Votar pelo mal menor é uma coisa; governar com a burguesia é outra

Marcelo Freixo deu entrevista ao jornal O Globo, defendendo a necessidade de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro.

Roberto Robaina 5 abr 2021, 17:16

Marcelo Freixo deu entrevista ao jornal O Globo, defendendo a necessidade de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro. Referia-se à eleição do governo do Rio de Janeiro, não apenas ao pleito nacional. No caso do Rio, Freixo apresenta sua própria candidatura como hipótese e sustenta uma aliança com o prefeito atual, Eduardo Paes, e Rodrigo Maia. A entrevista de Freixo está sendo muito criticada por setores de esquerda e por parte importante do PSOL. Na verdade, pela maioria da militância partidária, enquanto tem recebido apoio de muitas lideranças de outros partidos e pessoas corretamente preocupadas com a necessidade de derrotar a extrema direita e as milícias.

As posições de Freixo favoráveis à aliança não são de agora. Ele desistiu de concorrer à prefeitura com o argumento de que não havia se concretizado a aliança com PT e PDT, ainda que o PSOL tenha apoiado a posição de Freixo naquela ocasião. Paes acabou sendo o candidato mais forte e canalizou a luta contra Crivella, o corrupto e reacionário que estava no cargo e era apoiado por Bolsonaro. Mas isso é irrelevante agora. O que interessa mesmo é definir se a atual política de Freixo é justa ou não, se responde ou não aos interesses dos trabalhadores e do povo.

Embora as eleições estaduais não sejam iguais ao pleito nacional, já que a maioria dos governadores atuais não encarna o bolsonarismo, é fato que a eleição do Rio tem um peso específico muito maior do que a média nesta questão. Isso porque o Rio é o centro do bolsonarismo. É o estado de Bolsonaro, de sua família e de suas milícias. Então, é certo quando Freixo chama a mais ampla unidade para derrotar o bolsonarismo no estado. Não é certo, porém, defender uma chapa comum.

De nossa parte, a unidade de ação para defender as liberdades democráticas, a cultura, a ciência e a rejeição ao crime, às milícias e ao bolsonarismo é uma questão urgente e de princípios. O ideal desta unidade é que seja com ações de rua. Com a pandemia, esse método está interditado. Pelo menos por enquanto.

Mas é preciso ter iniciativas unitárias. Unidade de ação é uma coisa, outra, bem diferente, é assumir um projeto de governar com políticos burgueses liberais, defensores do capitalismo e com longos currículos de experiências na gestão do estado do Rio e do Brasil.

Neste ponto é que Freixo, infelizmente, abandona os interesses de classe dos trabalhadores e dilui a necessidade de lutar por um governo dos próprios trabalhadores, do povo pobre e de uma esquerda que não tenha medo de dizer seu nome e não aceite ser gerente dos interesses do capital.

Esse projeto independente é difícil de ser efetivado? Sim, as dificuldades são reais. Mas, como dizia o poeta russo, é preciso arrancar alegria ao futuro, mesmo que o planeta esteja ainda imaturo. É preciso acumular forças, aproveitar brechas, acelerar tempos, fortalecer corpos que encarnem o novo. Freixo está perdendo tal perspectiva. As forças com as quais ele está pensando se aliar governavam o Rio enquanto, nas suas barbas, cresciam as milícias. É verdade que no governo federal quem estava no poder era o PT, um partido surgido da classe trabalhadora, não um partido liberal burguês. A adaptação petista à ordem do capital mostra, sem dúvida, que há muitos obstáculos no caminho de quem não aceita governar com a burguesia.

Mas então, isso quer dizer que nas eleições apenas podemos marcar posição, caso não se tenha força para ganhar? Não necessariamente. Pode-se e deve-se marcar posição, ocupar espaço, disputar o programa e expor tais ideias junto ao povo abertamente. Numa eleição em dois turnos, isso é obrigação básica. No plano nacional, por exemplo, no segundo turno se pode votar no candidato que fará oposição a Bolsonaro. Mais do que poder, deve-se fazer isso. Em situações excepcionais, indicadas num documento que escrevi para a militância do PSOL chamado “As lições de Lenin e as eleições de 2022”, é possível até abrir mão de lançar chapa própria mesmo no primeiro turno. Do que não se pode abrir mão, em hipótese alguma, é da luta por uma mudança estrutural, o que só pode ser feito por um governo de ruptura com os grandes capitalistas. Neste sentido, a polêmica atual no PSOL vai muito além da polêmica com Freixo.

Uma parte da direção do PSOL quer ser parte da aliança com o PT para ser parte do eventual governo Lula. Alguns dirigentes do PSOL em SP participam já de governos municipais do PT em SP. Mas isso não é o grave. É uma discussão. O grave é que um eventual governo Lula não será um governo de ruptura com a burguesia. Não será um governo de esquerda. Lula não engana ninguém a esse respeito. Afirma de modo claro que fará um governo como já fez, tendo boa relação com os bancos privados e com os conglomerados da mídia patronal. Um governo apoiado no MDB e outros partidos burgueses dispostos a aceitá-lo. E Delfim Netto, o reconhecido ministro da economia no regime militar, já deixou claro que um novo governo Lula será útil para o capitalismo brasileiro, tal como havia previsto que seria em 2002.

Voltando ao Rio de Janeiro, a linha de Freixo é a aplicação consequente da linha de Lula, cuja candidatura é apoiada por correntes do PSOL, como a corrente do presidente nacional do partido. Quem sabe até o momento de decisão mesmo este setor psolista se dê conta da necessidade de candidatura própria e assuma o voto em Lula no segundo turno (um lugar em que certamente Lula estará). Mas que, neste caso, a decisão seja pelo voto, por uma decidida campanha para derrotar Bolsonaro, mas sem compor governo em caso de vitória. É claro que nossa posição seria revista caso Lula assumisse fazer um governo de esquerda. Mas esta é a hipótese real? Quem da direção do PSOL acredita nisso? Seria bom se fazer o debate claramente. Seria bom, aliás, prestar atenção no que Lula mesmo está dizendo. Mas, afinal, e Freixo? Bem, Freixo está simplesmente dizendo isso: se Lula pode governar com a burguesia, por que eu não posso? Se a corrente Primavera do PSOL apoia Lula, apesar desta evidência, por que não pode também me apoiar como candidato a governador do Rio tendo a mesma estratégia? Freixo, inclusive, se acha em vantagem em relação a Lula. Acredita que pode fazer no primeiro turno o que Lula pretende fazer no segundo e no governo. Creio que Freixo está iludido. Os políticos burgueses irão atrai-lo o máximo possível, afastá-lo da vanguarda social combativa e talvez até de seu partido, para logo negá-lo como candidato.

De nossa parte, não temos a ilusão de Freixo. Mas também preciso ser honesto e dizer que estou sem ilusões em Freixo. Falando em termos teóricos, Freixo não tem o menor critério de independência de classes para fazer política. Em termos práticos, Freixo abdicou de ser um líder das lutas do povo. Perdeu o PSOL. Esperamos que o PSOL não perca mais alimentando ilusões em outras propostas de colaboração de classes, com aparência mais popular, mas não por isso menos nefastas.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!