O pensamento político de Bob Marley

Não deixemos que a mistificação pós-moderna de sua imagem triunfe.

Gabriel Regensteiner 6 fev 2021, 14:15

It takes a revolution to make a solution
Bob Marley, “Revolution” (1974)

Come we go burn down Babylon one more time
Bob Marley, “Chant Down Babylon” (1983)

À primeira vista, a referência feita no título deste artigo – a um pensamento político de Bob Marley — pode parecer estranha. Afinal, o próprio artista dizia que os rastas não deveriam se envolver com a política1, vista como fonte de enganação e divisão do povo. Apoiada nesse tipo de declaração, vemos que a representação dominante de Marley no imaginário popular ainda é a de um mero pacifista, um mensageiro do amor universal, mais preocupado com a elevação espiritual do que com os conflitos de poder entre os homens.

Não obstante, o mesmo Marley se autodenominava um revolucionário. Uma escuta atenta de suas músicas não deixa dúvidas de que há em sua obra, do começo ao fim, um forte e radical apelo político. Este aparece organicamente fundido a uma cosmovisão filosófica, religiosa e ética, sem fronteiras bem definidas entre tais dimensões.

O que parece explicar a existência dessa aparente contradição entre as duas representações (a do pacifista e a do revolucionário) do artista na cultura popular foi o esforço que a indústria fonográfica empreendeu2 para esvaziar e esterilizar o pensamento de Bob Marley, escoimando seus elementos de rebeldia para construir a imagem de um ícone pop domesticado, de fácil digestão e consumo. Trata-se de algo parecido com o que foi feito em relação à imagem de outros ídolos pops, como John Lennon (representado como não muito mais do que um hippie…), por exemplo.

Neste texto buscarei resgatar, então, o conteúdo real do pensamento de Marley em sua complexidade, para muito além de um certo pacifismo simplório. A partir da reconstrução de sua trajetória de vida, veremos que Bob desenvolveu um pensamento terceiro mundista bastante radical e, em muitos aspectos, revolucionário, ainda que não sem contradições.

A infância em St. Ann: primeiro contato com as ideias anticolonialistas e pan-africanistas

Bob Marley nasceu no ano de 1945 em uma cidade rural no interior da Jamaica. Sua mãe era uma jovem camponesa negra, e seu pai, com quem quase não teve contato, um oficial branco do exército inglês. Até os doze anos de idade, Marley viveu uma infância simples em meio aos animais e às lavouras de sua família.

Nessa fase inicial da vida, podemos destacar pelo menos duas influências determinantes para a formação do pensamento de Marley. A primeira veio de seu avô materno, Omeriah Malcolm, um fazendeiro e curandeiro místico que transmitiu à família muitas de suas crenças. Omeriah descendia diretamente de africanos da etnia Akan (oriundos do que hoje é a costa de Gana), que foram escravizados e trazidos para a Jamaica colonial. Durante os séculos XVII e XVIII, os Akan foram responsáveis por diversas insurreições escravas contra os senhores coloniais; tal memória conservou-se viva através das gerações e, em alguma medida, chegou até o jovem Bob por meio das histórias de seu avô3.

A segunda influência do período digna de nota foi o conhecimento religioso e histórico transmitido oralmente por outros parentes e vizinhos de Marley. Destacam-se aqui os relatos sobre a história moderna da Etiópia, o único país africano bem-sucedido na tarefa de repelir militarmente uma potência colonial europeia (no caso, a Itália) no século XIX. Durante sua infância Marley também ouviu sobre o imperador etíope Haile Selássie, o qual era considerado uma divindade viva na terra pela religião rastafári (posteriormente adotada por Bob). Ademais, circularam pela Jamaica da época algumas versões das ideias de Marcus Garvey, que defendia a doutrina pan africanista segundo a qual os negros espalhados pelo mundo deveriam se unir e retornar à África. Como ficará explícito mais adiante, todas essas referências cumprirão um papel importante na estruturação das ideias políticas de Marley.

A vivência em Trenchtown, o encontro com o movimento rasta e as viagens aos EUA

Aos 12 anos, Bob se muda com sua mãe para Kingston, a capital da Jamaica. Vivendo na periferia da cidade, em Trenchtown, Marley é exposto a algumas das experiências centrais que definirão sua vida e seu pensamento. Entre elas, poderíamos citar: o contato com a pobreza típica de um país subdesenvolvido e submetido ao jugo colonial (a Jamaica só veio a se tornar formalmente independente da Inglaterra em 1962); a observação e vitimação pela violência extrema (tanto por parte das gangues juvenis como por parte da polícia); a exploração do trabalho (Marley trabalhou como soldador na adolescência e, posteriormente, como faxineiro em um hotel dos EUA); as viagens aos EUA em em 19664 e 1968 (em um momento no qual a sociedade norte americana está convulsionando em virtude do movimento dos direitos civis); o racismo ostensivo vivido pelos negros em Kingston; e, talvez a mais importante de todas, a adesão à religião rastafári.

A crença rasta é bastante sincrética. Ela mistura elementos do judaísmo, do cristianismo, de religiões tradicionais africanas diversas e, como um componente mais laico, do pan-africanismo. Para o que aqui nos importa, cabe ressaltar que ela ofereceu a Marley uma interpretação histórico-teológica sobre a situação de miséria e exploração a qual os negros estavam submetidos na Jamaica e no mundo. A ideologia rasta apontava um vínculo de continuidade entre a escravidão do período colonial e a exploração moderna5. Nesse mesmo sentido, a sociedade da época era associada à Babilônia bíblica, símbolo máximo de corrupção espiritual e do sofrimento humano. Também é desse período a apropriação da ideia de que os brancos eram os responsáveis, por meio do cristianismo e das escolas, por fazerem a lavagem cerebral que impedia os negros pobres de entenderem sua história e condição.

A interpretação que Bob faz dessa doutrina religiosa o conduz a pregar a ação prática para transformar o mundo. Os rastas não diziam para os homens se conformarem com a miséria em vida para poderem fruir do paraíso somente após a morte; ao contrário, a mensagem é que Jah (Deus) não quer os homens sofrendo. Vejamos como isso aparece expresso na música So Jah S’eh (1974)

So Jah seh Então Jah disse
Not one of my seeds “Nenhuma das minhas sementes
Shall sit in the sidewalk Deve sentar na calçada
And beg bread” e implorar por pão”

Além disso, também em oposição ao cristianismo, Deus não é só uma entidade abstrata que vive em outro mundo. Haile Selassie I, imperador da Etiópia, é a encarnação divina na terra. Não se deve esperar passivamente por uma intervenção que vá melhorar a vida; é preciso lutar no aqui e agora para que isso aconteça6:

Most people think A maioria das pessoas pensa
Great God will come from the sky Que Deus virá dos céus
Take away everything Levar tudo
And make everybody feel high E fazer todos se sentirem elevados
But if you know what life is worth Mas se você sabe o quanto vale a vida
You would look for yours on earth Você deveria procurar pelo seu na terra
And now a you see the light E agora você vê a luz
You stand up for your right Levante-se e lute pelos seus direitos

A negação da pequena política na Jamaica no contexto da guerra fria

Durante a década de 1970, os EUA, por meio da CIA, intervieram intensa e sub repticiamente na política jamaicana. No contexto da guerra fria, a possibilidade de que a ilha se transformasse em uma segunda Cuba aterrorizava Washington. É a partir daí que podemos entender o estímulo externo à militarização da cultura política do país e a bandos armados para desestabilizar as instituições jamaicanas. Bob reagiu a essa situação:

Political violence fill ya city, yeah! A violência política enche a cidade
Don’t involve rasta in your say say Não envolva os rastas na suas baboseiras
I‘m sayin’ Estou dizendo
Rasta don’t work for no CIA Os rastas não trabalham para a CIA

(Trecho da música Rat Race, de 1975)

Em um primeiro momento simpático ao líder de esquerda Michael Manley, Marley acaba por se afastar paulatinamente das lutas internas no país. Coroa tal processo o atentado sofrido em 1976, no qual Bob e sua esposa são baleados por gangsters (provavelmente a serviço do partido direitista e apoiado pela CIA que fazia oposição a Manley).

Essa experiência traumática com a política doméstica conduziu Bob à ideia, expressa em várias músicas, segundo a qual políticos, no geral, não são confiáveis:

Never make a politician grant you a favor Nunca deixe um político te fazer um favor
They will always want to control you forever, eh! Eles irão querer te controlar para sempre

Agora podemos entender o sentido da frase mencionada na introdução deste artigo segundo a qual rastas e política não se misturam. Provavelmente Bob se referia à política institucional com a qual havia feito sua experiência na Jamaica, e não à política em sentido amplo.

A radicalização política terceiro mundista a partir das lutas anti-coloniais na África

Em paralelo aos processos descritos acima, a carreira musical de Bob engrena e ele se torna o primeiro ídolo musical global oriundo do terceiro mundo. É também nessa época que as lutas anticoloniais por independência na África recrudescem. Os movimentos, alguns deles guerrilheiros, em Moçambique, Guiné Bissau, Rodésia (atual Zimbábue) e África do Sul (que vivia sob o regime do apartheid) ganham destaque e apoio de Bob Marley. A música War7 não deixa dúvidas de que a paz é o horizonte de Bob; porém isso não deveria significar uma conformação à condição de exploração. Se preciso fosse, era necessário lutar contra a injustiça e pela liberdade. Pouco a ver, portanto, com a ideia de um pacifismo absoluto:

Until the philosophy which hold one race superior Até que a filosofia que considera uma raça superior
And another inferior E outra inferior
Is finally and permanently Esteja finalmente e permanentemente
Discredited and abandoned Desacreditada e abandonada
Everywhere is war Em todo lugar é guerra
Me say war Eu digo guerra

That until there no longer first class and second class citizens of any nation E até que não haja mais cidadãos de primeira e segunda classe de nenhuma nação
Until the colour of a man’s skin is of no more significance than the colour of his eyes Até que a cor de pele de um homem não tenha mais significado do que a cor de seus olhos
Me say war Eu digo guerra

That until the basic human rights are equally guaranteed to all Até que os direitos humanos básicos sejam igualmente garantidos para todos
Without regard to race Sem levar a raça em consideração
Dis a war Isto é uma guerra

That until that day, dream of lasting peace, world citizenship E até esse dia, o sonho de paz duradoura, cidadania universal
Rule of international morality Domínio da moralidade internacional
Will remain in but a fleeting illusion to be pursued, but never attained Vai permanecer como uma ilusão a ser perseguida, mas nunca alcançada
Now everywhere is war Agora em todo lugar é guerra

And until the ignoble and unhappy regimes that hold our brothers in Angola E até que os regimes ignóbeis e infelizes que mantêm nossos irmãos na Angola
In Mozambique, South Africa Em Moçambique, África do Sul
Sub-human bondage have been toppled, utterly destroyed Servidão sub-humana tenha sido derrubada, totalmente destruída
Well, everywhere is war Bem, em todo lugar é guerra
Me say war Eu digo guerra

O ápice dessa politização está expresso no álbum Survival, de 1979, cuja capa é um mosaico de bandeiras das dezenas de nações africanas recém emancipadas do colonialismo. Praticamente todas as músicas desse disco são eminentemente militantes: em África Unite, prega-se a unidade do povo africano (incluindo aqui os negros de outros países descendentes de escravizados); em Zimbábue, o direito dos povos de se autodeterminarem e a abdicação das lutas internas entre os oprimidos e assim por diante. Nesse sentido é que podemos entender o uso que Bob faz da palavra “revolução”: trata-se ao mesmo tempo da revolução “espiritual” (ou seja, da tomada de consciência da exploração e da ligação com o divino) e da derrubada real das estruturas da sociedade existente, a Babilônia.

Resgatando a ideia de um Bob Marley militante

Parece óbvio que, do começo ao fim de sua obra, Bob Marley de fato expressa uma mensagem essencialmente política. Como vimos, esta filosofia pode ser decomposta, de forma mais ou menos arbitrária, em três grandes vetores intrinsecamente interligados entre si: 1) o antirracismo; 2) o pan africanismo; e 3) o anticolonialismo. Foi se apropriando à sua maneira e misturando estas três ideologias que o maior artista do terceiro mundo da história construiu seu legado.

Bob se via como um militante, que tinha na música sua arma para conscientizar o povo contra as injustiças. Não deixemos que a mistificação pós-moderna de sua imagem, a do Bob apolítico, triunfe.


Gilroy, Paul (2005). Could you be loved? Bob Marley, anti-politics and universal sufferation. 

Hagerman, Brent (2012). Everywhere Is War: Peace and Violence in the Life and Songs of Bob Marley

Kief Davidson (2018). Who shot the Sheriff? (documentário)

Mccan & Hawke (2004). Bob Marley: The complete guide to his music

White, Timothy (2006). Catch a Fire: The Life of Bob Marley


1Marley expressa esta visão, dentre outros lugares, em uma entrevista dada em 1979 na Nova Zelândia: https://www.youtube.com/watch?v=xiaZJdOqHw0

2Paul Gilroy descreve este processo no artigo “Could you be loved – Bob Marley, anti-politics and universal sufferation”

3Isso é narrado no terceiro capítulo do livro Catch a Fire: the life of Bob Marley, de T. White.

4Nesse período Marley vive em Wilmington, no estado de Delaware. Certamente ali não era o epicentro das mobilizações populares dos EUA da época; no entanto, como aponta Paul Gilroy, inevitavelmente Bob teve algum contato com as lutas políticas sendo travadas país afora.

5As músicas “400 years” (escrita por Peter Tosh) e “Slave Driver”, por exemplo, apontam claramente esse vínculo.

6Trecho selecionado da música Get up, Stand up

7A letra dessa música é uma transcrição quase literal de um discurso proferido por Haile Selássie na ONU, em 1968.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.