Cláudio Castro: o genocida da vez

Poucos dias após sua posse, Claudio Castro já tem seu governo marcado pelo maior massacre da história do Rio de Janeiro – o novo Governador é a representação do que há pior na política brasileira.

Theo Louzada 7 maio 2021, 14:01

O Rio de Janeiro se livrou de um genocida: Wilson Witzel, que depois do envolvimento em esquemas de corrupção na saúde finalmente sofreu impeachment. Toda sua eleição foi construída a partir da narrativa do fortalecimento da política de genocídio do povo negro e das operações assassinas nas favelas. Pouco tempo depois da sua posse, ele já estava metralhando uma tenda de orações em Angra dos Reis em uma ação midiática de falso combate ao crime, algo que seria recorrente em seu Governo.

Seu impeachment já via sendo agitado por diversos partidos, movimentos sociais e defensores dos direitos humanos desde o começo de seu mandato – o assassinato de João Pedro em São Gonçalo foi uma demonstração brutal das consequências das suas políticas. Seu afastamento do cargo teve, então, um peso importante e, junto à restrição do STF que impediu as operações policias nas favelas durante a pandemia, parecia dar um tom, mesmo que bastante parcial, de descontinuidade temporária da política de genocídio no governo estadual.

Isso, como a pouco pudermos ver, é longe da realidade. O desconhecido Claudio Castro, antes de sua posse oficial já demonstrava a quem servia: se tornou um dos principais aliados de Bolsonaro, inclusive no tema da vacinação quando este recebeu críticas diretas de diversos governadores pela sua postura negacionista. Logo depois, ao tentar impedir e depois diluir ao máximo o lockdown necessário no Estado em um dos momentos auges da pandemia, realizou uma festa particular com vários convidados, desrespeitando as regras que o seu próprio Governo foi obrigado a impor. Mais recentemente, a venda da CEDAE como a primeira grande privatização durante o Governo Bolsonaro teve a aliança entre o Governador e o Presidente como pilar fundamental da ofensiva neoliberal a tanto tempo defendida por Guedes.

Castro é um oportunista que tenta ocupar o espaço da extrema-direita deixado por seu antecessor, fazendo política para que o bolsonarismo possa o tornar uma figura minimamente relevante, algo além do desconhecido que é. Sua escolha foi de ser um instrumento de Bolsonaro para não cair no desaparecimento e parte disso, naturalmente, está relacionado à sua política de segurança pública.

Não é de hoje que este tema é definidor na política fluminense. O aumento da violência e o descontrole do Estado sobre diversas regiões são marcas das últimas décadas e uma política mais definida e contínua dos sucessivos governos vem sido repetida desde a gestão de Sérgio Cabral. O então governador, apoiado da direita ao PT, inaugurou a política de invasões constantes nas favelas, com diversas operações marcadas pela quantidade altas de óbitos, tendo um ponto auge a chacina do Alemão de 2007 com 19 mortos. As UPPs (Unidades de Polícias Pacificadoras) pouco mudaram o status quo das operações e esse modelo foi seguido pelo seu sucessor, Luiz Pezão. Ao mesmo tempo, em ambos Governos, o aumento das áreas controladas por milícias foi exponencial.

A intensificação que Witzel promoveu foi uma continuidade que, casando com o fenômeno Bolsonaro, pôde dar outro tom, qualidade e sentido de expansão a esse projeto de morte. Agora Claudio Castro se apresenta: é o genocida da vez. O massacre no Jacarezinho foi o maior já feito em uma operação da Polícia Civil na história do Estado do Rio de Janeiro. Uma operação que dizia ter seu objetivo prender 21 pessoas, deixa 25 mortos – e só prende 3 das pessoas que supostamente estava procurando. Enquanto a polícia tenta justificar os assassinatos, Castro diz que só soube da operação pela manhã e que não era responsável por ela.

Um dia antes da operação ilegal que levou ao massacre Castro, já empossado, reunia no Palácio de Guanabara com Bolsonaro e o prefeito de Caxias, Washington Reis, um dos prefeitos com mais conexões com as milícias no Estado. Não se sabe o que foi pautado nesse encontro, mas é simbólico que os representantes da pior versão da política genocida estivessem sentados na mesma mesa um dia antes do massacre. São deles que partem não só as justificativas ideológicas mas as articulações de movimentações como essa que tem matado diariamente a juventude negra e favela no Estado do Rio e no país como um todo. O genocídio é uma política de Governo e tem nessas operações sua pior face: mas é preciso que fique explícito que essas mortes são um projeto. Os extermínios nas favelas se somam ao negacionismo, aos altos índices de óbitos na pandemia, ao crescimento da milícia e constituem o desenvolvimento e as consequências da política da extrema-direita no país que precisa dessas mortes para sobreviver.

Não existe justificativa cabível para o massacre, nem da Polícia Civil, muito menos do Governador. Claudio Castro é uma representação dessa política de genocídio e por isso tem que ser combatido junto ao bolsonarismo como um todo. Tanto durante como depois do massacre se organizaram atos, primeiro dos moradores e em seguida em conjunto dos movimentos sociais para marcar resistência a esse projeto e luta pelas vidas perdidas – nas ruas, essas movimentações tem dado o tom da resistência necessária. Em poucos dias também será o aniversário de um ano do assassinato de João Pedro, data que será marcada por mobilizações em todo país contra o genocídio da juventude negra. É preciso dar um basta, de Bolsonaro à Claudio Castro e todos aqueles que assim como Witzel, estão destinados à lata de lixo da história. O projeto de extrema-direita no Brasil é um projeto de morte, por isso sua derrota é urgente.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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