Movimento Estudantil a favor da Ditadura Militar
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Movimento Estudantil a favor da Ditadura Militar

Uma breve história do Comando de Caça aos Comunistas (CCC)

Ruan Debian 1 abr 2024, 10:40

Foto: 1992 ACCUSOFT INC

Os gélidos ventos ditatoriais ainda insistem em soprar no tempo presente! Essa sufocante corrente de ar ainda não se dispersou, exemplo mais recente fora o veto do presidente Lula que proibiu qualquer manifestação pública do Governo contra o golpe de 1964.

Tal ação é vista por nós como completamente equivocada, pois necessitamos falar, escrever e, infelizmente, rememorar aqueles trágicos 21 anos que devastaram este país em todas as áreas possíveis. Estamos convencidos de que o Brasil seria uma potência se não fosse o hiato de mais de duas décadas em sua história, provocada pelos militares.

Nesse sentido, possuímos vários caminhos nos estudos sobre a Ditadura Militar pelos quais poderíamos enveredar, e dentre tantas estradas, escolhemos uma não tão abordada: os movimentos estudantis de extrema-direita que tanto apoiaram o golpe quanto arduamente lutaram para consolidá-lo.

As historiadoras Lilia Schwarcz e Heloise Starling, abordando sobre a Ditadura escreveram que “Nunca foi tão perigoso ser estudante no Brasil” (2015, p.461). Gostaríamos apenas de fazer um curtíssimo acréscimo: nunca foi tão perigoso ser estudante, à esquerda, acerca do espectro político. Afirmamos isso, pois inúmeras organizações estudantis não tiveram problemas com os órgãos repressores, como o Grupo de Ação Patriótica (GAP); Vanguarda Universitária Católica (UNC); Movimento de Arregimentação dos Estudantes Democráticos (Maed); Frente da Juventude Democrática (FJD), entre outras (Braghini; Cameski, 2015).

Mas vale atenção à uma organização específica, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC): o CCC surgiu em 1963, quando estudantes do Mackenzie e da Faculdade de Direito da USP resolveram criar um grupo que tivesse como premissa combater o “tenebroso” comunismo que assombrava as universidades. Pertencentes a elite paulistana, pelo menos três se reivindicam como seus fundadores, que são estes: João Marcos Flaquer, Cássio Scatena, Raul Nogueira Lima – conhecido como Raul Careca (Lopes, 2014; Lima, 2021).

É importante destacar que entre os anos de 1963 à 1968 os crimes efetuados pelo grupo são de responsabilidades estritamente estudantis. Após esse período, outros grupos paramilitares, que se autodeclaravam também como Comando de Caça aos Comunistas, realizaram barbaridades cujo vínculo nenhum, pelo menos é o que indica a literatura disponível, com o movimento estudantil.

A título de exemplo, tem o sequestro, seguido de tortura e assassinato, do padre Antônio Henrique em maio de 1969, na cidade de Recife (Schwarcz e Starling, 2015). Pode-se mencionar os cartões de Natal que continham ameaças de morte enviadas para inúmeras pessoas ao redor do Brasil, em 1979. Ou, ainda, em 1978, quando do sequestro da jornalista e professora Juracilda Veiga e também, em 1981, momento em que o CCC apoiou o grupo Delta em seu frustrado atentado realizado no Rio Centro, que deixou dois militares gravemente feridos, um deles vindo a óbito (Lima, 2021). Recentemente, aproximadamente há dois anos, algumas figuras públicas da esquerda foram ameaçadas de morte, e não se sabe se partiu de um grupo ou de um único indivíduo do CCC.

Entretanto, isso não implica que os casos que envolveram os discentes extremados à direita fossem menos bárbaros. Literalmente, os estudantes do CCC realmente saíram para caçar os ditos comunistas… Apenas um dia após o golpe, no dia 1° de abril, em conjunto com o Movimento Anticomunista (MAC), o CCC realizou seu primeiro ato terrorista. O alvo foi a sede da União Nacional dos Estudantes, localizada no Rio de Janeiro, que foi invadida, saqueada e, por fim, ficara completamente em chamas recorrente ao criminoso incêndio (Brasil: Nunca Mais, 1985). No relato para Gustavo Esteve Lopes, Percival Menon Maricato comentou:

Agrediam covardemente desde os calouros (um deles foi vítima de atentado a tiros no interior da faculdade, livrando-se graças à capacidade de correr muito, passando por veteranos). Lembro de tiros dados nos pneus de um colega; ou a queima, por cigarros, dos braços de outros, sequestrado na rua Riachuelo e posto no interior de uma Kombi; até professores, como o 51 admirado Rocha Barros, um dos único de esquerda, foi covardemente agredido, apesar de ter mais de setenta anos. Mesmo estudantes de direita moderada eram agredidos na faculdade (LOPES, 2014, p.150).

Mas perante tantas nefastas ações, duas ganharam certa notoriedade e acabaram tornando-se as mais conhecidas desses discentes: o ataque a peça teatral “Roda-Viva” e a famosa batalha da Maria Antônia. Ambos ocorridos em 1968. João Marcos Flaquer, mencionado acima como um dos fundadores do CCC, orquestrou todo o ataque a peça “Roda-Viva”. Conforme estudos de Gaspari (2000), a “garotada” anticomunista armada de pedaços de paus e socos-ingleses invadiram a peça, destruíram os camarins, espancaram os atores e as atrizes, deixando-os completamente nus no meio da rua. Segundo os registros, policiais que estavam na redondeza assistiam passivamente a toda mórbida situação.

Outra notícia fatídica inunda de sangue os jornais, e que tem um peso extremamente negativo para a esquerda estudantil. Nos dias 02 e 03 de outubro, ocorreu o que ficou conhecido como a Batalha da Maria Antônia. Na década de 1960, o prédio da Faculdade Filosofia Ciência e Letras, da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), era separado por uma rua da Universidade Mackenzie. Buscando angariar fundos para XXX congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), secundaristas estavam cobrando uma espécie de pedágio dos carros que ali passavam, prática muito comum até os dias atuais.

Extremamente incomodados, membros do CCC passaram a jogar ovos nos adolescentes e assim deram início ao confronto. Os estudantes da USP interviram, e o conflito se estendeu por dois dias. O resultado, como supracitado, foi lastimável: o prédio da FFCL-USP ficou completamente destruído e, o mais triste de tudo, mais uma vida foi ceifada, pois a batalha se encerrou quando o estudante José Guimarães veio a óbito, assassinado pela extrema-direita, com um tiro na cabeça.

Muito ainda poderia ser abordado sobre o assunto, como, por exemplo, acerca da cultura política anticomunista nacionalista extrema, que estruturou o campo ideológico da organização e justificava seus desprezíveis atentados. Mas não cabe mais aqui, pois este texto é apenas um resumo do trabalho “A Falácia dos Bons Mocinhos: uma análise do anticomunismo do Comando de Caça aos Comunistas e sua participação na consolidação do golpe de 1964”.

Por fim, nestas linhas finais, gostaríamos de convidar a todos/as estudantes, não somente, a refletirem o movimento estudantil no período ditatorial, para não cairmos na inocência de acharmos que todas as organizações eram contra a Ditadura e se mobilizaram para derrubá-la. Não! O mesmo se aplica na atualidade, fazendo-se fundamental, não criar ilusões quanto aos discentes: seja na juventude, seja no próprio movimento estudantil, porque eles não são naturalmente progressistas ou possuem um desejo ardente de mudanças, pois como se viu com o CCC e tantos exemplos atuais, podem perpetrar o que existe de pior dentro do capitalismo.

Assim, é fundamental lutarmos e gritarmos em alto e bom som: DITADURA NUNCA MAIS!

Referências

BRAGHINI, Katya Zuquim; CAMESKI, Andrezza Silva. “Estudantes democráticos”: a atuação do movimento estudantil de “direita” nos anos 1960. Educ. Soc., Campinas, v. 36, n. 133, 945-962, 2015.

GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

LIMA, Danielle Barreto. COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS (CCC): dos estudantes aos terroristas. Edições 70, 2021.

LOPES, Gustavo Esteves. Ensaios de terrorismo: história oral do comando de caça aos comunistas. Pontocom, Salvador, 2014.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em Guarda Contra o Perigo Vermelho: o anticomunismo no Brasil (1917-1964). Niterói: Eduff, 2020.


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