Conversando com a esquerda polonesa
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Conversando com a esquerda polonesa

Desde Varsóvia, uma análise da esquerda institucional polonesa.

Bruno Magalhães 20 abr 2022, 00:02

A história da Polônia e dos outros países do leste europeu apresenta características distintas do restante da Europa, conforme escrevemos em texto anterior. Estas características alteram bastante as perspectivas e tarefas colocadas pelas organizações de esquerda destes países e, com a invasão russa à Ucrânia colocando os olhos do mundo sobre esta região, estas diferenças voltaram novamente à tona e desencadearam um profundo debate entre as organizações do leste europeu e seus companheiros do resto do mundo, especialmente da Europa Ocidental e da América Latina.

A posição da esquerda institucional polonesa é exemplar nesse sentido. Na fronteira entre a OTAN e o imperialismo russo, estes socialistas poloneses majoritariamente apresentam uma posição em vários aspectos bastante distinta das organizações similares no resto do mundo. Sua posições perante temas como a União Europeia, a energia nuclear, o caráter das oligarquias regionais, entre outros, são assuntos contraditórios que nos convidam à reflexão. Dialogando com camaradas deste país, procuramos entender um pouco mais o que defendem e por que defendem tais posições.

Os partidos da esquerda polonesa

A principal organização política da esquerda polonesa é a coalizão Lewica (“Esquerda”, em português), formada em 2019 para a disputa eleitoral através da união dos partidos Lewica Razem (Juntos à Esquerda) e Nowa Lewica (Nova Esquerda). O primeiro grupo foi fundado em 2015 e tem sua origem nos Młodzi Socjaliści (Jovens Socialistas, organização criada em 2005) agregando militantes dos Verdes e de iniciativas locais. O Razem teve papel protagonista nas diversas mobilizações recentes pelo direito ao aborto e nos protestos contra a visita de Donald Trump ao país em 2017, contando atualmente com 6 deputados e sendo o grupo com representação parlamentar mais à esquerda do país.

Já o Nowa Lewica é um partido socialdemocrata considerado de centro-esquerda, fundado em 2020 através da fusão entre o SLD (“Sojusz Lewicy Demokratycznej”, ou Aliança da Esquerda Democrática) e o Wiosna (Primavera). Enquanto o Wiosna era um partido social-liberal bastante ligado às pautas de direitos civis, o SLD foi o partido que reunia apoiadores do antigo regime burocrático, como os sindicalistas da federação oficialista OPZZ que havia sido criada como alternativa ao Solidarność nos anos 1980. Seus dois períodos anteriores no governo (1993-1997 e 2001-2005) foram marcados por políticas profundamente neoliberais que ainda hoje tem consequências na sociedade do país.

A coalização Lewica possui hoje 38 parlamentares no Sejm (Congresso polonês), sendo 6 do Razem e 32 do Nowa Lewica (que possui também 4 eurodeputados localizados no Partido dos Socialistas Europeus). Mesmo tendo posições distintas sobre vários temas econômicos, nos quais o Razem se localiza bastante à esquerda, o Nowa Lewica é hoje a principal coalizão de oposição tanto ao governista PiS do presidente Duda como ao PO (“Platforma Obywatelska”, ou Plataforma Cívica), partido liberal-conservador dirigido por Donald Tusk. Não é uma localização simples, pois a profunda polarização entre o PO e o PiS – aliada às inconsistências ideologicas do Nowa Lewica – dificultam bastante a luta da coalizão por espaço. Além disso, o partido centrista Polônia 2050 do jornalista Szymon Hołownia, terceiro colocado nas últimas eleições presidenciais, também surge como alternativa à disputa PO-PiS apresentando um programa liberal pretensamente ecologista.

A experiência do PPP

Na histórica recente, é importante lembrar e experiência do PPP (“Polska Partia Pracy”, ou Partido Polonês do Trabalho). Este partido tem suas origens em 2001 através do Sindicato Livre de Trabalhadores Agosto 80, formado quase exclusivamente por mineiros da região da Silésia, que se lançou na disputa política com uma plataforma de esquerda referenciada nas primeiras experiências do Solidarność. Defendiam a ampliação dos sistemas públicos de saúde e educação, aumento de salários, diminuição da jornada de trabalho, a saída das tropas polonesas do Iraque e o fim da concordata do estado polonês com a Igreja Católica.

Seu principal fundador foi Daniel Podrzycki, um militante nas primeiras mobilizações do Solidarność no começo dos anos 1980 que esteve preso por duas vezes devida à sua atuação sindical. No início dos anos 2000 se opôs à entrada da Polônia na União Europeia e na OTAN, defendendo o fim do recrutamento militar, o aumento do salário mínimo e outras pautas bastante à esquerda no cenário político polonês. Em 2005, pouco antes das eleições no qual disputava a presidência, ele morreu em um acidente de carro e foi substituído na liderança do partido por Bogusław Ziętek.

Partido Polonês do Trabalho – Agosto 80

Em uma interessante iniciativa política, o PPP se aproximou do movimento feminista e incorporou pautas como o direito ao aborto e o reconhecimento de casamentos de pessoas do mesmo sexo, chegando inclusive a formar uma aliança temporária com o sindicato das enfermeiras de Varsóvia que se ampliou para uma coordenação europeia de trabalhadoras de saúde. Como se propunham a ser um partido nacional, mas tinham uma visão exclusivamente eleitoral da política, não conseguiram estruturar de fato o partido para além da Silésia e infelizmente acabaram se dissolvendo em 2017, pouco tempo após a grande derrota eleitoral da esquerda em 2015.

Este ano foi bastante negativo para o conjunto da esquerda polaca, que não elegeu nenhum parlamentar. Ao não conseguir ultrapassar a cláusula de barreira de 8% dos votos, a então Esquerda Unida perdeu os 67 assentos que possuía anteriormente no Sejm e se dissolveu pouco tempo depois. O atual presidente do PiS, Andrzej Duda, foi eleito pela primeira vez nesta mesma eleição.

O Lewica Razem

Neste cenário bastante à direita, o Razem é o partido da esquerda radical no país. Uma das organizações protagonistas das grandes lutas feministas, tem participado também de mobilizações pelos direitos da população LGBT, lutas por moradia, em defesa da juventude, contra as guerras da OTAN no Iraque e Afeganistão, entre outras. Seus seis parlamentares eleitos ao Sejm, dos quais quatro são mulheres, são bastante jovens e oriundos dos movimentos sociais citados acima.

Após a invasão russa à Ucrânia, o Razem se posiciou veementemente em solidariedade aos refugiados ucranianos (já são mais de 2 milhões somente na Polônia) e a favor do apoio à resistência armada ucraniana contra Putin, inclusive com o envio de armas para seu exército, mas discordando do estabelecimento de uma Zona de Exclusão Aérea no país devido aos riscos da escalada militar que tal ação provocaria. Aprofundando laços com o pequeno, porém combativo, grupo socialista ucraniano Sotsialnyi Rukh (Movimento Social), o Razem tem uma posição muito firme sobre os perigos do imperialismo russo que parece consensual entre outros grupos socialistas do leste europeu, à exemplo do RSD (Movimento Socialista Russo), e o desdobramento da guerra inclusive levou à ruptura do Razem com a Internacional Progressista após os posicionamentos recentes desta coordenação.

Entretanto, devido aos diferentes vetores da política polonesa, um observador externo poderia caracterizá-los como estando à direita de outras organizações de esquerda na Europa Ocidental ou na América Latina. Isso porque em sua plataforma estão posições controversas como o apoio à participação da Polônia na União Europeia, a defesa da criação de forças armadas europeias em substituição à OTAN e o respaldo à utilização da energia nuclear como matriz energética. Conversando com o deputado Maciej Konieczny, que gentilmente nos recebeu na sede do partido em Varsóvia (localizada na histórica rua “Nowy Świat”, ou Novo Mundo), procuramos compreender seus argumentos.

Maciej cresceu numa cidade mineira da Silésia, teve uma passagem pelos Verdes e participou da fundação do Razem em 2015. Aos 41 anos, participou de movimentos altermundialistas e da organização polonesa vinculada à ATTAC Europa, sendo eleito ao Sejm pela região silesiana de Katowice. Tendo referências políticas como o Podemos espanhol e o MAS boliviano (de certa forma afetadas pelas recentes posições destas organizações diante da invasão russa), ele tenta explicar a política polonesa já alertando de antemão que esta não é uma tarefa fácil.

Maciej Konieczny, deputado do Razem no Sejm. (Maciek Jazwiecki / Agencja Gazeta)

A defesa da União Europeia

O apoio do Razem à União Europeia é combinado com uma crítica ao atual modelo da UE em favor das grandes empresas, mas identificando avanços na união e defendendo maior integração europeia ao mesmo tempo que pauta a necessidade de uma profunda reforma social no organismo internacional. Maciej entende esta posição faz muito mais sentido na Polônia do que em outros países europeus porque no país a UE representou avanços sociais perante o cenário anterior de privatizações e retirada de direitos após o fim da “Polônia Popular”. Reconhece que é um cenário bastante diferente de cenários como dos países escandinavos, nos quais a participação na UE representou ataques aos trabalhadores e desmonte de medidas dos estados de bem-estar social.

Além disso, defende que a participação na UE é também uma garantia contra as pretensões imperialistas russas na região, citando a agressão à Ucrânia como exemplo evidente deste risco. A ingerência de Putin ficou evidente em países próximos através do decisivo apoio aos ditadores Aleksandr Lukashenko em Belarus e Kassym-Jomart Tokayev no Casaquistão, dois países que enfrentaram recentementes grandes revoltas populares reprimidas violentamente com o apoio das forças russas. Lukashenko está no poder desde 1994 e Tokayev assumiu em 2019, mas representa a continuidade do regime de Nursultan Nazarbayev (no poder entre 1990 e 2019). Outros exemplos da política imperialista russa podem ser encontrados nos diversos enclaves espalhados em países como a própria Ucrânia (Donbass), a Geórgia (Abkhasia e Ossétia do Sul) ou a Moldávia (Transnístria). A própria Polônia possui um enclave russo ao norte de seu território (Kaliningrad) imposto após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Nesse contexto, a posição do Razem sobre a OTAN também é complexa. O partido critica veementemente o papel da aliança militar em ações como a invasão do Iraque em 2003 e apoia políticas internacionais de controle de armas e desarmamento, mas ao mesmo tempo defende a criação de um exército europeu próprio com características defensivas. Este exército seria uma forma de diminuir a influência dos EUA na região e, ao mesmo tempo, manter a “segurança” dos países do leste, especialmente da Polônia e dos países bálticos.

Por outro lado, o Razem é hoje o principal partido político defensor dos imigrantes e refugiados. Obviamente contra a construção de muros nas fronteiras e nutrindo fortes laços de solidariedade com os curdos e demais povos migrantes, foi uma das organizações que denunciou a postura criminosa do governo do PiS na perseguição e deportação de refugiados africanos e do Oriente Médio. É preciso lembrar que esta não é uma posição popular na Polônia, ainda que tenha havido uma mudança significativa na opinião pública após o início da guerra, e o governo de direita tem o combate a imigração como uma de suas principais bandeiras.

Energia nuclear?

Outro ponto bastante polêmico nas posições do Razem é o tema da energia nuclear. Segundo Maciej, são defensores “entusiásticos” da utilização da energia nuclear para fins pacíficos, listando uma séria de argumentos a favor desta fonte energética. O primeiro é o problema iminente do aquecimento global, para o qual as respostas da transição energética seriam ainda bastante insuficientes pois as chamadas fontes de “energia limpa” causariam um enorme impacto humano no país.

A Polônia é um país com baixo potencial hidrelétrico e pouca incidência de luz solar, o que exigiria enormes espaços destinados à monocultura para produção de biomassa ou a instalação de grandes campos de coleta de energia solar ou eólica que também não teriam os mesmo resultados de outros países. São críticos do fechamento de usinas nucleares na vizinha Alemanha como sendo “um passo para trás”, tendo em vista sua substituição pelas termoelétricas de carvão.

Quando questionado sobre os riscos da energia nuclear, Maciej é incisivo ao defender que estes riscos são muito menores que os de outras matrizes energéticas. Para defender sua posição, compara os números de afetados nos recentes desastres nucleares (como Fukushima) com o impacto humano de outras fontes através da mineração do carvão, da poluição gerada pelas termoelétricas ou dos agrotóxicos para a monocultura de biomassa. Além disso, esta posição também está ligada à necessidade de garantir uma autonomia energética polonesa que diminua a necessidade do gás russo, diminuindo a vulnerabilidade do país.

Um situação difícil

As posições polêmicas da atual esquerda institucional polonesa refletem a situação bastante contraditória na qual o próprio país está inserido, tanto do ponto de vista geopolítico como do econômico, social ou energético. É uma situação bastante difícil para a esquerda no país, mas ainda sim esta esquerda existe como força social e política de maneira mais robusta do que há alguns anos atrás, ainda que suas posições atuais estejam evidentemente à direita da experiência incompleta realizada pelo PPP.

A dificuldade de compreensão da conjuntura polonesa a partir da América Latina pode levar à caracterizações injustas sobre os camaradas do Razem e de outras organizações da região, assim como acontece sistematicamente com o caso ucraniano. Não se trata de concordar nem muito menos de defender as posições do Razem, mas de compreender os argumentos dos camaradas e o cenário do qual são fruto para desenvolver uma análise mais totalizante dos problemas colocados no leste europeu.

É preciso lembrar também que há na Polônia uma esquerda radical extra-parlamentar, principalmente ao redor do movimento feminista e de sindicatos combativos, com posições à esquerda do Razem e que também apostam na ampla mobilização como forma de combater a direita extremamente forte do país. Desenvolveremos um texto posterior sobre a atuação destas organizações.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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