O que o Capitalismo busca no Espaço?

O que o Capitalismo busca no Espaço?

Por quê cada vez mais as empresas estão investindo bilhões em projetos no espaço?

Luciano Egidio Palagano 21 jul 2021, 20:12

Cada vez mais nos aproximamos de um momento de inflexão, onde possíveis bases lunares, asteroides sendo minerados e a colonização de Marte deixam de ser objetos de obras de ficção e se tornam projetos difíceis, mas factíveis. A chamada “nova corrida espacial” tem ganho, cada vez mais, atores; sejam eles Estados Nação como a China, Índia, Luxemburgo ou, até mesmo, empresas como a Space X, Blue Origin, Virgin Galactic e outras. Mas, o que busca o setor privado no espaço? O que move empresas a investirem bilhões (com o auxílio estatal é claro) em projetos que não trarão retorno financeiro à curto prazo?

Os recentes voos suborbitais, realizados pelas empresas Virgin Galactic e Blue Origin se tornaram tema de textos, artigos, matérias de jornal e debate nas redes sociais. Tais voos não inauguraram a presença do setor privado no espaço, pelo contrário, a Space X, por exemplo, já vem há alguns anos lançando os seus próprios satélites da rede Starlink e, mais recentemente, com suas naves servindo de transporte para o envio de suprimentos e equipamentos à Estação Espacial Internacional ou colocando satélites, por encomenda, em órbita da Terra. O que diferencia o voo, recente, da Blue Origin e da Virgin Galactic, é que estas se apresentam como empresas abertas ao turismo espacial.

Com a “módica” soma de 250 mil dólares, no caso Virgin Galactic, você poderia comprar uma passagem para um voo suborbital em uma nave da empresa. Já a Blue Origin, segundo o divulgado, cobrou muito mais caro, com um dos assentos sendo leiloado por 28 milhões de dólares, por exemplo. Provavelmente você, que lê este artigo, assim como este que vos escreve, jamais teria condições de pagar tal preço por uma viagem.

Por isso, é compreensível que esse ponto tenha suscitado debates e, como muitas vezes acontece, àquilo que não passa de uma estratégia de marketing da empresa (ou das empresas) se torna o ponto central do debate, ocultando as verdadeiras razões da empresa e o que, realmente, move o mercado do setor. Isso, quando o debate não recai para a repetição do senso comum, contrapondo a exploração espacial com os problemas da Humanidade, como se fosse a exploração espacial a causadora dos problemas, e não o próprio Sistema Econômico e Social. Aliás, o marketing serve, também, exatamente, para isso: mostrar uma face e ocultar a outra. Com isso, vemos nascer “análises” sobre a “nova corrida espacial”, com argumentos que vão desde afirmar que ela teria, como objetivo, algo como “justificar estilos de vida dos bilionários” com uma maquiagem sobre avanços tecnológicos; até garantir a “ostentação” e o “lazer” excêntrico destes mesmos super ricos.

O problema é que esse tipo de análise peca em não se aprofundar. A entrada do Mercado na “nova corrida espacial” não tem como objetivo “justificar estilos de vida” ou garantir “ostentação” e “lazer”. E, também, não é sinônimo de uma “decadência do Capital”. Pelo contrário! Existe muito mais coisa envolvida! O “pano de fundo” é mais aterrador do que alguns imaginam!

O que move o Mercado? Lucro. O que move o Sistema? Sua continuidade e autorreprodução. Esse é o objetivo!

Afirmar, que o que move o Mercado para a exploração espacial é “ostentação”, “lazer” ou, até mesmo, justificar contratos, é cair no senso comum. Não no sentido de se estar afirmando algo irreal, mas no sentido de que o senso comum apresenta, sempre, uma análise simplista da realidade e, muitas vezes, confusa.

Para entender este processo é preciso levar em consideração alguns fatos que, aparentemente, são desconexos, mas que na análise percebe-se o quanto são influenciadores do mesmo. Precisamos levar em conta que o Sistema Capitalista necessita, de maneira intrínseca, crescer. Crescer sempre e “ad infinitum”! Ou seja, é um sistema de organização econômica que não aceita fronteiras, nenhuma fronteira ao seu crescimento. Seja uma fronteira social, ambiental, ou seja esta fronteira o próprio planeta Terra. Lembramos, aqui, que o crescimento da economia capitalista não implica em maior distribuição de riqueza, mas pelo contrário. Pois também faz parte da sua lógica interna a concentração da riqueza. Desta forma, é mais do que previsível que o Mercado não iria aceitar a limitação geográfica que o planeta Terra impõe, assim como não aceitou, ainda na sua infância, a limitação geográfica do continente europeu. Tendo isso no horizonte, percebemos que, como sempre, se trata de abrir novas fronteiras de exploração para o Capital. É possível traçar um paralelo com o período final da Idade Média, quando a Europa começou sua invasão nos demais continentes. O que estamos enxergando hoje, é uma espécie de repetição daquele momento histórico, com as suas diferenças óbvias, é claro. O Capitalismo busca, de novo, ampliar suas fronteiras, quebrando, aos poucos, esse último limite geográfico que é o próprio planeta.

E, exatamente como naquele período, os Estados acabam por servir para financiar esse avanço do privado. Exemplos explícitos disso são, justamente, as três principais empresas que atuam na área: Space X, empresa de Elon Musk, Virgin Galactic, empresa de capital aberto fundada por Richard Branson e a Blue Origin de Jeff Bezos. No caso da Space X, pertencente à Elon Musk – àquele indivíduo que fez uma publicação no Twitter afirmando “Vamos dar um golpe em quem quisermos” no período do golpe de Estado recente na Bolívia – mais da metade da receita de U$ 1 bilhão de dólares, movimentada na primeira década de existência da empresa, foi proveniente de contratos com a NASA. Da mesma forma, o foguete Falcon 9, a estrela da Space X, recebeu, de 2011 até 2020, um aporte de, pelo menos, U$ 3 bilhões de dólares da agência espacial estadunidense. Ou seja, do dinheiro público oriundo dos impostos pagos pelos trabalhadores dos EUA. A mesma regra se aplica para a Virgin Galactic, que tem recebido vultosas cifras do governo da Arábia Saudita e para a Blue Origin que recebeu, em 2018, U$ 500 milhões de dólares da Força Aérea dos EUA. Ou seja, sem o dinheiro público, mesmo estes mega bilionários, não conseguiriam colocar, sequer, um grão de areia no espaço.

Feito esse breve parêntese sobre o uso do recurso público, novamente, para a expansão do lucro privado, quero me deter às razões deste salto no espaço, por empresas privadas. Como já colocado acima, discordo da tese que defende que se trata de ostentação, de lazer, da tentativa de justificar um estilo de vida, ou se diferenciar do restante da população. Por mais que possamos elencar o lazer como uma das facetas do marketing, a partir do chamado turismo espacial, no fim o tal “turismo” é, apenas, isso: marketing.

O objetivo é muito mais pragmático e, ao mesmo tempo, profundo e perigoso para a sociedade humana como um todo. É parte do projeto, parte primordial, a privatização do espaço, privatização no sentido de que o Mercado passe a controlar todo e qualquer recurso que possa ser encontrado e explorado no Sistema Solar. O que está por trás destas viagens, apresentadas como turismo é, na verdade, um laboratório para uma exploração mais profunda desse novo, e imenso, nicho à ser explorado pelo Capital. A Space X, por exemplo, já saiu na frente, com o projeto Starlink e fazendo frete para governos até a ISS. Já se iniciou o debate sobre uma legislação referente à mineração de asteroides, possíveis bases lunares não estão distantes de saírem do papel e, quando saírem, qualquer “telefonema” feito do lado escuro da Lua irá utilizar os satélites do projeto Starlink da Space X. Não é à toa, por exemplo, que o acesso ao lítio da Bolívia preocupa tanto Elon Musk.

O que vemos, acontecendo diante de nossos olhos, é o início de um novo ponto de inflexão, onde o Capitalismo busca extrapolar o próprio planeta. De outro lado, temos pesquisas na área energética com relação à fusão à frio, avançando cada vez mais e, também, um avanço contínuo na área da inteligência artificial. Se fecharmos os olhos para o que se mostra à nossa frente ou, simplesmente, encararmos estes fatos como “excentricidades”, o Mercado irá conseguir atingir o seu objetivo. E, com isso, é bem possível que produções distópicas como, por exemplo, o filme Elysium, se tornem algo muito próximo da realidade.

Ou a Esquerda acorda para estes fatos a tempo, ou ela vai, de novo, perder o bonde da História. É preciso lembrar, sempre, que não existe predeterminação histórica e a Barbárie é tão possível, ou até mais, do que o próprio Socialismo. E o caminho que estamos seguindo, no momento, nos leva à Barbárie!

Fontes:

Empresas e instituições agora podem lançar cargas com a SpaceX por US$ 1 milhão

https://canaltech.com.br/espaco/empresas-e-instituicoes-agora-podem-lancar-cargas-com-a-spacex-por-us-1-milhao-160038/ – acessado em 21/07/2021 às 14h34min

Space X vai oferecer lançamentos a baixo custo para pequenos satélites

https://www.tecmundo.com.br/ciencia/144742-space-x-oferecer-lancamentos-baixo-custo-pequenos-satelites.htm – acessado em 21/07/2021 às 14h36min

E Alcântara? Por que o 1º satélite 100% brasileiro será lançado na Índia

https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/02/27/entenda-por-que-o-primeiro-satelite-100-nacional-vai-ser-lancado-na-india.htm – acessado em 21/07/2021 às 14h38min

Amazônia 1, primeiro satélite 100% brasileiro, chega ao espaço para ser vigilante da floresta

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2021/02/28/amazonia-1-primeiro-satelite-100percent-brasileiro-chega-ao-espaco-para-ser-vigilante-da-floresta.ghtml – acessado em 21/07/2021 às 14h40min

Cinco indústrias pioneiras em fazer negócios no espaço

https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2017/12/cinco-industrias-pioneiras-em-fazer-negocios-no-espaco.html – acessado em 21/07/2021 às 14h47min

Essas 5 indústrias serão as primeiras a fazer negócios no espaço

https://www.weforum.org/agenda/2017/11/industries-will-make-money-in-space/ – acessado em 21/07/2021 às 14h48min.

50 anos depois, é hora de voltar à Lua. Agora, para ficar

https://gauchazh.clicrbs.com.br/tecnologia/noticia/2019/07/50-anos-depois-e-hora-de-voltar-a-lua-agora-para-ficar-cjy8segbd00fj01pbcv09d10p.html – acessado em 21/07/2021 às 15h00min

O minúsculo país que lidera a ‘corrida do ouro’ espacial

https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-45303906 – acessado em 21/07/2021 às 15h12min

Luxemburgo torna-se 1º país da União Europeia a regular mineração espacial

https://www.efe.com/efe/brasil/tecnologia/luxemburgo-torna-se-1-pais-da-uni-o-europeia-a-regular-minera-espacial/50000245-3342596 – acessado em 21/07/2021 às 15h34min

Luxemburgo cria fundo para mineração espacial

https://www.dw.com/pt-br/luxemburgo-cria-fundo-para-minera%C3%A7%C3%A3o-espacial/a-19305923 – acessado em 21/07/2021 às 15h35min

Qual peso governos têm em programas espaciais?

https://gq.globo.com/Prazeres/Tecnologia/noticia/2019/06/qual-peso-governos-tem-em-programas-espaciais.html – acessado em 21/07/2021 – acessado em 21/07/2021 às 15h40min

O voo dos bilionários

https://revistapesquisa.fapesp.br/o-voo-dos-bilionarios/ – acessado em 21/07/2021

Blue Origin recebe financiamento da Força Aérea dos EUA para o foguete New Glenn

https://canaltech.com.br/espaco/blue-origin-recebe-financiamento-da-forca-aerea-dos-eua-para-o-foguete-new-glenn-124602/ – acessado em 21/07/2021 às 17h10min


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