O dia depois do 7 de setembro

O dia depois do 7 de setembro

Apesar da radicalização do discurso golpista, as fissuras aumentam. É preciso colocar a classe trabalhadora e a juventude em movimento, e construir uma unidade ampla pelo “Fora, Bolsonaro”.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 8 set 2021, 22:32

Depois do 7 de setembro, o balanço político e a leitura da conjuntura devem servir para indicar os próximos passos da luta para derrotar o golpismo de Bolsonaro. Neste editorial, apontamos algumas tendências da situação política. É fato que Bolsonaro colocou centenas de milhares nas ruas do país ontem. Num esforço hercúleo, que envolveu muito dinheiro, aparato público e deslocamento da base bolsonarista de cidades do interior em milhares de ônibus pagos por empresários pró-governo, sua convocatória concentrou-se em Brasília e São Paulo.

Apesar disso, apresenta-se um paradoxo: quanto mais mobiliza e agita sua base social militante, mais Bolsonaro isola-se na superestrutura política do país. Qual o desenlace desse salto de qualidade na crise política? A esquerda foi para as ruas, de forma corajosa e digna, em manifestações muito mal preparadas e, portanto, com um quórum reduzido. Diante do golpismo explícito de Bolsonaro, é preciso construir uma ampla unidade de ação capaz de massificar a luta para tirá-lo já do governo.

Um salto de qualidade na crise política e institucional

As manifestações golpistas de 7 de setembro ocorrem quando se vive, no Brasil, uma intensa crise econômica, social, sanitária, política, hídrica, energética, ambiental… Em quase três anos de governo, Bolsonaro ampliou cada uma dessas crises, aplicando um programa de choque contra a classe trabalhadora e o povo brasileiro, que contou com o apoio entusiasmado da burguesia até que a inépcia do governo passou a cobrar seus custos, especialmente com a política genocida na pandemia, o estímulo à destruição ambiental e suas consequências nos mercados internacionais, e o fracasso de Paulo Guedes para entregar a prometida recuperação econômica.

Premido por sua popularidade cadente, por pesquisas eleitorais que indicam sua derrota em 2022, por investigações que devassam a vida criminosa de sua família e pelo aumento das divisões na classe dominante e na superestrutura política, Bolsonaro avançou sua mobilização golpista. Apoiando-se no núcleo duro de sua base, Bolsonaro contou, sobretudo, com o apoio de parte do ruralismo, de empresários do varejo e de líderes evangélicos para dar uma demonstração de força, tentando conter as ameaças das investigações no STF e no TSE.

Se é verdade que Bolsonaro amplia seu isolamento e que suas manifestações reuniram uma base social minoritária no país, composta principalmente por pessoas brancas, mais velhas, de classe média e evangélicas, a radicalização do bolsonarismo não deve ser subestimada. O ataque golpista ao STF e sua promessa de que “só deus” o tira de Brasília (e de que as alternativas a sua vitória são a morte ou uma prisão que ele não aceitará) mostram que sua movimentação visa ao fechamento do regime, combinado ou não com uma improvável vitória em 2022. Por isso, o recurso sistemático ao descrédito do TSE e das urnas eletrônicas, emulando o trumpismo.

Bolsonaro aferra-se ao poder e sua escalada golpista ficou evidente, acelerando o deslocamento na superestrutura. A semana anterior às manifestações foi marcada pelas “cartas” de setores burgueses em defesa da institucionalidade. Após o dia 7, esse deslocamento começa a manifestar-se nas articulações tardias de partidos burgueses como PSDB, PSD, Cidadania, Solidariedade, entre outros, em favor do impeachment. A Globo vocalizou, em sua cobertura das manifestações bolsonaristas, o tom mais duro da direita não bolsonarista.

Hoje (8), a manifestação tímida de Luiz Fux e o pronunciamento vazio de Lira revelaram também as dificuldades para que tais setores burgueses possam conter o golpismo. Bolsonaro só pode ser contido nas ruas com mobilização. A maioria do povo brasileiro rejeita seu governo genocida, corrupto e sua política de miséria e destruição nacional.

O lugar das oposições é na rua: é hora de unidade ampla para derrubar Bolsonaro

A realização de manifestações da oposição no dia 7, sobretudo a manutenção do ato em São Paulo, foi uma demonstração importante, mas muito aquém do necessário para contrapor-se ao golpismo bolsonarista. A oposição e, em particular, a maioria da campanha “Fora, Bolsonaro”, por orientação de Lula e do PT, cometeu um erro grave com a paralisia no calendário de lutas, deixando esfriar a pressão acumulada nas manifestações dos últimos meses, que chegaram a centenas de cidades e reuniram quase um milhão de manifestantes em todo país. Ainda pior papel cumpriram os setores que desestimularam a mobilização, espalhando o medo na vanguarda. Não se pode dar espaço para o golpismo bolsonarista, jogando todas as esperanças de derrota do governo para a eleição de 2022 – quando se sabe que Bolsonaro coloca em risco até mesmo sua realização.

A mobilização é fundamental, já que o governo segue perdendo apoio e, apesar da radicalização de seu discurso golpista, as fissuras aumentam. A crise no andar de cima pode precipitar uma janela para os debaixo. Por isso, é preciso colocar a classe trabalhadora e a juventude em movimento, e construir uma unidade ampla pelo “Fora, Bolsonaro”, independentemente de outras posições e expectativas eleitorais. O exemplo da luta dos povos indígenas contra o “marco temporal” deve nos inspirar, levantando a cabeça contra os fascistas.

Estamos de acordo com a posição da deputada Fernanda Melchionna em artigo recente:

“É preciso manter a disposição de luta e, ao mesmo tempo, abrir o debate franco e claro com os setores da esquerda que apostam em levar a disputa para o campo eleitoral de 2022. Isso é de uma irresponsabilidade sem tamanho, sob pena do nosso povo seguir sangrando até lá e dar mais chance de organização, até militar, ao protofascismo. É preciso debater no seio da vanguarda brasileira que o medo nunca mudou a história. Se somos maioria social, precisamos demonstrar isso na rua. Identificar a divisão burguesa é importante para ver o isolamento e os limites do próprio Bolsonaro, mas não podemos nunca deixar o nosso futuro nas mãos das elites e dos acordos de cúpula”.

Devemos aprofundar o debate da “agenda” das necessidades da classe: o preço da gasolina, o aumento da inflação de alimentos, o desemprego, a defesa das empresas estatais. Nossa necessidade objetiva é construir um ato unitário amplo pelo “Fora, Bolsonaro” e impeachment, ainda no mês de setembro, abrindo o caminho para a massificação do movimento, com a entrada em cena da juventude e da classe trabalhadora.   


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!