Apontamentos sobre Frente Única – diálogo/resposta ao texto da Resistência

Um debate com a Resistência sobre a Frente Única

Leticia Faria 16 ago 2021, 21:25

Nesse texto busco apresentar uma breve contribuição ao debate sobre a política da frente única. Para isso, vou fazer alguns apontamentos sobre o artigo “PSOL – Fazer a diferença ou ser mais uma voz no coro antipetista”, assinado por Gloria Trogo e Henrique Canary e publicado no portal Esquerda On Line em 11/08/21.

Sobre a aproximação do congresso do partido e as posições radicalizadas do MES. Quais e o que são  posições “radicalizadas”?

Não se pode compartilhar um editorial do Esquerda On Line em paz? Em um país com mais de 568.000 mil mortos por ação de um genocida, não há paz para um partido como o nosso!

Como a discussão não é sobre guerra e paz. Vamos ao debate!

A FRENTE ÚNICA

A política de unidade entre os diferentes partidos da classe trabalhadora, entre eles reformistas e revolucionários, foi proposta pela primeira vez em 1921, por Paul Levi, no documento intitulado “carta aberta”. Levi foi dirigente do partido alemão e pertencente ao círculo próximo de Rosa  Luxemburgo. O objetivo de tal política é estabelecer a  luta conjunta, entre os partidos da classe trabalhadora, para a satisfação de reivindicações concretas da classe trabalhadora. Nesse período, pós guerra, a burguesia havia voltado a ofensiva no terreno da luta de classes a nível mundial, diferentemente da situação revolucionária aberta pós revolução Russa. Agora quem toma a iniciativa é a burguesia. A política da frente única surge a partir desse contexto e do nascimento do fascimo na Itália.

Diferentemente dos primeiros anos pós revolução de outubro, a revolução socialista em outros países,que era uma questão de meses,passou a ser tratada como uma questão de anos. Essa inflexão na conjuntura internacional foi acompanhada por Lenin e Trotski que defendiam a política da Frente Única e sua aplicação pelos partidos que compunham a III Internacional.

Nessa época existiam frações e partidos revolucionários que sustentavam a ideia de que o fascismo e a social-democracia eram duas faces da mesma moeda e que, dessa forma, os partidos e frações revolucionárias não deveriam constituir ações conjuntas com os partidos social – democratas (análogos ao que o PT representa hoje no Brasil). Talvez aqui, resida uma resposta para o termo “posições radicalizadas”. No afã de se postularem como as legítimas vozes da política da Frente Única defendida por Lenin e Trotski os camaradas da Resistência buscam “enquadrar” o MES como a corrente esquerdista do movimento revolucionário, dessa forma “justificam” sua política e tudo faz sentido a partir de seu esquematismo teórico.

Não colocamos um sinal de igual entre o Bolsonarismo e o Petismo.

Participamos de todas as iniciativas de defesa da vida da classe trabalhadora. Seja nas ruas, com os movimentos sociais ou no parlamento, fazemos unidade com o diabo e sua avó pelo Fora Bolsonaro! E não somos anti – petistas! No momento em que escrevo essa contribuição, também participo da organização de uma atividade conjunta sobre racismo estrutural e violência política que terá a participação de militantes do MES e dos mandatos da vereadora Luana Alves/PSOL SP e Renato Freitas/ PT Curitiba. Não poderíamos e não deveríamos estar fazendo uma atividade de propaganda com um parlamentar petista se fossemos antipetistas.

Fazer ginástica teórica para estabelecer analogias históricas que justifiquem uma posição, não é boa forma de fazer política.

Sobre a Frente Única, em 1932, Trotski escreve: –  uma deformação da política da Frente Única, fatal para os partidos revolucionários que adotaram essa tática, foi a busca desesperada por aliados sob o custo da independência política do partido. Não vou recorrer ao método que estou criticando – o esquematismo através de analogias históricas – ainda assim vejo nessa afirmação de Trotski um sinal de alerta sobre o método de aplicação da Frente Única. Quais são os acordos comuns, pilar fundamental da Frente Única, com o Petismo? Como atuar em unidade e manter a independência do partido? Abrir mão de uma posição independente e para resolução de todos os males ter como resposta: – chama o Lula?

Evidentemente essa resposta não aponta para uma posição independente do PSOL. Tampouco resolve nossos problemas

A necessidade da construção de uma Frente Única no Brasil não deve servir como verniz teórico para uma política de capitulação de classe e perda da independência política do PSOL. A composição de diferentes frentes de luta nos últimos anos atesta a necessidade da construção de uma frente única no Brasil. Mas essa necessidade, o chamado a construção da frente única, não pode ser estar condicionada a uma política de entrega e capitulação constante do nosso partido em nome da unidade a qualquer custo! Chamem o Lula à vontade! Infelizmente ele não está disposto a resolver os problemas estruturais do nosso país e também não almeja construir uma saída junto a classe trabalhadora e o povo pobre.

A burguesia é organizada mas não é absolutamente homogênea. Foi um setor burguês que afiançou a liberdade de Lula frente ao fascimo de Bolsonaro. Sem dúvidas se trata de vitória democrática, pois representa uma vitória frente ao golpe de 2016 e ao Bolsonarismo. Porém, não foram os setores da classe trabalhadora e o povo pobre que conquistaram a liberdade de Lula. Não é com os nossos que a direção do PT tem uma dívida, um compromisso e uma agenda para o Brasil. .

Mesmo no caso de estar correta para a situação histórica presente, táticas não se sobrepõem a princípios. E a independência do partido é um princípio, sem independência política perdemos nossa autonomia, nossa voz e nossa capacidade de se constituir como uma alternativa política real para os setores explorados e oprimidos

Propor e construir junto com os movimentos sociais, a negritude, o movimento feminista, os trabalhadores precariados, os povos originários, os estudantes, os LGBTQIA+ um programa e um projeto de transfomação real da sociedade brasileira, essa é a razão de ser do PSOL. Estamos dispostos a utilizar as mais variadas táticas e a fazer unidade com os mais diferentes setores para derrotar Bolsonaro. Mas para isso não abrimos mão da independência do nosso partido!  Isso é fazer a diferença!

BROUÉ, P. História da Internacional Comunista – A ascensão e a queda. São Paulo. Editora Sundermann, 2007

MORENO, N. O partido e a Revolução. São Paulo Editora Sundermann, 2008.

TROTSKI, L. Revolução e Contrarrevolução na Alemanhã. São Paulo. Editora Sundermann, 2011


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!