma sangrenta guerra civil que foi de janeiro até março de 1919, a revolução alemã foi finalmente esmagada e o  SPD governava um Estado burguês nascido de uma revolução proletária que derrubou a monarquia em outubro de 1918, mas não parou.  Seguiu com  mobilizações multitudinárias pela paz e por democracia, com conselhos de soldados e operários espalhados pelo país. Sua maioria era composta por apoiadores do SPD, e eles  acabaram por entregar o poder ao partido  no qual confiavam para garantir seus interesses. Foram traídos.

A guerra civil foi travada e vencida pelos Freikorps[2] em nome dos interesses do governo do SPD, que não queria destruir o velho Estado, mas dar-lhe ares mais democráticos. Mas os Freikorps tinham interesses próprios,  convicções e ideologia próprias e que mais adiante alimentariam o que viria a ser a SA e a SS, forças paramilitares de apoio aos nazistas.

Foi com a ajuda dos Freikorps   que a socialdemocracia derrotou a revolução, mas ao mesmo tempo destruiu as bases do seu próprio poder, pois só chegou a governar graças a ela. A extrema direita se fortaleceu. A República de Weimar sucedeu a guerra civil, durante a qual o nazismo chocou seus ovos,  e foi sucedida pelo Terceiro Reich. Quando a burguesia não mais precisou da socialdemocracia, pois a revolução já havia sido derrotada, chegou a vez dos líderes que haviam perseguido e matado os revolucionários também terem o seu fim.

A história da revolução alemã é contada com maestria pelo jornalista  Sebastian Haffner no livro “A Revolução Alemã 1918-1919” ( Ed. Expressão Popular, 2018) que recomendo fortemente. Além desse há outro de maior  fôlego escrito por Pierre Broué “The German Revolution 1917-1923” (Ed. Haymarket Books, 2006) mas que não tem tradução em português, e ainda o de Isabel Loureiro “A Revolução Alemã 1918-1923” (Ed. UNESP,2005).

O assassinato de Rosa e Karl simbolizou a tragédia de uma derrota que teve repercussões mundiais, especialmente no destino da revolução russa, e que contem lições valiosas inclusive para o mundo e o Brasil de hoje.

Vemos desde lá e até hoje como a burguesia se utiliza dos partidos nascidos pelas mãos e pela luta da classe trabalhadora para garantir a ordem e os interesses do capital em momentos de turbulência, e depois os descarta por que já não  tem serventia. Vemos também como o comportamento da velha esquerda da ordem, subserviente ao capital e ao regime político, contribui para o fortalecimento da extrema direita ao governar administrando os negócios capitalistas e não dar solução aos problemas que afligem a maioria do povo.

Debates atuais  e necessários que a história da revolução alemã ilumina. No próximo dia 5 de março celebraremos os 150 anos do nascimento de Rosa Luxemburgo, ocasião mais do que pertinente para retomar seus ensinamentos.


[1] HAFFNER, Sebastian. A revolução alemã ( 1918-1919) São Paulo: Expressão Popular. 2018. Pag. 28

[2] “Corpos livres” na tradução do alemão, os freikorps eram grupos de ex soldados, organizados como forças armadas  paramilitares informalmente a serviço do Estado para derrotar a revolução em curso.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.