Uma vez mais, sobre a tática eleitoral de São Paulo

Uma vez mais, sobre a tática eleitoral de São Paulo

Sobre a tática eleitoral em São Paulo.

Estevan Campos 30 jun 2022, 14:03

Tornou-se lugar comum nos debates entre a esquerda afirmar que algo é “tático” como argumento de autoridade para uma linha “indigesta” diante da militância. A afirmação de que alguma orientação é “tática”, ainda que seja correta, acaba sendo utilizada para justificar certas linhas, buscando banalizar o teor da tática. Sendo importante para não tratar de forma “sagrada”, linhas políticas que precisam ser medidas e aplicadas nas condições concretas, com análise concreta, portanto, política concreta. A ideia de que a determinada ação política é tática, não deve diminuir a importância da mesma ação.

Dito isso, queremos voltar aqui a uma tática central. Mesmo sendo “tática”, a definição da orientação eleitoral do PSOL paulista, tem um lugar central, sobretudo pelas condições que se colocaram na disputa nacional.

Há uma discussão fundamental sobre como compor a campanha Lula. Vencida a questão do debate eleitoral nacional na conferência do PSOL e com a hipótese da vitória de Lula no primeiro turno, a postulação de candidaturas próprias ao governo e ao senado se tornou decisiva para luta política. São eles os candidatos que são chamados para debater, agitar e representar o PSOL. Flexionar a própria disputa da campanha e do movimento ao redor da eleição de Lula é uma tarefa importante para preservar a identidade, o espaço e a militância do PSOL.Isso divide águas dentro do próprio PSOL. 

Para além da aparência, nos “dois campos” internos, há subdivisões. Parte do “PSOL de Todas as Lutas” (PTL – atual maioria da direção nacional e estadual), o PSOL Popular (Revolução Solidária e Primavera), defende uma linha de adesão completamente acrítica à campanha de Lula, o desdobramento prático em SP é que este setor do PTL defende a adesão à candidatura de Haddad independente de “condições”, sejam de ordem programática, seja quanto ao arco de alianças. Já o campo “Semente” (Resistência, Insurgência e Subverta), que também compõe o PTL, subordina o apoio a Haddad à algumas condições, a não presença do PSB de Alckmin na coligação e que a vaga do PSOL seja para o Senado, já que afirmam ser contra a participação do PSOL em um governo liderado pelo PT.

Mas o debate é mais profundo que isso. A tática eleitoral em SP, como dito, tem que ser definida nos marcos da situação geral, da relação com a campanha de Lula que se deseja estabelecer. Obedece e se subordina também aos projetos estratégicos das organizações. Para aquelas organizações que defendem um projeto reformista, a postura adesista e o apoio a Haddad é o desdobramento óbvio; para os que, como o PSOL Semente, defendem um projeto para a revolução brasileira, que pretendem ser parte da campanha de Lula, mas sem aderir às ilusões de reanimação da Nova República, o caminho haveria de ser outro. Pois se defendemos o projeto da revolução, nosso papel é disputar a direção do movimento de massas, disputar com e contra a atual direção do movimento, ainda que sendo parte da campanha de Lula para presidente.

Em sua última coluna no portal, Esquerda Online, da Resistência (maior organização do bloco Semente em SP), Valério Arcary escreveu sobre o papel do PSOL nessa campanha eleitoral, segundo Arcary, o papel do PSOL é:

“Tensionar pela esquerda defendendo uma campanha de combate ao golpismo. Tensionar por um programa de esquerda. Tensionar contra a ilusão de que alianças com setores dissidentes da classe dominante abrem o caminho da vitória. Isso significa que o PSOL deve construir a campanha Lula, marchar ao lado do PT, mas levantando suas próprias bandeiras. […] É uma luta contra a falsa consciência ou ilusões das grandes massas, indivisível da disputa com aqueles que se apoiam nessas ilusões”.

Aderir acriticamente à campanha de Lula e apoiarHaddad, independente de “condições”, é abrir mão exatamente de fazer a “disputa com aqueles que se apoiam nessas ilusões”. A política é concreta, não bastam elaborações abstratas sobre as dificuldades para os socialistas em situações defensivas como a que vivemos, se não houver ações práticas para colocar em marcha aquilo que se defende em textos.

Como dito, a postulação de candidaturas majoritárias nos estados será fundamental nesse sentido, pois não há como comparar a audiência dos debates televisionados com a de nossos portais eletrônicos. Não basta afirmarmos em nossos sites o quanto a campanha deveria ser “a quente” para derrotar o bolsonarismo, o quanto precisamos de um programa radical para mudar substancialmente a vida do povo, que não é se aliando aos setores burgueses arrependidos pela eleição de Bolsonaro que mudaremos o País. Tudo isso é verdade. Mas a “nossa verdade” precisa ser dita ao povo, disputar a consciência de milhares, de milhões. Inclusive para disputar os rumos e a condução da campanha de Lula para derrotar Bolsonaro ainda no primeiro turno. A política é concreta. Se não damos consequências concretas ao que dizemos, só jogamos palavras ao vento.

***

Em São Paulo, as definições começam a ser feitas. França finalmente aceitou compor a chapa com Haddad.Depois de meses de negociações entre Lula e o PSB, França indicou que deve retirar sua candidatura ao governo para assumir a vaga de candidato ao Senado pela chapa encabeçada pelo petista. Ainda há a possibilidade de ampliação do arco de alianças, tanto França quanto o PT buscam partidos como Solidariedade e PSD, de Gilberto Kassab, apoios disputados também pelo PSDB de Rodrigo Garcia. Da parte do PT, já foi garantida ao PSB a prerrogativa de escolha de sua vaga na chapa. Sobre o papel que o PT “reserva” ao PSOL na eleição estadual, vale lembrar que recentemente o presidente estadual do PT deu declarações contra a presença do PSOL na chapa majoritária de Haddad, deixando evidente que a prioridade do PT para a eleição estadual é seguir a fórmula nacional de ampliação da coligação em direção à direita. No que depender do PT, o PSOL sequer teria lugar na chapa majoritária.

Mas esses são os interesses do PT, correspondem ao seu projeto. A nossa preocupação deve ser com o que o PSOL fará diante das movimentações descritas acima. Já se passaram três meses da desistência de Boulos de sua candidatura ao governo. Três meses em que o PSOL ficouem compasso de espera. Três valiosos meses em que o PSOL não avançou na definição da sua política para a eleição estadual.

Além disso, o PSOL paulista não construiu nenhum ambiente democrático para deliberar sua posição. Passando por cima das instâncias partidárias, o presidente Rillo foi a público já dar como fato consumado a composição, afirmando que a posição do PSOL é de pleitear a candidatura a vice na chapa de Haddad. Apenas um debate completamente protocolar foi realizado. 

Por outro lado, nós do MES, havíamos apresentado o nome de Mariana Conti como pré-candidata, retiramos a pré-candidatura, a partir da avaliação de que o nosso nome não conseguiu conformar a maioria partidária para a aprovação da candidatura própria. Apresentamos o nome e rodamos dezenas de cidades do estado, propondo o debate junto à base partidária, para que a decisão fosse fruto do mais amplo debate interno. E abrimos mão para dar um gesto de unidade, para garantir um nome do campo Semente, que tenha condições de unificar o Partido.

Uma vez mais, o tempo urge. A submissão da atual direção do PSOL às movimentações do PT diminui o Partido. A militância do PSOL precisa ampliar o debate e se pronunciar sobre para ter sua candidatura. Essa espera indeterminada do PSOL serve a quem defende o apoio a Haddad, pois cada semana que passa fica mais difícil a construção de uma candidatura própria. Se é verdade que esse atraso serve aos interesses do “PSOL Popular”, de Boulos e Juliano, também é verdade que, mais do que nunca, a responsabilidade por esse atraso na definição do PSOL recai sobre o campo “Semente”, pois se este campo definir sua posição pela candidatura própria, inclusive com a prerrogativa de indicar o nome, essa será a definição do PSOL. Nós que apresentamos a pré-candidatura da Mariana estamos prontos para essa batalha. Com a palavra, o campo Semente.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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