Facebook não errou: escolheu lucrar com o pior do mundo
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Facebook não errou: escolheu lucrar com o pior do mundo

Livro publicado por ex-executiva da Meta mostra como o império de Zuckerberg se alimenta do caos – e por que ainda estamos longe de enfrentar esse poder

Júlio Câmara 3 abr 2025, 09:36

“Mark Zuckerberg me disse que seu presidente favorito era Andrew Jackson. ‘Ele fazia as coisas acontecerem’, justificou. O genocídio contra povos indígenas não entrou na conta.”

Assim começa Careless People: A Cautionary Tale of Power, Greed, and Lost Idealism, livro em que Sarah Wynn-Williams relata sua experiência como executiva da Meta, ex-Facebook. O que poderia ser apenas mais um livro de bastidores do Vale do Silício revela uma contundente denúncia sobre o funcionamento de uma big tech. Não estamos falando de deslizes ou crises isoladas, mas de um modelo de poder que se organiza conscientemente para explorar, manipular e lucrar.

Ex-diplomata na ONU, a neozelandesa Wynn-Williams entrou na Meta em 2011, segundo ela, acreditando estar ajudando a construir um mundo mais conectado e justo. Saiu sete anos depois, demitida após denunciar assédio e com a convicção de que estava participando de um império da corrupção global. Em suas palavras, era como ver “um bando de adolescentes com superpoderes e dinheiro demais” brincando com a vida das pessoas.

O culto da família Facebook

Wynn-Williams revela que a cultura interna da Meta mistura clichês motivacionais com lealdade cega e abuso institucionalizado. Logo ao entrar na empresa, recebeu um “Livro Vermelho” com frases como “não somos só capitalismo, somos justiça social”. Mas a realidade que encontrou foi outra: jornadas exaustivas, misoginia e assédio.

Entre contrações, prestes a dar à luz seu primeiro filho, ela insistia em enviar relatórios para Sheryl Sandberg, então diretora de operações da empresa e braço direito de Zuckerberg. Sandberg era vista publicamente como uma defensora das mulheres no ambiente corporativo, graças ao livro “Faça Acontecer” (no original, Lean In), onde encorajava mulheres a se imporem no trabalho. Mas, segundo o relato de Wynn-Williams, sua prática era o oposto do discurso: tratava funcionárias com humilhações e avanços sexuais. A ordem no Facebook era clara: não parar, não pensar, não questionar. Como diz a autora: “autenticidade só era aceita se não atrapalhasse os resultados”.

Negócios com ditaduras e desinformação como estratégia

A obra traz detalhes sobre a cumplicidade da Meta com regimes autoritários. Na China, a empresa desenvolveu ferramentas de censura para se adaptar às exigências do Partido Comunista, ao mesmo tempo em que se recusava a compartilhar dados com governos democráticos.

Em Mianmar, onde para milhões de pessoas o Facebook era praticamente sinônimo de internet, a plataforma serviu como principal canal de disseminação de mentiras e incitação à violência contra a minoria muçulmana rohingya. Postagens falsas que acusavam os rohingyas de estupros e ataques foram amplamente impulsionadas, e o conteúdo de ódio viralizou sem moderação adequada. Um relatório da ONU apontou o papel “determinante” da rede social na escalada do conflito que levou ao massacre de milhares de pessoas e ao deslocamento forçado de mais de 700 mil. Em vez de promover conexão e informação, o Facebook pavimentou o caminho para o genocídio.

Nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, o Facebook foi peça-chave na vitória de Donald Trump — e lucrou com isso. A campanha republicana usou recursos como “públicos personalizados” e “audiências semelhantes” para espalhar anúncios segmentados com desinformação, especialmente contra Hillary Clinton. A própria equipe do Facebook se incorporou à campanha, oferecendo suporte técnico e ajudando a turbinar o alcance de conteúdos que, quanto mais polêmicos e mentirosos, mais engajavam. Sarah Wynn-Williams relata que, internamente, executivos da empresa se referiam ao pleito como “a eleição do Facebook”. Não havia ingenuidade: sabiam exatamente o que estavam fazendo.

O colonialismo digital
O livro também escancara como a Meta usa a retórica da inclusão para expandir seu poder global. O programa Free Basics, vendido como forma de “levar internet gratuita” a países pobres, na prática oferecia um acesso restrito e controlado: só era possível navegar em sites previamente aprovados pela empresa — com o Facebook como centro da experiência digital. Uma internet de segunda classe. A promessa de cidadania digital se transformava em vigilância, censura e propaganda algorítmica. Reguladores da Índia chegaram a proibir o programa por ferir a neutralidade da rede. Para Wynn-Williams, tratava-se de “entregar uma versão de porcaria da internet para dois terços do mundo”.


Alvo: nossos corpos e nossas mentes

Entre os trechos mais revoltantes estão os relatos sobre como o Facebook rastreava emoções de adolescentes para vender produtos de beleza. Ao identificar meninas que deletavam selfies ou demonstravam baixa autoestima, a plataforma as bombardeava com anúncios de chás “seca-barriga” ou cirurgias estéticas.

A hipocrisia era total. Enquanto Zuckerberg discursava sobre ética e responsabilidade em audiências no Congresso, sua equipe comemorava nos bastidores a chance de ampliar seu poder. Após os atentados ao Charlie Hebdo, na França, Sheryl Sandberg escreveu a líderes da empresa que “o debate sobre privacidade basicamente morreu” — governos estavam mais propensos a aceitar vigilância em troca de segurança. Para a Meta, mais medo significava mais engajamento. E mais engajamento significava mais lucro. O algoritmo virou arma política — a serviço da desinformação e do controle.


Um império em expansão
Sarah Wynn-Williams foi silenciada por uma decisão de emergência em um tribunal arbitral privado, movido pela própria Meta logo após o lançamento do livro. A empresa alegou que ela violou cláusulas de confidencialidade e conseguiu, fora da justiça comum, uma ordem que a proíbe de falar sobre o livro ou promovê-lo em entrevistas e eventos. Um mecanismo usado por corporações para abafar vozes dissidentes — sem julgamento público, sem debate democrático.

Mas o estrago já está feito. O Congresso dos EUA, o Parlamento britânico e a União Europeia querem ouvir o que ela tem a dizer. Ela pode ter demorado para perceber o que estava vivendo, mas teve coragem de contar. E nos lembra que o Facebook — ou a Meta, ou o que quer que seja — não está em crise. Ele está funcionando perfeitamente: lucrando com o medo, com a mentira e com a destruição da vida coletiva.

Não à toa, Mark Zuckerberg descortinou sua aproximação com Donald Trump nos últimos meses, doando para a posse, cortando programas de diversidade e desmontando regras de moderação. A estratégia é: aliar-se a forças autoritárias para manter impune o poder das big techs. Silenciar denunciações, evitar regulações e seguir acumulando bilhões. A Meta não teme a verdade — ela teme perder o controle.
Zuckerberg mudou o nome da empresa, mas não mudou sua essência. Como diz a autora: “quanto mais poder eles agarram, menos responsáveis se tornam”. O futuro, por enquanto, ainda está nas mãos desses bilionários com superpoderes. Ou a gente os enfrenta, ou eles continuarão destruindo tudo, e voltando para seus bilhões como se nada tivesse acontecido.


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