O Breque dos Apps e a contexto político nacional
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O Breque dos Apps e a contexto político nacional

A mobilização dos entregadores, a luta contra a anistia aos golpistas e outros movimentos marcam o cenário nacional

Israel Dutra 2 abr 2025, 10:54

Foto: Mobilização de entregadores em São Paulo. (Redes sociais/Reprodução)

Uma potente mobilização da classe trabalhadora se destacou no começo da semana. Convocado por diversas associações e entidades nacionais de entregadores, o chamado “Breque dos Apps” paralisou parte das atividades dos aplicativos, contabilizando cerca de 59 cidades no Brasil. O protesto durou dois dias, 31 de março e 1 de abril. Além da paralisação das entregas, houve manifestações, com motociatas e atos nas grandes cidades.

A mais importante foi a que se concentrou em São Paulo, juntando cerca de 3 mil trabalhadores e indo em direção à sede da IFood em Osasco. Foi a maior manifestação da categoria desde o grande breque de 2020, no auge da pandemia.

Além de apoiar o movimento de protesto, é fundamental entender qual o sentido dessa luta no contexto mais amplo da conjuntura nacional.

Por um lado, uma parte dos comentaristas da mídia afirma que a “pauta da anistia não mobiliza”, usando como ilustração as recentes manifestações de Bolsonaro em Copacabana e a do dia 30 em São Paulo contra a Anistia; por outro, uma parte da própria esquerda afirma que “não há força para colocar gente nas ruas”, tendo uma postura contemplativa e acrítica do governo federal, jogando apenas para a superestrutura o enfrentamento contra a extrema direita.

Olhando de forma mais detida os movimentos mais profundos da sociedade, como a mobilização dos entregadores (mas não apenas), podemos ter uma visão mais completa para responder às tais questões.

O exemplo que arrasta

São muitos os motivos que levam os entregadores a lutarem. Um dos setores mais importantes e precarizados, fundamental para o setor chamado “capitalismo de plataformas”, que combina formas mais brutas de exploração com o avanço digital na dinâmica e no controle do trabalho, os trabalhadores de aplicativo vem se organizando mundialmente.

A pauta do Breque dos Apps é o aumento da taxa mínima de 6,50 para 10 reais, além de medidas de proteção e saúde para o conjunto da categoria. O índice de acidentes é altíssimo e muitas vezes os entregadores ficam mais de 12 horas em trabalho, para receber uma remuneração baixa.

Apesar do boicote dos setores majoritários da mídia, a manifestação foi um grande sucesso. Segundo dados do UOL, as taxas de pedidas de alguns restaurantes na região central de SP caíram entre 80% e 100% apenas na segunda-feira, dia 31.

O impacto que a manifestação dos entregadores tem é enorme. A simpatia de toda uma camada precarizada de trabalhadores, muitos referenciados nas lutas do VAT (Vida Além do Trabalho) e na campanha contra a escala 6×1, fortalece um sentido comum classista.

Lutas dispersas, mas necessárias

Existem lutas acontecendo em todo país sem que haja uma maior articulação ou coordenação.

Além do exemplo do Breque, tivemos em São Paulo mesmo diversas demonstrações: os ferroviários tiveram uma forte disputa com a direção do sindicato a respeito de realizar ou não uma greve contra as privatizações (as manobras da direção impediram que o movimento ocorresse); os professores municipais enfrentam as ameaças do prefeito Nunes com novas paralisações e assembleias; algumas escolas se mobilizam contra as condições insalubres diante do calor extremo e a categoria dos professores estaduais tem marcada um dia de lutas em defesa de suas reivindicações.

Os povos indígenas seguem mobilizados: após a vitória contra Barbalho no Pará, agora preparam uma nova edição do Acampamento Terra Livre, retomando em Brasília a defesa de suas agendas. O setor camponês protagonizou uma luta importante no estado de Mato Grosso do Sul paralisando as principais vias para lutar por suas reivindicações.

E outras tantas batalhas e mobilizações estão ocorrendo, muitas vezes em setores terceirizados, dada a precarização da vida e a alta no custo dos alimentos.

A própria mobilização contra a anistia, em que pese a dificuldade das direções tradicionais de convocarem e articularem atos com força e trabalho de base (vejamos novamente como será o 1 de maio), demonstra um enorme espaço na sociedade. As palestras, eventos, agitações, festivais musicais, apoio às demandas democráticas como a expressa na conquista de “Ainda Estou Aqui “no Oscar indicam que existe um espaço majoritário na sociedade para defender a prisão de Bolsonaro e dos golpistas, bem como a necessidade de enfrentar o tema da transição incompleta.

Uma esquerda que levanta as bandeiras

É preciso apoiar e responder às “pautas populares”, com toda força: defender o fim da escala 6×1, a valorização dos trabalhadores de aplicativo, o aumento do salário, a aprovação da isenção do imposto de renda (taxando as grandes fortunas) e medidas que diminuam o preço dos alimentos.

Isso deve ser integrado com as mobilizações para desmoralizar a extrema direita, exigindo a prisão de Bolsonaro e dos financiadores do 8 de janeiro. O exemplo da Argentina, onde mais de um milhão de pessoas voltou às ruas no dia da memória (24 de março) é alentador. A batalha política e parlamentar contra a anistia aos golpistas é parte da luta para não esquecer nem perdoar os crimes da ditadura.

O PSOL, que vai entrar em debate programático no próximo período, está diante de um desafio. Precisa se postular como expressão combativa das diferentes lutas e manter sua posição crítica em relação ao governo, para ser coerente com a defesa dessas bandeiras. O MES, nossa corrente, fundadora e parte ativa do PSOL, se coloca a disposição para essas batalhas, com nossas figuras e militantes, como fez a vereadora Luana Alves durante toda a mobilização do Breque.

Apenas com a classe e o povo todo em movimento vamos poder superar o impasse e a crise brutal do capitalismo global que nos empurra para a barbárie e miséria.


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Editorial
Israel Dutra | 02 abr 2025

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