As batalhas congeladas em território pós-soviético

Que as “escadarias de Odessa” sejam tomadas pelas lutas do povo, não pelas balas dos exércitos.

Isabelle Ottoni 20 jan 2022, 16:01

O “telefone vermelho” ficou no passado. Com o aumento das tensões entre Rússia e Ucrânia, as reuniões para mediar a situação aconteceram em Genebra, Bruxelas e Vienna. Mas os resultados tem sido decepcionantes. Em todos os encontros a Rússia fez as mesmas exigências: a garantia do fim da expansão da OTAN e retirada total de tropas em territórios do extinto Bloco Soviético. A proposta segue inaceitável para a OTAN e Estados Unidos.

Washington afirma que a Rússia exige muito, quando está, nesse momento, com mais de 100 mil soldados na fronteira da Ucrânia, em treino diário com munição letal. A Rússia não nega nem confirma, mas diz que responderá a uma eventual entrada da Ucrânia na OTAN. O medo russo é que, uma vez parte do Tratado, o presidente Zelensky contará com o apoio de quase toda a Europa contra o avanço territorial russo. A situação da Crimeia também é um dos conflitos congelados da guerra fria. Apesar de alguns focos de conflito permanentes, a situação nunca esteve tão bélica.

Biden tenta desescalar o conflito. Afirmou que não pretende enviar tropas para a região, mas também reconheceu que os Estados Unidos apoiam a integridade territorial da Ucrânia. Também afirmou que, caso Moscou se recuse a recuar, sanções econômicas irão acontecer.

A principal razão da disputa pela Criméia é geográfica. A Rússia, apesar do seu tamanho, não tem nenhum porto com águas quentes. Ou está banhada por mares fechados, como o Mar Negro, ou tem à sua disposição portos em mares que congelam em boa parte do ano, como o do Ártico e o de Vladvostock. Na Guerra da Crimeia, que durou de 1853 a 1856, nenhum dos envolvidos sequer tinha conexão por terra com a península. De um lado a Rússia, do outro o Reino Unido, a França, o Reino da Sardenha (atual Itália) e o Império Otomano (atual Turquia). No fim, o povo que ali habitava era quem menos importava. Muitas das batalhas se deram em Sevastopol, cidade imortalizada pelos corajosos do encouraçado Potemkin. A Rússia perdeu e ficou proibida de manter bases navais no Mar Negro.

Em 1917 a Revolução de Outubro torna a Criméia um república autônoma, parte da Rússia. Mas em 1954 Nikita Khrushchev a transfere para a Ucrânia, a fim de estreitar laços. Em 1991 a Ucrânia se torna independente, assim como a República Autônoma da Crimeia, com Sevastopol com uma administração independente, dentro da Ucrânia e fora da República Autônoma. Isso funcionava porque assim Ucrânia e Rússia dividiam o porto entre a Frota Russa do Mar Negro e as Forças Navais Ucranianas. Os países chegaram a formalizar um acordo, que oficializava o arrendamento do porto para a Rússia até 2042, enquanto a Ucrânia teria privilégios nos acordos do gás.

Veio 2014. A população da Ucrânia tomou as ruas contra o alto nível de influência russa na política ucraniana e o distanciamento de Kiev com a União Europeia. Os protestos, conhecidos como Euromaidan, tinham composição ampla. Contava com muitos estudantes universitários exigindo mais participação no país, mas também células neo-nazistas, ainda que em menor número. As manifestações tinham repressão violenta, o número de mortos foi alto, e eventualmente o presidente Viktor Yanukovytch caiu e fugiu para a Rússia.

A Rússia não reconheceu o novo governo, denunciando-o como Golpe de Estado. Quem assumiu foi Arseniy Yatsenyuk, na época sem cargo na política, e próximo dos Estados Unidos. Com a nomeação veio também a quebra de acordos com a Rússia. Menos de um mês depois do começo do Euromaidan, Vladimir Putin já tinha anexado o território da Criméia à Rússia.

Cada país conta seu lado da história. A Rússia vem, desde as eleições de 2010, intensificando seu projeto de compreensão da cultura como parte da estratégia de segurança nacional. Vladimir Medinsky, Ministro da Cultura da Rússia de 2012 a 2020, insistia que na “guerra híbrida” entre Rússia e Ucrânia, seu Ministério teria um dos papéis mais cruciais. Um dos grandes marcos dessa campanha pode ter passado despercebido por muitos: a estátua do Príncipe Vladimir, em Moscou, colocada de pé em 2016. Príncipe Vladimir chegou em 998 ao que pode ser compreendido como a Crimeia, conquistando a cidade de Sevastopol. Ele governava o Rus de Kiev, uma confederação de forças eslavas que abrangia parte do Leste Europeu e a parte europeia da Rússia. Justamente a Kiev que hoje é capital da Ucrânia. Mas o Rus de Kiev é considerado o ancestral medieval da Rússia, Ucrânia e também Bielorrúsia. Se a Crimeia era parte do Rus de Kiev, ela poderia pertencer a qualquer um desses países. Kiev já ostenta, desde 1853, uma estátua em homenagem ao Príncipe Vladimir. A iniciativa russa em colocá-lo oficialmente como parte da sua história faz parte dessa estratégia de segurança nacional, visando “recuperar deformações da memória histórica”, saindo da “atomização da sociedade”. E clamar a Crimeia para si.

A Ucrânia afirma que a Rússia passa por cima da livre determinação do povo da Crimeia, que optou, na época da dissolução da União Soviética, por se tornar uma república independente, com Sevastopol permanecendo parte da Ucrânia. E que a ocupação ilegal russa passa por cima do direito internacional. Além disso, dado que a própria Rússia é originária de território que já foi ucraniano, Kiev afirma que o território historicamente pertence à Ucrânia. A Rússia responde que esse é o desejo atual da população da Criméia, mas não é bem assim: Moscou até promoveu um referendo na Criméia perguntando se a república queria ou não a anexação com a Rússia. Quase 97% dos 1,2 milhões de votantes disseram sim, mas o processo foi cheio de denúncias de corrupção, além de ter acontecido em um momento de ocupação russa em território da Crimeia. O número de votantes também levantou questões, já que apenas 58% da população do território é de origem russa, os ucranianos e os tártaros boicotaram a votação, mas juntos somavam um total de 1,5 milhões de aptos a votar.

Não é novidade que a Rússia cumpre papel em agitar os conflitos com separatistas, principalmente os pró-russos do Leste da Ucrânia, na região do Vale Donbass. Também não reconhece a autonomia dos territórios de Donetsk e Luhansk. Mais de 13 mil pessoas já morreram em conflitos na região. E a escalada de forças parte de ambos os lados.

Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN, confessa que o resultado das reuniões mostrou que as chances para um novo conflito armado na Europa são reais. Mas tenta mediar chamando de positivo as tentativas de mediação. Joe Biden segue em apoio aberto à Ucrânia, tendo enviado mais de 200 milhões de euros no final de dezembro de 2021, para a compra de novas armas, munição e novos radares marítimos.
Apesar de tudo indicar que as potências pós-soviéticas tendem a entrar em conflito aberto nas próximas semanas, a OTAN segue insistindo nas reuniões presenciais. O convite para a próxima foi feito por Stoltenberg e Olaf Scholz, chanceler alemão. A reunião, ainda sem data, deve ser posterior ao encontro entre Anthony Blinken, Secretário do Estado dos Estados Unidos, e autoridades ucranianas, na próxima quarta-feira (19), na Ucrânia. A reunião é uma tentativa de criar mediações entre os pedidos russos e as possibilidades ucranianas.

Os interesses russos são claros: expansão do seu território e afastar a OTAN do seu terreno de influência. Ainda que a OTAN não esteja em uma disposição real de convidar a Ucrânia, ainda menos a Geórgia e a Moldávia, para sua mesa, é um golpe duro a sua legitimidade permitir que a Rússia determine um impedimento de sua expansão.

No fim, nem o imperialismo norte-americano, nem as imposições russas estão comprometidas com as vontades da população. Nenhuma das duas tem interesse em livrar a Ucrânia de suas oligarquias autoritárias, do avanço da extrema-direita neo-nazista, ou mesmo apoiar um movimento real por uma Ucrânia independente. Até então, nenhum referendo com credibilidade aconteceu em nenhum dos territórios. É necessário ouvir o povo, de todos os lados e nacionalidades, e entregar a eles o direito de viver como preferirem. Sem soluções prontas ou mágicas, mas com disposição de construir lutas que se disponham à vontade do povo, não de autocratas.

Para a revista norueguesa Klassekampen, o sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko diz que “os ucranianos estão reduzidos a migalhas no grande jogo de poder entre a Rússia e os Estados Unidos, e que seu país é retratado de forma enganosa e “colonialista”, como uma nação homogênea, onde uma população unida quer se juntar à OTAN para escapar das garras da Rússia.” Ele ainda fala que os ucranianos acreditam que a adesão à OTAN aumentará a hostilidade em relação à Rússia e entregará muita soberania ucraniana ao Ocidente, algo que os ucranianos acreditam que já acontece, desde 2014.

Em 25 de setembro de 1939, à época da eclosão da Segunda Guerra Mundial, Trotsky escreveu “A URSS Na Guerra”. Seus apontamentos seguem válidos.

“Não confiamos nenhuma missão histórica ao Kremlin. Estivemos e continuamos contra ocupações de novos territórios pelo Kremlin. Estamos pela independência da Ucrânia soviética, e se os bielo-russos quiserem, também da Bielo-Rússia soviética. Ao mesmo tempo, nas partes da Polônia ocupadas pelo exército russo, os partidários da Quarta Internacional devem jogar um papel decisivo na expropriação dos grandes proprietários de terra e capitalistas, na distribuição de terra entre os camponeses, na criação de sovietes e comitês operários etc. Enquanto fazem isso, devem conservar sua independência política, devem lutar, nas eleições para os sovietes e comitês de fábrica, pela total independência destes organismos frente à burocracia, e devem realizar propaganda revolucionária no espírito de desconfiança com relação ao Kremlin e seus agentes locais.”

Que as “escadarias de Odessa” sejam tomadas pelas lutas do povo, não pelas balas dos exércitos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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