Sofremos de amnésia? É urgente uma nova esquerda!

Numa eleição de dois turnos, é possível construir uma candidatura de primeiro turno sem amarras para representar o programa das mobilizações sociais, o programa anticapitalista que tem o lado da classe trabalhadora, que ataca a raiz dos problemas da desigualdade social e do desemprego.

Camila Souza 12 maio 2021, 14:56

Todos os dias os números da pandemia nos tiram um pouco da nossa humanidade. Afinal, não são números, são vidas, famílias, amigos, ídolos que se vão aos milhares cotidianamente. Se já não bastasse a gravidade pandêmica, temos um Presidente que trabalha a favor do vírus e na contramão da ciência e da luta pela vida. Bolsonaro é um genocida, e assim espero que seja julgado em todos os tribunais mundo afora, como o criminoso que é.

A luta pelo impeachment é urgente há meses. Esperar 2022 para derrotá-lo, como é infelizmente tática de alguns setores da esquerda, a exemplo de setores petistas, é sufocante. Porque significa concordar com a naturalização cotidiana da barbárie de perdemos pessoas todos os dias para uma doença que já tem vacina. Vacina que foi negligenciada e negada 11 vezes pelo presidente. O primeiro abaixo assinado online que pedia impeachment que assinei marcava ainda março de 2020 e veio pelos Deputados Federais do PSOL, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e David Miranda. De lá para cá, uma pergunta fica martelando na cabeça: “quantas mortes teriam sido evitadas se o Presidente não fosse Bolsonaro?”.

Disputar consciência, sair da inércia, agir em coletivo, fortalecer laços de empatia e solidariedade nunca foram tão necessários à nossa geração. Felizmente nos últimos meses avançamos em compor uma maioria social a favor de derrotar Bolsonaro. Não há unidade em qual tática deveríamos usar para alcançar tal feito, de minha parte hoje acredito que só a mobilização de massas nas ruas é capaz de virar esse jogo, do contrário ficamos reféns de negociatas e interesses obscuros do “toma lá da cá” da política corrupta brasileira. E como saímos para trabalhar, será que não deveríamos nos organizar protegidos com máscaras para tomar as rédeas da situação e dar uma demonstração de força e exigir vacina já e para todes? Bolsonaro não vai cair de maduro, e deixá-lo lá viabilizou o atraso da vacina. Só saímos dessa com vacina, e só teremos vacina se lutarmos para ter. Não basta mais aguardar e pedir, é preciso impor pela força da mobilização a sua urgência.

Ainda que exista um insistente (e perigoso) 20% de apoio ao Presidente, há uma oposição que ganha peso e relevância social e que se torna um sopro de esperança por dias melhores. Para muitos a possibilidade de Lula concorrer nas eleições de 2022 é a materialização dessa esperança. Afinal, Lula é sem dúvidas um candidato que tem muitas chances de vencer um segundo turno contra Bolsonaro. E para isso contaria com o apoio entusiasmado de milhões que sabem que qualquer um que defenda a ciência e os marcos mínimos democráticos é melhor que uma possível reeleição do genocida. Diante daqueles que flertam abertamente com a ditadura e o fascismo não há dúvidas, não podemos titubear em derrotá-los.

Daí que muitos podem se perguntar porque raios a esquerda já não se apresenta de forma unitária no primeiro turno com Lula como o candidato. Tem utilidade uma candidatura própria do PSOL hoje? Teria espaço? Cumpre qual papel?

Diante do horror que é Bolsonaro, há um rebaixamento programático que parece igualar por baixo a todos, numa tentativa de liquidar socialmente o programa da esquerda radical. Afinal, se nos marcos bolsonaristas até a Rede Globo virou comunista, o que dizer das diferenças estratégicas e táticas entre os partidos de esquerda? São tão secundarizadas para não dizer esquecidas e/ou anuladas. Mas não podemos nos limitar a usar a régua que divide a sociedade entre os que defendem que a terra é plana e os que ela é redonda. Numa sociedade de classes, com interesses antagônicos, é útil saber localizar os pontos de unidade, mas também os de divergências. Do contrário, vamos sofrer de amnésia e seremos incapazes de compreender as lições que devemos tirar do processo de como chegamos ao ponto de eleger Bolsonaro Presidente da República.

Onde viviam, o que comiam, o que faziam todes que foram capturados pela onda que os levou a votar no genocida? Que vivemos numa sociedade que não acertou suas contas com um passado de exploração, preconceito, opressão e que ainda se faz presente no hoje, é verdade. Mas somente afirmar que Bolsonaro é fruto dessa estrutura que ainda não derrotamos, não é suficiente para explicar onde foi que perdemos a capacidade de exercer a maioria social e de nos apresentar como alternativa. E é especialmente fechar os olhos para os erros que cometeram e não admitir que vivemos as consequências da experiência de uma esquerda que chegou ao poder, fracassou e gerou uma imensa frustração.

Que Lula aposte em seguir a mesma cartilha, em repetir os mesmo passos novamente é direito dele e de seu partido. Que seja ele ainda um dos únicos com chances de derrotar Bolsonaro no segundo turno, é sintoma de nossas fragilidades e dificuldades de construir uma nova esquerda à altura. Mas uma nova esquerda não surge por decreto, surge por insistência, construção, ação visando tal feito de superação. E para que lições e autocríticas não fiquem soltas, perdidas e esquecidas, elas precisam se materializar em um programa e em uma organização, mas porque não também em um nome que as represente na disputa eleitoral?

A unidade que busca Lula para as eleições envolvendo Sarney, Rodrigo Maia, Luiza Trajano, Eunício Oliveira e por aí vai ladeira abaixo, pode o viabilizar financeiramente, com tempo de TV, panfletos e etc, mas esta unidade não resolverá a gravidade dos problemas que vivemos hoje. Criar essa ilusão no hoje é desarmar a classe trabalhadora, e organizar derrotas futuras. Ou alguém acha que os apoiadores da reforma trabalhista, da reforma da previdência, do teto de gastos, das privatizações vão ser os que solucionaram o desemprego massivo?

A crise econômica do capitalismo é mundial e tem contornos dramáticos de uma depressão profunda e histórica. Por isso, apenas a luta mudará a vida do povo trabalhador. O tamanho da conquista de direitos dependerá da força da nossa mobilização e enfrentamento para alcançá-los. Depender da lógica da pactuação administrativa do Estado, da conciliação de classes nos entregará migalhas cada vez menores e mais efêmeras. Sob a bandeira da necessidade de derrotar Bolsonaro, fazermos uma unidade cega e defensiva com a burguesia que é progressista “nos costumes”, mas reacionária na economia, só servirá para avançar uma agenda ultraneoliberal de retirada de direitos.

Por isso, numa eleição de dois turnos, é possível construir uma candidatura de primeiro turno sem amarras para representar o programa das mobilizações sociais, o programa anticapitalista que tem o lado da classe trabalhadora, que ataca a raiz dos problemas da desigualdade social e do desemprego. Tal feito é também importante para polarizar com o programa radical da extrema direita, para ampliar e organizar uma reserva democrática consciente de que só a luta muda a vida, e de que não precisamos nos contentar em aceitar a miséria do possível. Que esse programa da esquerda radical não tenha voz nas eleições em 2022 seria uma vitória ideológica do Bolsonarismo que nos desarmaria para batalhas futuras. Por tudo isso listado acima, é motivo de alegria e entusiasmo que o combativo Deputado Federal Glauber Braga tenha colocado seu nome a disposição para essa tarefa. Estamos juntos!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.