Cifras assombrosas: um breve olhar sobre os números da pandemia no Brasil
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Cifras assombrosas: um breve olhar sobre os números da pandemia no Brasil

O Brasil vive uma tragédia com a pandemia da Covid-19. Os responsáveis são Bolsonaro, Pazuello e os membros desse governo.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 18 fev 2021, 20:48

No Brasil, já são quase 250 mil vidas perdidas e 10 milhões de casos de Covid-19. Menos de um ano após a confirmação do primeiro caso da doença no país, é possível afirmar que estamos diante de uma tragédia de caráter histórico: os números são assombrosos e a perspectiva que o governo Bolsonaro adota é de negar completamente a realidade.

As novas evidências de que estamos diante de um cenário de recrudescimento da pandemia são o agravamento dos casos e óbitos em Manaus, o atual epicentro da Covid-19 no país, além de cidades que ameaçam ver seu sistema de saúde colapsar. A cidade paulista de Araraquara, por exemplo, decretou às pressas um novo lockdown com o rápido aumento dos contágios e a lotação dos leitos na cidade. A nova cepa, originalmente encontrada em Manaus, já foi identificada em diversas regiões do Brasil.

Enquanto isso, o governo não oferece respostas concretas, envolvido em seus próprios escândalos, como o do deputado bolsonarista Daniel Silveira, preso por incitar o golpismo e por suas ameaças contra o funcionamento do STF. Em cidades importantes do país, como o Rio de Janeiro e Salvador, a imunização é paralisada pela falta de vacinas e insumos. Nesse quadro caótico, a situação econômica e social também aponta para a calamidade.

Como se sabe, a única chance interromper a escala do contágio e das mortes passa pela realização de um plano coerente, nacional e público de imunização, com a chegada de vacina para todos, e pelo retorno do auxílio-emergencial nos patamares anteriores. Essa é uma duríssima batalha diante do governo antipopular e negacionista de Jair Bolsonaro.

O desastre do Ministério da Saúde

O Brasil segue na liderança do ranking de mortes pela Covid-19, apenas atrás dos Estados Unidos. Algumas de nossas cidades lideram também a taxa per capita de contágio e óbitos. Nosso país, com aproximadamente 2,7% da população mundial, concentra mais de 10% do número total de mortes no mundo.

Os responsáveis pelo desastre são os membros do governo, especialmente, Bolsonaro e o ministro Eduardo Pazuello. O histórico do Ministério da Saúde durante a pandemia não foi menos desastroso: Luiz Henrique Mandetta, ministro inicial, saiu atirando contra as irresponsabilidades da gestão do governo, defendendo o SUS contra o clã Bolsonaro. Em seguida, Nelson Teich, mesmo com suas inclinações neoliberais, não conseguiu se sustentar diante do descalabro e pediu demissão em um mês, negando-se a chancelar a indicação da cloroquina para o tratamento dos doentes, como exigia Bolsonaro. A chegada de um militar para assumir a pasta, com o suposto predicado de “especialista em logística” só piorou a situação. Como bem descreveu o colunista da Folha Vinicius Torres Freire (17/2): “Há no Senado um pedido de CPI para investigar o desastre Pazuello, um grosseirão autoritário, intelectualmente limitado e incapaz de administrar um almoxarifado de arruelas”.

A condução errática e criminosa do governo Bolsonaro para o enfrentamento da pandemia revela-se plenamente na falta de um plano nacional de imunização digno do nome. De início, Bolsonaro difundiu as mais absurdas mentiras sobre as vacinas, desestimulando a imunização do povo. Demonstrando sua incompetência criminosa, o governo não buscou celebrar acordos com os grandes fabricantes e, de acordo com sua orientação de destruição da ciência brasileira, não garantiu financiamento para as heroicas pesquisas para desenvolver um imunizante de tecnologia nacional. Bolsonaro também atacou o esforço do Instituto Butantan e de sua parceria com uma empresa sediada na China, rejeitando algumas ofertas feitas de oferecimento de vacina pela instituição.

Derrotado pelo sucesso das pesquisas da Coronavac conduzidas no país, foi obrigado a recuar – e, até o momento, a pequena escala de vacinação em curso tem sido garantida pela vacina fabricada pelo Butantan. No entanto, as doses são insuficientes e não há qualquer cronograma crível por fora das especulações e promessas de Pazuello. Segundo relatório publicado hoje, 70% dos indígenas do país ainda não receberam a vacina.

No início de 2021, o descaso criminoso do governo mais uma vez apresentou-se, com uma situação de contágios fora do controle e com o escândalo da falta de oxigênio e do colapso da rede de saúde em cidades e regiões inteiras do país, como se viu em Manaus e em estados do Norte brasileiro. Infelizmente, trata-se de um cenário que deve se repetir em todo o Brasil, como se vê agora com a falta de leitos no Triângulo Mineiro, um verdadeiro desastre com a curva de contágio chegando a patamares superiores aos da chamada “primeira onda”.

Diante do caos, a pressão pela saída Pazuello aumenta. A PGR, sob comando de Augusto Aras, em geral dócil com o governo, teve que denunciar o ministro após a pressão na sociedade e mesmo no interior do Ministério Público. A Confederação Nacional dos Municípios, diante da interrupção da vacinação em várias cidades, manifestou-se ontem igualmente exigindo a demissão do general. Até mesmo alguns militares começam a manifestar desconforto com a exposição de um oficial da ativa que chefia um ministério para reproduzir o negacionismo de Bolsonaro.

A pandemia do desemprego e da desigualdade

Ao mesmo tempo, as promessas de Paulo Guedes de que o choque da pandemia seria seguido de uma “recuperação em V” não tem amparo na realidade, como mostra o recuo de 6,1% do varejo em dezembro, acompanhando os dados desastrosos dos serviços e da indústria. O desemprego atingiu 14,6% no fim do terceiro trimestre de 2020, sem contar os índices de informalidade históricos. O aumento da desigualdade e a inflação dos preços de alimentos, alugueis e combustíveis corroem a renda das famílias trabalhadoras e dos mais pobres, os mais expostos à Covid-19 e ao desastre do governo Bolsonaro.

Por tudo isso, é fundamental e urgente retomar os pagamentos do auxílio emergencial, interrompidos em dezembro. Desde então, as sinalizações recentes de Guedes e Bolsonaro dão mostras de uma chantagem: diante do clamor na sociedade por proteção aos mais pobres, o governo tenta aprovar um auxílio de valores reduzidos, desde que, em troca, o Congresso aprove mais uma rodada de cortes nas áreas sociais e destruição dos serviços públicos.

Vacina para todos, já!

A vacinação em massa é a única garantia de retorno à rotina anterior. Até agora, foram vacinados apenas cerca de 2,5% da população (a maioria dos quais recebeu apenas a primeira dose). A maior parte da população incluída nos grupos prioritários não faz ideia de quando será vacinada. A displicência criminosa do governo em contratar doses fica evidente. Apela-se para promessas de novos acordos que, se bem-sucedidos, apenas garantiriam, no curto prazo, pouquíssimas doses adicionais.

Há, evidentemente, um problema de fundo para a ampliação da vacinação em escala mundial com o controle das patentes pelas grandes farmacêuticas. O governo Bolsonaro, aliás, votou contra proposta da Índia e da África do Sul na OMC de quebrar as patentes das vacinas para permitir que os países com capacidade de produção – como é o caso do Brasil – possam ampliar a produção de doses, garantindo as necessidades da humanidade. É necessário produzir nacionalmente insumos em massa, quebrar o monopólio das patentes das grandes corporações farmacêuticas e apostar na produção científica, como fazem o Instituto Butantã e a Fiocruz. Além da defesa de vacinação em massa imediatamente e de recursos para o SUS, o combate à pandemia no Brasil exige a queda imediata de Pazuello, além da saída de Paulo Guedes e Bolsonaro, os responsáveis pelo caos vivido no Brasil. Para isso, as organizações políticas, sindicais e sociais da classe trabalhadora e das forças populares devem-se mobilizar!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.