De Monroe a Donroe, Groenlândia e Carney
O mundo capitalista supostamente harmonioso de cooperação global, liderado por um Estado hegemônico em aliança com outras «democracias» capitalistas que estabelecem as regras para os outros, chegou ao fim
Hoje (21 de janeiro), o presidente estadunidense Trump realiza seu discurso diante dos líderes políticos e econômicos do capitalismo mundial reunidos no Foro Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Surpreendentemente, o tema principal é a ilha ártica da Groenlândia.
Groenlândia? Como surgiu esse nome para uma zona que, em sua maior parte, está coberta por gelo? Ao que parece, foi uma estratégia de marketing dos exploradores vikings que chegaram há mais de mil anos. Chamá-la de “verde” foi uma tentativa de atrair imigrantes para ocupar a região. Ironicamente, a Groenlândia está ficando mais verde devido às mudanças climáticas. Uma pesquisa recente publicada em 2025 mostra que a camada de gelo da Groenlândia está derrentendo rapidamente, o que premite que a vegetação se extenda a zonas que antes estavam dominadas pela neve e pelo gelo. Nas últimas três décadas, se estima que 11 mil milhas quadradas de camada de gelo e dos glaciares tenham se derretido. Essa perda de gelo é ligeiramente superior a superfície do estado de Massachusetts e representa ao redor de 1,6% da cobertura total de gelo e glaciares da Groenlândia.
Geograficamente, Groenlândiaforma parte do continente norteamericano, mas pertence (ainda que de forma autônoma) a Dinamarca. Os dinamarqueses gostam de dizer Reino da Dinamarca, tal como os britância que falam Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte. A herança colonial da monarquia permanece. E sabemos o que o colonialismo pode significar para as populações indígenas da América do Norte.
A posse da ilha foi da Noruega no século XVIII, mas a Noruega era parte do império dinamarquês e não obteve independência até 1905. Dinamarca conservou a Groenlândia. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha nazi invadiu a Dinamarca, os groelandeses se inclinaram mais pelos Estados Unidos. Mas nunca foi um território estadunidense. Depois da guerra, a Dinamarca recuperou o controle da Groenlândiae, em 1953, converteu seu status oficial de colônia em condado de ultramar da Dinamarca. Não se consultou o povo da Groenlândiasobre esta tomada de controle. De fato, a constituição da Groenlândiadenonima o período compreendido entre 1953 e 1979 como uma fase de colonização oculta. Finalmente, Groenlândia obteve a autonomia em 1979 e, em 1985, as e os groelandeses decidiram abandonar a CEE, a qual haviam se unido como parte da Dinamarca em 1973.
A guerra fria desencadeou as demandas dos Estados Unidos de assumir o controle da Groenlândiacomo base para manter a União Soviética fora do Ártico. Estados Unidos ofereceu comprar a Groenlândia por 100 milhões de dólares. Dinamarca não aceitou vendê-la, mas assinou um tratado que permitia aos Estados Unidos ter uma base militar permanente na ilha, o que obrigou algumas famílias indígenas inuit a abandonar seus lugares para construção da base. Mais tarde, se descobriu que a Dinamarca também havia aceitado permitir a presença de armas nucleares estadunidenses na ilha, algumas das quais se contaminaram com resíduos radiativos em 1968. Uma das bombas segue desaparecida! Aí fica a política oficial livre de armas nucleares da Dinamarca.
O domínio colonial da Dinamarca teve outras consequências. Nas décadas de 1960 e 1970, médicos dinamarqueses implataram dispositivos anticontraceptvos intrauterinos no útero de milhares de mulheres e crianças groenlandesas sem seu consentimento nem conhecimento, como parte de uma campanha para limitar a taxa de natalidade da Groenlândia. Aproximadamente a metade das mulheres férteis da Groenlândia foram obrigadas a utilizar contraceptivos e 22 crianças foram separadas de suas famílias na Groenlândiae levados a Dinamarca, onde se supunha se iam ser educados como a próxima geraçã de governantes competentes da colônica. O racismo dos dinamarqueses aos groelandeses foi generalizado. A expressão coloquial para se referir a uma intoxicação alcoólica grave na Dinamarca é estar tão bêbado como alguém da Groenlândia, um termo tão comumente utilizado que aparece no dicionário dinamarquês oficia.
Essa é a tragédia do povo da Groenlândia: quando enfim conseguiram a influência necessária para reivindicar sua dignidade e exigir o reconhecimento do seu antigo amo, se enfrentam agora com um novo amo, muito mais forte e impiedoso. Trump quer a propriedade, é “psicologicamente necessário”, disse. Não se trata de segurança ou minerais, se trata da ambição que os franceses chamavam de la gloire (a glória). Tem a ambição de se transformar em um presidente histórico, de expandir o território estadunidense.
Trump faz referência a Doutrina Monroe, uma máxima que deu forma a política exterior estadunidense durante dois séculos. Agora se refere ao que ele chama de doutrina Monroe.
A doutrina Monroe foi formulado pelo presidente estadunidense James Monroe em 1823. Nesse momento, quase todas as colônia espanholas na América haviam conseguindo ou estavam perto de conseguir a independência. Monroe afirmou que o Novo Mundo e o Velho Mundo deviam seguir sendo esferas de influência claramente separadas e, portanto, qualquer esforço adicional das potências europeias para controlar ou influir nos Estados soberanos da região se consideraria uma ameaça para segurança dos Estados Unidos. Em troca, Estados Unidos reconheceria e não interferiria nas colônias europeias existentes, nem se intrometeria nos assuntos internos dos países europeus.
A doutrina Monroe, cujo objetivo original era se opor a intromissão europeia no hemisfério ocidental, tem sido invocada repetidamente pelos sucessivos presidentes dos EUA para justificar a intervenção dos Estados Unidos na região. O primeiro desafio direto se produziu depois de que a França instalou o imperador Maximiliano no México na década de 1860. Depois do fim da Guerra Civil, França cedeu a pressão dos Estados Unidos e o retirou. em 1904, o presidente Theodore Roosevelt argumentou que se devia permitir aos Estados Unidos intervir em qualquer país latinoamericano instável. Isso ficou conhecido como Corolário Roosevelt, uma justificativa esgrimida em vários lugares, entre eles o apoio a separação do Panamá da Colômbia, que ajudou a assegurar a zona do Canal do Panamá para os Estados Unidos. Durante a Guerra Fria, a Doutrina Monroe foi proclamada como uma defesa contra o comunismo, como a exigência dos Estados Unidos em 1961 de que os mísseis soviéticos fossem retirados de Cuba, assim como a oposição à administração Reagan ao governo sandinista de esquerda na Nicarágua.
A doutrina Donroe não é só um capricho de Trump. Está integrada a última Estratégia de Segurança Nacional da administração estadunidense. Como disse Trump: “sob nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio estadunidense no hemisfério ocidental nunca voltará a ser questionado”. Trump continuou: “Durante décadas, outras administrações descuidaram ou contribuíram para estas crescentes ameaças à segurança do hemisfério ocidental. Sob o governo Trump, estamos reafirmando o poder estadunidense de uma maneira muito mais contundente em nossa região”.
Vale a pena a Groenlândiado ponto de vista econômico? Sua economia e sua população de 56000 habitantes são pequenas, dependem em grande medida da pesca e sobrevivem em grande parte graças a uma subvenção anual da Dinamarca de uns 3,9 bilhões de coroas dinamarquesas (520 milhões de euros), o que equivale a uns 9 mil euros por habitante ao ano. Segundo o Banco Mundial, o PIB da Groenlândia é de apenas 3,5 a 4 bilhões de dólares (3,2 a 3,7 bilhões de euros), e aproximadamente 90% das suas exportações provém de produtos relacionados à pesca.
Até agora, Groenlândianão produz terras raras, mas o Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que possua ao redor de 1,5 milhão de toneladas de reservas de terras raras exportáveis, vitais a partir do ponto de vista tecnológico, de toneladas de reservas de terras raras tecnologicamente vitais e exploráveis, em comparação com os recursos potenciais de terras raras no solo de 36,1 milhões de toneladas. Esses materiais são usados em produtos que vão desde motores de veículos eléctricos até caças a jacto. No total, 55 jazidas de matérias-primas críticas foram identificadas na Groenlândia, mas apenas uma está a ser explorada actualmente. O valor geológico bruto dos recursos minerais conhecidos da Groenlândiapoderia, em teoria, exceder US$ 4 trilhões (€ 3,66 trilhões), de acordo com estimativas de um estudo publicado pelo American Action Forum (AAF). No entanto, apenas uma fracção – cerca de US$ 186 bilhões – é considerada realisticamente extraível nas actuais condições de mercado, regulatórias e tecnológicas. A exploração mineira é muito reduzida. Alguns bilionários norte-americanos criaram empresas para explorar níquel; o actual secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, foi CEO de uma empresa mineira da Groenlândia.
A Groenlândia é um país bastante subdesenvolvido e com escassez de mão-de-obra. Possui menos de 160 km de estradas pavimentadas, sofre com as condições climáticas extremas do Ártico e tem uma força de trabalho muito reduzida. O desenvolvimento da Groenlândia custaria centenas de milhares de milhões. A maioria dos groenlandeses trabalha para o governo local (43 % dos 25.000 que têm emprego). O desemprego continua elevado, com o resto da economia dependente da procura de exportações de camarão e peixe, indústrias que são fortemente subsidiadas pelo governo. Na verdade, os groenlandeses têm vindo a abandonar a ilha e a população está a diminuir.

Os que partiram foram substituídos, em parte, por trabalhadores migrantes asiáticos pobres, que estão a fazer trabalhos que os groenlandeses não querem fazer ou abriram pequenas lojas e negócios.

Quanto custaria a Trump comprar a Groenlândiaà Dinamarca num tal «negócio imobiliário», como Trump o chama, se fosse acordado com a Dinamarca? O Financial Times sugeriu que uma avaliação de US$ 1,1 trilhão seria apropriada com base nos recursos da ilha, mas o New York Times apresentou uma estimativa muito mais baixa, entre US$ 12,5 milhões e US$ 77 milhões.
Mas, é claro, ninguém consultou os groenlandeses. Uma pesquisa realizada pelo Verian Group em janeiro de 2025 revelou que 85 % dos groenlandesesse opõem a deixar a Dinamarca para se juntar aos Estados Unidos, enquanto apenas 6 % apoiam a ideia. Mas quem sabe se isso mudaria com os incentivos certos. A administração Trump está a considerar pagamentos directos – entre US$ 10.000 e US$ 100.000 por residente da Groenlândia – como forma de influenciar a opinião pública na Groenlândiaa favor de um realinhamento com os EUA.
Trump conseguirá levar a sua avante? «A Groenlândia é fundamental para a segurança nacional e mundial. Não há volta a dar», afirma Trump. Em Davos, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ridicularizou as tentativas dos líderes europeus de contrariar a ameaça dos EUA de impor uma taxa adicional de 10 % sobre as tarifas de importação dos EUA, a menos que a Groenlândia seja entregue. «Imagino que eles formarão primeiro o temido grupo de trabalho europeu, que parece ser a sua arma mais poderosa». Bessent disse que a Europa é demasiado fraca para se proteger da influência russa e chinesa no Árctico e é por isso que Donald Trump está a pressionar para assumir o controlo da Groenlândia.
É muito provável que Trump consiga adquirir a Groenlândia e, assim, se torne o primeiro presidente dos EUA a expandir o império americano no hemisfério ocidental. A acção militar está descartada, mas a guerra econômica está na agenda, a menos que os europeus capitulem – e a Europa depende fortemente das importações de gás natural liquefeito dos EUA para a sua energia e do poderio militar dos EUA para continuar a guerra contra a invasão russa da Ucrânia. Portanto, é provável que haja algum tipo de «negócio imobiliário».
A partir daí, Trump seguirá em frente: na América Latina, o seu objetivo é finalmente conquistar Cuba; na América do Norte, o Canadá ainda é alvo de anexação. Este último objectivo levou a uma mudança radical na postura do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Carney é um destacado representante da classe financeira internacional, ex-executivo da Goldman Sachs, ex-presidente do Banco Central do Canadá e do Banco da Inglaterra. Ele voltou ao Canadá e assumiu o Partido Liberal, que venceu as últimas eleições com um programa nacionalista de «independência» das exigências de aquisição de Trump.
Agora, em Davos, Carney proferiu um discurso surpreendente: «Hoje vou falar sobre a ruptura na ordem mundial, o fim da agradável ficção e o início de uma realidade brutal em que a geopolítica das grandes potências não tem restrições… Todos os dias somos lembrados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. Que a ordem baseada em regras está a desaparecer. Que os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem.»
Com surpreendente honestidade (após o fato, é claro), Carney expôs a realidade da ordem internacional baseada em regras, da globalização e do Consenso de Washington.
«Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamávamos de ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos seguir políticas externas baseadas em valores sob a sua protecção. Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se livrariam dela quando fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional era aplicado com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima». MAS: «Essa ficção era útil e a hegemonia americana, em particular, ajudava a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança colectiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas.»
Mas tudo isso acabou. «Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma. Tarifas como alavanca. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas. Não se pode “viver na mentira” do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna uma fonte de subordinação. As instituições multilaterais nas quais as potências médias confiavam – a OMC, a ONU, a COP –, a arquitetura da resolução colectiva de problemas, estão bastante enfraquecidas.»
O que fazer? «Quando as regras deixam de proteger-nos, temos de proteger-nos a nós próprios. Mas sejamos realistas quanto ao resultado disso. Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável». Carney afirma estar a liderar o caminho para as principais economias capitalistas nesta nova era. «O Canadá foi um dos primeiros a ouvir o alerta, levando-nos a mudar fundamentalmente a nossa postura estratégica. Os canadianos sabem que a nossa antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e as nossas alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida».
Outros líderes em Davos devem reconhecer o que está a acontecer. «Isso significa nomear a realidade. Parar de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ela ainda funcionasse como anunciado. Chamar o sistema pelo que ele é: um período em que os mais poderosos perseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção». A realidade global é que «a velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fractura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Essa é a tarefa das potências médias, que têm mais a perder num mundo de fortalezas e mais a ganhar num mundo de cooperação genuína. Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo — a capacidade de parar de fingir, de nomear a realidade, de construir a nossa força em casa e de agir juntos».
Portanto, Carney é realista, enquanto os líderes europeus lutam para lidar com «Donroe» e o fim do Consenso de Washington, que supostamente confirmava uma «aliança ocidental» contra as forças da «autocracia» (Rússia, China, Irão). Carney agora quer que as «potências médias» se organizem separadamente — um BRICS do Norte? O Canadá acaba de assinar um acordo comercial com a China e está a preparar-se para defender a sua independência da potência hegemónica na sua fronteira, assim que Trump adquirir a Groenlândia.
O mundo capitalista supostamente harmonioso de cooperação global, liderado por um Estado hegemônico em aliança com outras «democracias» capitalistas que estabelecem as regras para os outros, chegou ao fim. Agora, cada nação cuida de si mesma, buscando novas alianças num mundo multipolar. Nada mais é certo ou previsível. Não é de admirar que o ouro, aquele ativo seguro do passado, tenha atingido um preço recorde.