Glauber ganha tempo para resistir a golpe do Centrão
Glauber e Sâmia

Glauber ganha tempo para resistir a golpe do Centrão

Após encerrar greve de fome, deputado do PSOL consegue acordo que adia votação no plenário e abre espaço para tentar reverter decisão do Conselho de Ética

Tatiana Py Dutra 22 abr 2025, 12:09

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Após oito dias em greve de fome, o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) encerrou seu protesto na última quinta-feira (18), após a construção de um acordo político que lhe dá mais tempo para tentar preservar seu mandato – hoje ameaçado por uma decisão do Conselho de Ética da Câmara, considerada por aliados e juristas um ataque direto à liberdade de expressão parlamentar.

O entendimento foi articulado com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e prevê que o processo de cassação não seja levado ao plenário da Casa antes de 60 dias após a conclusão dos trabalhos da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde tramita atualmente. O prazo extra é decisivo: abre a possibilidade de substituição do relator, o que pode levar a uma revisão completa da recomendação de cassação feita pelo Conselho de Ética – algo visto como crucial por aliados de Glauber.

A informação foi confirmada por Sâmia Bomfim (PSOL-SP), deputada federal e companheira de Glauber.

“A Comissão de Constituição e Justiça tem a possibilidade de rejeitar o que foi votado no Conselho de Ética e retornar ao Conselho a possibilidade de um novo julgamento”, explicou.

Greve de fome: resistência e denúncia

A greve de fome de Glauber Braga não foi apenas uma forma extrema de protesto. Foi uma denúncia viva da escalada autoritária no Congresso, onde setores da extrema direita tentam usar o regimento para silenciar vozes críticas e populares. Em risco está um princípio fundamental da democracia: o direito do parlamentar de expressar opiniões políticas, por mais duras que sejam.

“O que se propõe com a possibilidade de cassação do Glauber seria absolutamente inédito e, portanto, um golpe contra a nossa democracia brasileira”, alertou Sâmia.

Durante o jejum, Glauber recebeu a solidariedade de parlamentares, movimentos sociais, juristas e artistas. A mobilização em torno de sua causa foi decisiva para a reabertura de diálogo com o presidente da Câmara.

“Foi graças a essa mobilização e a essa solidariedade que nós pudemos estabelecer um canal de diálogo junto ao presidente Hugo Motta”, afirmou Sâmia.

Ministros do governo Lula, que vinham monitorando com preocupação a situação de Glauber, também agradeceram a Motta pela intermediação. O alívio momentâneo, no entanto, não encerra a perseguição política que o deputado enfrenta.

Extrema direita mira Glauber: sintoma de algo maior

O desejo de setores bolsonaristas e ultraconservadores de ver Glauber Braga fora do Congresso não é casual. O deputado é um dos mais combativos críticos da militarização do Estado, das privatizações e do fundamentalismo religioso. Sua cassação representaria uma vitória simbólica para a extrema direita, que desde o golpe de 2016 tenta reconfigurar o Parlamento segundo seus valores autoritários, misóginos e elitistas.

A tentativa de cassação também serve de aviso: a qualquer parlamentar que ouse se insurgir contra as forças dominantes, o destino pode ser a exclusão sumária – mesmo sem crime, mesmo com mandato legítimo.

“Nunca nenhum parlamentar foi cassado por comportamento ou por opinião”, reforçou Sâmia.

Esperança e fôlego renovados

Agora, com a saúde preservada e um novo horizonte político à vista, a estratégia do PSOL será dialogar amplamente com parlamentares e a sociedade civil para reverter a decisão do Conselho e defender o mandato.

“Eu tenho a certeza, a convicção, que a partir desse tempo que a gente ganhou com a saúde e a vida do Glauber preservados, nós vamos ter condição de ter uma vitória política retumbante de preservação do mandato”, concluiu Sâmia.

A disputa em torno do caso Glauber Braga é mais do que uma batalha jurídica: é um embate entre dois projetos de país. De um lado, a democracia popular e plural; do outro, a sanha punitivista da extrema direita, que quer transformar o Parlamento em espaço de silêncio e submissão.

Arthur Lira: perseguição política com nome e sobrenome

A cassação de Glauber Braga tem um rosto, um nome e um objetivo: o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Foi durante sua gestão que o processo contra o deputado do PSOL ganhou fôlego e tramitação acelerada no Conselho de Ética. Lira agiu diretamente para empurrar adiante a cassação como forma de represália pessoal e política, após sucessivos embates públicos com Glauber — um dos poucos parlamentares a enfrentá-lo frontalmente no plenário.

Glauber foi uma das poucas vozes no Congresso a denunciar abertamente o uso irregular de recursos públicos por Arthur Lira durante sua gestão como presidente da Câmara. Entre os episódios mais emblemáticos está a crítica à destinação bilionária de verbas do orçamento secreto – um esquema que operava à margem da transparência, distribuindo recursos discricionários a parlamentares aliados, sem critérios técnicos e com fins puramente políticos.

Além disso, o parlamentar do PSOL acusou Lira de utilizar verbas da Câmara para bancar viagens e estruturas de campanha disfarçadas de agendas oficiais, levantando suspeitas de desvio de finalidade e abuso de poder. Também fez questionamentos públicos sobre repasses a redutos eleitorais de aliados e a contratos firmados sem licitação, o que motivou pedidos de investigação e uma ofensiva moral e política por parte da base governista anterior.

Essa postura confrontadora, sustentada por documentos e pronunciamentos em plenário, fez de Glauber um alvo prioritário – não apenas para Lira, mas para todo o bloco que orbitava sua presidência: partidos do Centrão, segmentos bolsonaristas e lideranças do agronegócio e da pauta ultraconservadora. A resposta veio sob a forma de processo disciplinar, impulsionado como retaliação camuflada de sanção ética.

Na prática, o que se move contra Glauber não é uma apuração de conduta, mas um esforço articulado para eliminar um opositor que ousou tocar nas feridas mais sensíveis da política brasileira: o orçamento como moeda de troca e o uso do poder legislativo como instrumento de blindagem e vingança.


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