Hungria: a esquerda radical contra o amigo de Bolsonaro
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Hungria: a esquerda radical contra o amigo de Bolsonaro

Uma entrevista com Aram Shakkour, dirigente do partido húngaro Szikra, sobre a resistência ao governo de extrema direita no país

Aram Shakkour e Bruno Magalhães 4 abr 2024, 07:31

Foto: Szikra Mozgalom (Manifestação contra os altos aluguéis em Budapeste)

As recentes revelações sobre o refúgio de Bolsonaro na embaixada da Hungria colocaram esse país em evidência no Brasil pelas relações de seu primeiro-ministro, Viktor Orbán, com partidos e figuras reacionárias em todo o mundo. Orbán está no poder desde 2010 e seu partido Fidesz (União Cívica Húngara) controla hoje 54% do parlamento, possibilitando inúmeras manobras legais para permitir sua permanência no poder. Ao mesmo tempo, incrementa cada vez mais seus ataques contra os direitos trabalhistas e à organização dos trabalhadores, além de perseguir o movimento feminista e LGBTQ+, além promover o racismo institucional contra a comunidade cigana e os imigrantes.

Nesse cenário, entrevistamos Aram Shakkour, dirigente nacional do Movimento Szikra (Faísca), uma das principais organizações da esquerda radical húngara. Presente em lutas da juventude, do movimento de moradia e na defesa de pautas democráticas, o Szikra elegeu seu primeiro parlamentar nas últimas eleições legislativas. O partido também compõe a Aliança da Esquerda Verde da Europa Central e Oriental, coalizão de organizações fundada ao redor da solidariedade à Ucrânia e da crítica às posições da esquerda burocrática na região. (BM)


Bruno Magalhães: No Brasil, foi revelado que, há algumas semanas, o ex-presidente Bolsonaro buscou abrigo por dois dias na embaixada da Hungria, país presidido por seu aliado Viktor Orbán, para escapar de uma possível prisão. Ele está sendo investigado por diversos crimes, como corrupção, negligência total na pandemia e tentativa de golpe de Estado para se manter no poder mesmo após sua derrota para Lula. Quem é Orbán? Como é o governo de extrema direita do país?

Aram Shakkour: Eu descreveria Viktor Orbán como um neoliberal autoritário. Ele fazia parte da oposição democrática em 1989 e está ativo na política húngara desde o início. Ele começou como liberal e se autodenominou conservador quando o maior partido conservador entrou em colapso nos anos 90. O atual governo de Orbán é o quinto, e ele está no poder desde 2010, com uma supermaioria que lhe permite alterar a constituição ou as leis eleitorais sempre que desejar. A política de Orbán é semelhante à de outros populistas de direita, ele usa minorias e imigrantes como bodes expiatórios para distrair o público dos problemas causados por suas políticas, seu subfinanciamento dos serviços públicos etc.

Quais são as forças sociais de suporte ao governo?

Não sou cientista social, mas a melhor descrição social do governo, em minha opinião, é o Estado Acumulativo de Gabor Scheiring.1 Em resumo, a terapia de choque [neoliberal] e a desindustrialização causaram muitas baixas aqui na Hungria (como na maioria dos lugares do Leste Europeu) e Orbán conseguiu aproveitar essa insatisfação, especialmente depois que a aliança entre liberais e a esquerda governou de forma desastrosa entre 2006 e 2010. Orbán transformou o país em um paraíso fiscal para as empresas multinacionais e também mantém a mão de obra barata ao reduzir as leis sindicais e os direitos dos trabalhadores, tanto para as multinacionais quanto para sua própria classe capitalista dominante húngara, para que possam acumular mais riqueza. Seu sistema de imposto fixo e os impostos de valor agregado mais altos da Europa fazem com que as pessoas mais pobres paguem os impostos mais altos. E ele usa o nacionalismo como um contrapeso para as forças sociais que tentam se opor às suas políticas.

E a oposição? Como é composta?

A oposição é semelhante a qualquer outra oposição dividida em um sistema criado para dois partidos dominantes. O exemplo mais semelhante poderia ser a Turquia ou a Sérvia, mas também há semelhanças com a Polônia. Ela é formada principalmente por atores liberais-neoliberais, embora alguns deles estejam tentando seguir uma direção mais social-democrata.

O partido opositor dominante no momento é a Coalizão Democrática (DK), liderado por um dos políticos húngaros mais odiados, Ferenc Gyurcsány. Há também o Momentum, que é um partido centrista “alde-macronista”2, e inúmeros micropartidos, da esquerda verde à direita tradicional. A extrema direita3 também cresceu na última eleição, com quase 6%, e o partido de brincadeira chamado Partido do Cão de Dois Rabos também tem muitos votos de protesto, cerca de 5% ou mais. Eles tentaram concorrer separadamente (2018) e em listas amplas (2022), mas ambos fracassaram.

O regime húngaro é hoje um dos menos democráticos da União Europeia. Qual é a situação institucional da Hungria atualmente?

A maior parte da vida cívica e da mídia é dominada pelo Fidesz. Há uma imprensa livre, mas ela é limitada e está sob constante ataque político e financeiro do Fidesz. O sistema de votação é o majoritário uninominal, o que torna as coalizões contra o Fidesz uma necessidade, mas também muitas vezes absurdas ou impossíveis. O Fidesz também pode alterar a Constituição sempre que quiser, desde mudar as regras de votação até reprimir quaisquer direitos que desejar. As instituições públicas mal funcionam, são subfinanciadas e as pessoas são empurradas para instituições privadas o tempo todo, por exemplo, no setor de saúde.

E quais são as perspectivas para a esquerda radical?

Nosso movimento, Szikra, tenta crescer de várias maneiras, por exemplo. András Jámbor4, nosso deputado, tem muitos programas em seu distrito eleitoral apoiando pessoas na luta contra agências de cobrança de dívidas e também na renovação de contratos de energia. Teremos alguns candidatos nas eleições para o governo local em junho (eu mesmo serei candidato no 7º distrito de Budapeste). Acho que o sucesso da esquerda radical aqui está na criação de instituições paralelas, como faz Jámbor, ou na penetração em governos locais e na demonstração do que o Estado “deveria fazer” para seus cidadãos. Nessa região, o Mozemov5 e KPO6 são bons exemplos disso, especialmente o último.

Orbán e Bolsonaro fazem parte de uma rede internacional de extrema direita com Trump, Milei e outros. Como você vê esse fenômeno global e quais são as maneiras de enfrentá-lo?

Na minha opinião, eles têm uma “internacional” de extrema direita construída com as mesmas ameaças falsas e argumentos inventados. Se eu soubesse com certeza como lidar com isso, eu seria o primeiro-ministro agora mesmo (risos). Mas acho que estamos em uma situação semelhante à do início do século XX, pelo menos no que diz respeito às perspectivas da esquerda. A esquerda poderia enfrentar o populismo de direita se encontrasse uma maneira de falar sobre os problemas reais das pessoas, sobre como lidar com a insatisfação gerada pelo neoliberalismo e com os problemas reais da vida.

Além disso, em minha opinião, embora eu adore populistas de esquerda como [Bernie] Sanders, a lição que se deve tirar de seus movimentos é que a esquerda precisa de pelo menos uma década de construção consistente para poder desafiar o populismo de direita, e não apenas de ondas momentâneas. A vitória recente do CHP na Turquia pode ser um bom exemplo, assim como a vitória de Lula no Brasil.

Nos últimos dias recebemos notícias sobre grandes protestos relacionados à corrupção no governo Orbán, liderados por um dissidente chamado Peter Magyar. Como isso pode afetar o governo?

Peter Magyar é o ex-marido de nossa ex-ministra da Justiça, Judit Varga. Os últimos dois meses foram turbulentos na Hungria: com a ajuda do presidente Novak Katalin e de Judit Varga, um comparsa de pedófilo que trabalhava em um orfanato recebeu o perdão judicial no ano passado. Esse fato foi mantido em segredo, mas, devido a um erro, vazou para a imprensa. Tanto Novak quanto Varga tiveram de renunciar por causa da repercussão.

Então veio Peter Magyar, o ex-marido de Varga, e deu uma entrevista famosa no jornal Partizan. Ele fazia parte do NER7 desde o início deste ano e disse que está insatisfeito com a corrupção e o desperdício de dinheiro público, e também que sua ex-esposa foi “martirizada” para que Orbán pudesse sobreviver ao escândalo de pedofilia. É uma situação incomum porque ninguém é tão público sobre suas opiniões no círculo de Orbán. Ele disse que a maioria dos “problemas” se deve à propaganda e ao ministro da propaganda Antal Rogan (que é o braço direito de Orbán).

Ele também divulgou uma fita na semana passada, na qual sua ex-mulher admite que Rogan manipulou documentos em outro caso, o caso Völner-Schadl, em que agências de cobrança e despejos conseguiram ganhar dinheiro com pessoas endividadas ilegalmente, fazendo despejos falsos, com leis injustas etc. É um caso contra o qual nosso movimento, Szikra, também lutou muito

Não é incomum na Hungria ter uma figura messiânica de direita na oposição; isso aconteceu recentemente, em 2021, quando as primárias da oposição foram vencidas por um ex-orbanista, Marki-Zay Peter (que depois foi massacrado por Orbán na eleição). Peter conseguiu aproveitar a onda de insatisfação nos últimos dois meses, e estava em uma boa posição para fazer isso, pois tinha informações sujas sobre o sistema e, em geral, também era um bom orador.

É impossível dizer como isso vai se desenrolar, pode ser um surto momentâneo (como o MZP, ou o Momentum, ou Gabor Vona, ou Gordon Bajnai foram nos últimos 14 anos, todos tipos de messias neoliberais de direita, algo semelhante a Macron), ou pode ser algo maior, porque parece que sua equipe conseguiu aprender com o fracasso de figuras semelhantes. Teremos que observar. Da forma que observamos internamente no Szikra, Peter Magyar poderia ser bom para enfraquecer o poder absoluto de Orbán, mas ele tem uma agenda neoliberal (como a privatização do sistema de saúde) e nós não apoiamos isso.

Camarada, muito obrigado pelas respostas, seguimos em contato.

Saudações, espero que essas respostas tenham sido satisfatórias.


Notas

  1. Scheiring é um acadêmico e ex-deputado húngaro (2010-2014) eleito pelos Verdes. Seu livro sobre o período Orbán, The Retreat of Liberal Democracy: Authoritarian Capitalism and the Accumulative State in Hungary, foi publicado em 2020. ↩︎
  2. A Renew Europe, antiga ALDE (Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa), é um grupo parlamentar da direita liberal europeia integrado pelo presidente francês Emmanuel Macron. ↩︎
  3. O Movimento Nossa Pátria [MHM] recebeu a terceira maior votação do país nas eleições legislativas de 2022. ↩︎
  4. Jámbor foi eleito ao parlamento federal em 2022. É jornalista e fundador da revista Mérce. ↩︎
  5. Movimento croata Nós Podemos, primeiro colocado na capital Zagreb nas últimas eleições locais do país. ↩︎
  6. Partido Comunista da Áustria. ↩︎
  7. Sistema de Cooperação Nacional, uma rede de instituições políticas e culturais e corporações privadas estreitamente alinhadas com o primeiro-ministro Orbán e o Fidesz. ↩︎

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