Stalin matou foi pouco?
Estandartes de Trotsky e Rosa Luxemburgo na manifestação contra Bolsonaro realizada em 3 de julho em Porto Alegre. Foto: Pedro Feltrin

Stalin matou foi pouco?

O debate necessário levantado pela infeliz canção “Stalin matou foi pouco” interpretada e compartilhada por militantes da UJC.

Júlio Câmara 16 ago 2021, 17:25

Recentemente surgiu na linha do tempo um vídeo de jovens militantes da União da Juventude Comunista (juventude do Partido Comunista Brasileiro) interpretando uma música com o refrão “Stalin matou foi pouco”. Em poucos segundos roda na tela uma sequência de frames que constrangem comunistas e punks. 

A situação abriu a oportunidade de discussão sobre Stalin e isso exige mais que algumas rimas pobres.

Quando falamos sobre o papel de Stalin, o que está em discussão é o fio de continuidade do marxismo-leninismo com o movimento revolucionário que teve como experiência mais avançada a Revolução Russa de 1917.

Para quem reivindica o comunismo, associar-se a Stalin é uma contradição irremediável.

A herança de Stalin nada tem a ver com o fio de continuidade do trabalho revolucionário de Marx e Lênin. Trata-se de um rompimento fundamental para qualificar o “movimento stalinista”. Stalin foi agente ativo do processo contra revolucionário que liquidou as conquistas da Revolução Russa e restaurou o capitalismo na União Soviética.

A biografia de Stalin e seu ascenso como liderança após a morte de Lenin é manchada por um processo de burocratização violenta, assassinato da vanguarda do Partido Bolchevique, transformação do aparelho revolucionário numa polícia política para perseguir revolucionários como León Trotsky – que combateu o stalinismo defendendo o legado de Lenin e a fidelidade à Revolução de Outubro de 1917 e os princípios originais do comunismo.

Trotsky, com Lenin, comandou a revolução russa, organizou o Exército Vermelho e derrotou 21 potências imperialistas que invadiram a Rússia como resposta à revolução.

Nas suas últimas semanas de vida, Lenin sugeriu que Stalin deixasse o cargo de Secretário Geral do Comitê Central do Partido Comunista da URSS. Lênin apontou Trotsky como quadro capaz de assumir a tarefa.

O legado de Stalin foi a degeneração da União Soviética e o aparelhamento dos partidos comunistas pelo mundo. Um desastre para quem defende a revolução socialista mundial.

No legado de Trotsky merece destaque a contribuição para manter viva a ideia central do comunismo defendido por Marx e Lênin enquanto se consolidava a vitória da contra revolução através da desfiguração stalinista da bandeira comunista.

Para contribuir com a discussão aberta, felizmente a Revista Movimento publicou recentemente O que é ser trotskista no século XXI escrito por Pedro Fuentes. 

Leitura fundamental. 

Pedro é dirigente do Movimento Esquerda Socialista e do PSOL e carrega uma trajetória de militância em defesa da reorganização internacional das forças revolucionárias. Militante fundamental na continuidade do legado de Lenin e Trotsky.

A violência stalinista perseguiu e matou inúmeros quadros revolucionários que não se sujeitaram à capitulação e insistiram no trabalho comunista. 

Em agosto de 1940, finalmente Stalin obteve êxito com o plano para matar Trotsky. Um agente da burocracia soviética, traidor infiltrado na casa de Trotsky, executou a tarefa utilizando uma picareta.

Voltando à motivação inicial do texto. É necessário registrar que escutamos com rispidez insuportável o refrão “Stalin matou foi pouco” vindo de militantes de uma organização considerada aliada na luta contra a extrema-direita e o fascismo que está aberta no Brasil em 2021.

Stalin matou o processo revolucionário que estava em curso na Rússia. Matou a revolução internacional utilizando o aparelho soviético. Matou gerações de revolucionários, cientistas, artistas, homens e mulheres que contribuíram para o progresso da humanidade. Stalin matou Trotsky. Stalin matou foi muito mas não foi o suficiente para liquidar o fio de continuidade que se mantém vivo pelo trabalho de Trotsky e de muitos outros revolucionários.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!