O caso Chapecó: a moral do PSOL está em jogo
Annelize Tozetto

O caso Chapecó: a moral do PSOL está em jogo

Devemos decidir se seguiremos no caminho da democracia de base e solidariedade militante ou se entraremos na lama da política tradicional.

Bruno Magalhães 27 ago 2021, 12:18

No último dia 15/08/2021 presenciamos um grande exemplo de distorção durante a votação dos filiados do PSOL em Chapecó/SC para o congresso do partido. Neste dia, um militante da Resistência esteve como mesário durante o processo de votação e atuou ativamente para invalidar a eleição, fingindo solidariedade com a construção local do partido enquanto filmava escondido seus próprios camaradas e buscava induzir os dirigentes locais à erros, atuando através de uma prática que choca a militância que constrói nosso partido no cotidiano.

Antes de desmascarar os erros do mesário da Resistência, é importante refletir sobre o processo congressual do PSOL e sua dinâmica de fiscalização. Uma parte importante das votações, principalmente em cidades do interior, costuma ter a maioria ou mesmo a totalidade dos votos na força política presente na cidade. Frente às dificuldades da luta contra a direita fora das capitais, muitas vezes o PSOL costuma ser construído localmente por apenas uma ou duas tendências.

Nesse cenário, a tarefa de fiscalização do congresso é complexa porque, ao fiscalizar chapas contrárias, os militantes honestos devem sempre combinar o rigor regimental com o cuidado para não desmoralizar o partido localmente. Nesses casos, o fiscal ou mesário quase sempre é uma pessoa de fora que defende outra chapa, logo não tem nenhuma relação política com aqueles que está fiscalizando. É uma situação delicada porque sua tarefa é impedir possíveis fraudes sem distorcer a votação legítima das cidades que fiscaliza.

Fiscais sérios sempre se apegam ao regimento eleitoral como referência para a votação, garantindo por exemplo que a urna feche no horário correto, que uma pessoa sem documento não vote, ou outra das tantas determinações regimentais. Como o regimento é público e categórico, serve de escudo para fiscais que muitas vezes se apresentam sozinhos perante o trabalho de outra força. A honestidade e a camaradagem entre as forças competidoras são uma linguagem comum que permite a leitura do regimento sem distorções, e para casos polêmicos sempre existe a possibilidade da consulta às comissões estaduais ou o registro em ata.

Ou seja, o método de fiscalização das votações congressuais no PSOL – principalmente em cidades pequenas e médias – só funciona caso se respeite o regimento e haja camaradagem. Caso um fiscal resolva implodir uma urna sem irregularidades, seja gritando ou forçando fatos políticos, ele pode distorcer todo o processo congressual, assim como militantes locais que assediem a fiscalização. Militantes mais experientes costumam agir através de uma combinação entre rigor e solidariedade, buscando ao mesmo tempo garantir a lisura da votação e moralizar o trabalho político local. Isso acontece porque os laços de confiança criados nas relações militantes são levados para a vida, assim como a desmoralização e desconfiança são marcas permanentes para militantes desonestos. Não sabemos quem serão nossos aliados amanhã.

Essa dinâmica cria relações interessantes de debate político, de confiança na moral dos concorrentes e até mesmo da construção de amizades entre aqueles que disputam por projetos políticos diferentes. Chegar na cidade do “adversário” e ser bem recebido, debater posições sinceras e ao mesmo tempo garantir uma votação sem fraudes é a chave para não só para o sucesso do processo congressual, mas para o próprio desenvolvimento do debate democrático partidário.

A votação em Chapecó/SC

Nessa perspectiva, a postura do militante da Resistência perante o PSOL Chapecó representou a antítese moral de tudo aquilo que defendemos como democracia partidária, e tudo isso está fartamente documentado.

Ao se apresentar à votação, que ocorreria em frente à casa de dirigentes municipais do PSOL, o mesário solicitou a mudança para outro espaço dentro da residência com o argumento de que “precisava estudar” e induziu seus camaradas de partido ao erro pela primeira vez. Logo após isso, começou a gravar seus próprios companheiros de maneira escondida enquanto fingia sua solidariedade durante todo o processo eleitoral, sem nenhum questionamento sobre qualquer processo em vigor.

Como de costume nas atividades do PSOL em centenas de cidades pelo país, alguns camaradas que participaram da votação almoçaram junto aos dirigentes municipais. O mesário em questão também almoçou com seus camaradas de Chapecó e não expressou nenhum problema com a situação, inclusive porque no bairro não havia restaurantes disponíveis no dia. Como era aniversário de um camarada, foi feita uma pequena homenagem e a dirigente local fez uma fala política saudando a militância. Nada mais saudável e corriqueiro para uma militância que constrói o partido sinceramente. Durante o processo de votação, um filiado esqueceu de assinar a lista de presença.

Enquanto fingia solidariedade, o militante da Resistência gravava tudo para construir uma narrativa pré-fabricada na qual denunciava boca de urna e o descumprimento das regras sanitárias das pessoas que comiam e bebiam no local, captando imagens ao longo de dia que foram editadas em um vídeo para supostamente “provar” a denúncia1. Ele interviu prontamente quando encontrou “irregularidades”? Conseguiu almoçar com a máscara? Sua postura foi tão errática que ele nem mesmo registrou em ata as supostas “irregularidades” para depois denunciar que havia sido intimidado pelos camaradas do PSOL local, que não hesitaram inclusive em fazer uma marmita para o caluniador comer mais tarde.

Ao saber das calúnias do mesário, a única filiada da cidade ligada à tese PSOL Semente se expressou de forma contundente contra esta postura degenerada, desmoralizando ainda mais a natureza cínica de sua “denúncia”2. Está tudo fartamente documentado. O video-calúnia é uma montagem absurda e as respostas do PSOL Chapecó são fartas em evidências a favor dos camaradas da cidade.

Mas a votação de Chapecó está em risco e pode ser anulada por conveniência do campo PSOL de Todas as Lutas. A disputa pela direção no estado está acirrada e o frágil golpe burocrático armado pode fazer a diferença no resultado final do congresso em Santa Catarina. Foi para inverter essa relação democrático que o caluniador esteve em Chapecó.

As verdadeiras distorções do Congresso do PSOL

A calúnia contra Chapecó fica ainda mais absurda se a compararmos com outras votações muito mais duvidosas pelo país. O exemplo mais gritante até agora foi a votação de Conceição da Feira/BA, onde o PSOL compõe o governo municipal do PSB em coligação com o Podemos, o PSC e a Rede3. Lá, o dirigente do PSOL é o companheiro Dinho, chefe do Setor de Fomento à Cultura na cidade. Nesta cidade houveram 211 votos para o congresso do PSOL, mas na eleição de 2020 nosso partido teve somente 194 votos, demonstrando o caráter fisiológico da construção partidária no município.

Mas o problema lá foi bem maior porque a prefeitura atuou ativamente no congresso, cedendo estrutura e inclusive utilizando de carro de som para convocar os filiados e ligar a votação à promessas de moradias para a população4. A boca de urna também foi registrada5, assim como grande aglomeração6 e pessoas comendo7 no local de votação,e mas tudo isso não foi motivo suficiente para anular a votação em Conceição da Feira, demonstrando o enorme casuísmo do PSOL de Todas as Lutas em sua abordagem do regulamento.

Outra distorção enorme está no Amapá, estado onde o PSOL é um dos maiores partidos em número de filiados mesmo perdendo suas principais referências políticas, o senador Randolfe Rodrigues e o ex-prefeito de Macapá Clécio Luis. Randolfe é hoje uma das principais figuras de Rede e Clécio está no PV e declarou apoio nas últimas eleições ao direitista Josiel Alcolumbre (DEM), irmão do presidente do Senado. Mesmo fora do partido, os dois continuam operando dentro do PSOL no estado e garantindo uma grande quantidade de votos no congresso para o atual campo majoritário na direção nacional.

Estes são dois exemplos dos verdadeiros problemas políticos que enfrentamos internamente no partido, mas são ignorados pelo conjunto da militância enquanto factóides como a montagem de Chapecó são empurrados goela a baixo. É importante lembrar que todos estes casos e recursos de votação são definidos por uma comissão nacional composta majoritariamente pelo campo PSOL de Todas as Lutas, ou seja, as decisões sobre o mérito de cada urna estão em última instância nas mãos dos próprios interessados em manter sua maioria na direção.

Isso tudo coloca o PSOL em um impasse moral. Devemos decidir se seguiremos no caminho da democracia de base e solidariedade militante ou se entraremos na lama da política tradicional. O operador do golpe em Chapecó já está desmoralizado por sua prática mentirosa, mas a anulação da votação naquela cidade ao mesmo tempo em que casos acima são naturalizados pode desmoralizar o PSOL como um todo, desmotivando a militância honesta. E independentemente de nossas posições políticas, não podemos deixar que este processo de burocratização tome o PSOL de assalto.

Tanto o vídeo-calúnia como as demais informações citadas acima estão relacionadas abaixo. O conjunto da militância pode tirar suas próprias conclusões.


1 Vídeo Chapecó

2 Áudio Chapecó

3 https://politica.estadao.com.br/eleicoes/2020/candidatos/ba/conceicao-da-feira/prefeito/joao-de-furao,40

4 Vídeo Conceição da Feira 1

5 Imagem Conceição da Feira

6 Vídeo Conceição da Feira 2

7 Vídeo Conceição da Feira 3

Nota oficial sobre a votação em Chapecó:

Resposta e solicitação de rejeição de recurso de impugnação da votação em Chapecó:


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!