Escutem Shahed
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Escutem Shahed

A jovem palestina-brasileira tornou-se mais um símbolo internacional da resistência de seu povo

Israel Dutra 16 nov 2023, 20:02

Foi emocionante a chegada dos 32 repatriados de Gaza. A fala da jovem Shahed al-Banna, palestina-brasileira, foi uma das mais profundas. Afirmou às câmeras que não “quase não existe mais Gaza, quase não existe mais futuro naquele país, que, antes da guerra era muito bonito, parecia a Europa”. Depois de mais de um mês de tensões diplomáticas, com os brasileiros submetidos às condições desumanas, se encerra um dos capítulos brasileiros da agressão sionista à Gaza. Era um dos argumentos utilizados pela diplomacia brasileira para evitar uma condenação mais dura ao Estado de Israel.

De sua parte, Lula adotou um discurso mais enfático, evoluindo positivamente, na esteira da mudança geral da opinião pública mundial, para quem a defesa das ações de Israel está ficando inviável. Lula chamou de terroristas as atividades do exército israelense contra Gaza. No terreno da ação prática, a diplomacia segue no mesmo compasso: evita a ruptura de relações com Israel, mesmo diante de provocações com a reunião do embaixador com Bolsonaro, e as fraudes investigativas buscando “terroristas” do Hezbollah em solo brasileiro.

Contudo, a dinâmica segue de genocídio, com avanços militares em Gaza (próximos à barbárie, registre-se, como na invasão do hospital Al-Shifa) e de isolamento político internacional. São momentos decisivos; um dos documentos da inteligência israelense afirmava que a opinião pública dos Estados Unidos teria entre “duas e três semanas” para esgotar sua capacidade de resistir aos apelos pelo cessar-fogo, que ecoam no mundo. Isso daria às Forças de Defesa de Israel (IDF) um calendário exíguo para a conquista de todos os alvos em Gaza.

Na discussão no âmbito de uma ONU cada vez mais desacreditada – com a rejeição do cessar-fogo, com os Estados Unidos apelando ao veto no Conselho de Segurança -, se aprovou uma resolução que insta à “pausas prolongadas” para a passagem de combustível, suprimentos e água. O risco de desabastecimento de Gaza é real. É uma tentativa desesperada da ONU de responder aos apelos, que vão desde o Alto Comissariado da Nações Unidas para Refugiados aos Médicos Sem Fronteiras.

A matança no hospital de Al-Shifa foi um passo à mais no horror da presente agressão à Gaza. As multitudinárias manifestações na Inglaterra – com cerca de 500 mil pessoas – criaram uma fissura no governo Sunak e na oposição consentida do partido trabalhista. Com menor volume, também assistimos a marchas em prol da Palestina por todos os continentes, ampliando a crise interna dos governos e regimes que sustentam Israel.

Hoje, para seguir mantendo a legitimidade da escalada da morte, Netanyahu conta com o establishment político dos Estados Unidos e Inglaterra e, a partir daí, alguns sócios menores. Há um crescente descontentamento e certas fissuras nessa “frente”, onde combinam o repúdio ao massacre com crises políticas internas, onde a Inglaterra é o maior exemplo.

A proposta de cessar-fogo foi derrotada no parlamento inglês, ao custo de um amplo repúdio popular e de uma rebelião na base dos trabalhistas. Depois da marcha de sábado, caiu parte do gabinete conservador de Sunak; cerca de 56 deputados trabalhistas votaram a favor do cessar-fogo proposto pelo Partido Nacional Escocês, tendo como resultado 293 a 125 pela rejeição. A rebelião trabalhista lembra 2003, quando uma parte do “labor” votou contra a linha de Blair de sustentar a invasão do Iraque. Enquete de ontem indicou que 76% dos britânicos estão a favor da pausa nos ataques.

Nos Estados Unidos, em escala bastante menor, há um questionamento crescente à linha de Biden e Blinken: 500 funcionários da diplomacia assinaram uma carta criticando ferozmente a orientação do presidente estadunidense; 24 deputados protestaram no parlamento contra a agressão à Gaza, incluindo Ocasio-Cortez, que tinha evitado condenar Israel, no princípio da agressão; são diários os protestos nas universidades e em frente à Casa Branca.

Mais e mais líderes mundiais apelam ao cessar-fogo, após a escandalosa ação contra civis, doentes e crianças no Hospital Al-Shifa.

É neste quadro atual que a diplomacia brasileira deve medir suas atitudes. A ruptura de relações, ou até mesmo a convocação do embaixador brasileiro, teria um impacto importante, quando o tempo se esgota e o genocídio avança. Um gesto brasileiro teria impacto sobre o conjunto dos países latino-americanos, tensionaria China e Rússia, além dos países do mundo árabe; uma reunião a favor de um cessar-fogo, tomando medidas efetivas, seria capaz de canalizar a dissidência na frente anglo-estadunidense e colocar um freio emergencial e humanitário às ações de Netanyahu.

O dia 29 de novembro será uma data internacional de grandes atos, sobretudo no Brasil, com capitais já organizando atividades, como Porto Alegre e São Paulo. Figuras de renome internacional como Roger Waters, Greta Thumberg, entre outros, fazem a campanha pelo cessar-fogo ter um alcance ainda maior.

É hora de a diplomacia brasileira tomar uma atitude mais frontal. É responsabilidade de Lula passar das palavras aos atos. Escutem a jovem Shahed. Uma chance ao futuro: parar a ofensiva sionista e a barbárie.


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