Cachoeirinha abre caminho para a Conferência Internacional Antifascista
pré-conferência cachoeirinha

Cachoeirinha abre caminho para a Conferência Internacional Antifascista

Pré-conferência reuniu partidos, movimentos sociais e lideranças no Sindicato dos Metalúrgicos e reforçou a unidade da esquerda para o encontro internacional que ocorre de 26 a 29 de março, em Porto Alegre

Foto: Tatiana Py Dutra/Esquerda em Movimento

A construção da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que será realizada entre os dias 26 e 29 de março, ganhou corpo no último domingo com a realização de uma pré-conferência no Sindicato dos Metalúrgicos de Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre. O encontro reuniu dirigentes partidários, parlamentares, representantes do movimento sindical, do Ministério Público e militantes de diferentes organizações, em um esforço explícito de unidade da esquerda diante do avanço do neofascismo no Brasil e no mundo.

A mesa foi marcada por falas densas, que combinaram balanço histórico, análise da conjuntura internacional e convocação à mobilização social. Presidente do PT de Porto Alegre, Rodrigo Dilélio destacou o caráter estratégico do processo em curso e o esforço de articulação para além da capital.

“Para nós é um motivo de grande orgulho construir essa unidade no campo da esquerda, nós já vemos tratando muito cuidado, muito carinho desde a eleição, na verdade desde da resistência contra o golpe de estado, em 2016, atravessamos eleições e agora mais do que nunca estamos construindo uma frente antifascista que a partir do apoio de organizações internacionais relevantes, que tem em Porto Alegre uma memória de luta e de combate, que aderiram a essa construção e que agora ela começa a aterrissar no território com muita energia”, afirmou.

Dilélio sublinhou que a pré-conferência de Cachoeirinha não deve ser um ponto isolado.

“Eu espero que não seja a única, eu espero que seja a primeira da região metropolitana. (…) Nós estamos com muitas expectativas para que entre o dia 26 de março e 29, a gente consiga atualizar a nossa estratégia política, não só para a resistência, mas para uma grande ofensiva antifascista.”

O dirigente petista também ressaltou consensos políticos construídos no comitê organizador:

“Neste comitê organizador nós tivemos 100% de acordo na defesa da soberania venezuelana, 100% de acordo na solidariedade à Cuba, estamos trabalhando para que a Conferência seja também um espaço de mobilização para a reeleição do governo do presidente Lula, mas também para que a esquerda possa se fortalecer no Parlamento (…) mas mais do que isso companheiros e companheiras, a gente ocupar as ruas.”

Segundo ele, o dia 26 de março, além da abertura oficial da Conferência, será marcado por uma grande marcha em Porto Alegre.

“Nós queremos fazer uma grande marcha, com dezenas de milhares de pessoas nas ruas. (…) Porto Alegre vai ser um epicentro da causa antifascista e uma mola propulsora para que a gente possa construir uma hegemonia do campo de esquerda, novamente no Rio Grande do Sul.”

A presidenta do PSOL-RS, Gabi Tolotti, apresentou detalhes da organização e da programação da Conferência, lembrando que o evento estava previsto inicialmente para 2024, mas foi adiado em função das enchentes no estado.

“Essa conferência era para ter acontecido em 2024 em uma unidade entre o PT, o PC do B, o PSOL, o MST, o CPERS, a ADURGS, porque houve um crescimento da extrema direita no mundo e há necessidade de uma articulação contra o fascismo e pela soberania dos povos.”

Para ela, a tragédia climática no Rio Grande do Sul e os acontecimentos internacionais reforçaram ainda mais a urgência do encontro.

“A própria enchente mostrou a necessidade de a gente ter essa articulação, porque a forma como o mundo, a natureza, o meio ambiente está sendo tratado, a gente vê onde está indo parar”, destacou

Gabi informou que a Conferência conta atualmente com cerca de 100 entidades brasileiras na convocatória e um comitê internacional que já realizou três reuniões.

“É uma conferência que realmente mostra a importância desse momento histórico. (…) A conferência vai começar no dia 26 de março (…) Na mesma quinta-feira, dia 26, a gente vai ter a marcha.”

Já as atividades centrais dos dias 27, 28 e 29 ocorrerão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, anfitriã do evento, com dez painéis temáticos e a participação de figuras internacionais. A dirigente também destacou o espaço para atividades autogestionadas.

“A gente abriu espaço na agenda para atividades autogestionadas (…) as inscrições para as atividades auto-gestionadas acabam no dia 26 de fevereiro agora”, disse Gabi, convocando os companheiros a fazerem as inscrições de atividades, além da pré-inscrição no evento no site antifas2026.org.  

O vereador do PT em Cachoeirinha, Gustavo Almansa, trouxe o debate para o plano local, relacionando a luta antifascista à realidade concreta do município.

“Quando a gente fala da luta antifascista, muitas das vezes a gente não entende qual é o nosso papel nessa luta. Porque parece algo tão grande que a gente, pequeno militante, aqui na cidade de Cachoeirinha, não tem um papel fundamental. E eu gostaria de dizer que cada um de nós tem um papel importante e fundamental na luta antifascista. Porque o fascismo não começou do jeito que ele está hoje, o neofascismo não se inicia do jeito que ele está hoje, impregnados nos nossos territórios. O neofascismo entra nos nossos territórios nas pequenas coisas. E aqui a gente está falando da concentração de poder, do ataque às minorias, do corte da participação popular nas políticas públicas. E esse não é um cenário diferente do que a gente tem acompanhado na Câmara Municipal de Cachoeirinha e na política local de Cachoeirinha há muito tempo. E há pouco tempo, vocês devem saber, que o prefeito sofreu um golpe aqui na Câmara dos Trabalhadores.E dia 12 de abril nós temos uma nova eleição, que não será fácil. Mas o fato é que a gente tem aqui uma política onde a concentração de poder é muito, muito evidente. E eles fazem isso diretamente no nosso território. Eu sou um profissional da saúde, especialista em saúde pública. E a gente tem, inclusive, esse poder interferindo nas consultas, no acesso às políticas públicas, o que é muito difícil de enfrentar diariamente. A gente tem aqui uma política onde os grandes se concentram. E é por isso que eu quero aqui saudar a organização dos companheiros de Cachoeirinha para trazerem aqui para a nossa cidade essa mesa pré-conferência antifascista”, pontuou.

História e teoria

Já Raul Carrion, dirigente do PCdoB, fez uma intervenção de caráter histórico e teórico, relacionando fascismo, imperialismo e crise do capitalismo.

“Sempre que a democracia burguesa sofre o risco de ser atropelada pela luta popular, pelo avanço do povo – vamos lembrar 64, elas viviam da grande luta pelas reformas, da havia perspectiva de avanços importantes – ela abre mão de qualquer verdade democrática e aplica uma ditadura aberta. Essa ditadura aberta pode assumir a forma de ditaduras militares, porque os militares são um recurso que a burguesia sempre teve no seu estado, ou pode assumir a forma do fascismo, que tem particularidade, a própria democracia, a própria ditadura. A ditadura militar pode ser fascista. Quem viu a ditadura militar no Brasil, sabe que o partido da ditadura era o mais forte no Brasil. Ele ganhava as eleições. Foi também uma ditadura alemã. Alguns dizem que no Brasil não houve ditadura fascista, houve sim. Então, companheiro, o que eu quero deixar claro é o seguinte. O fascismo é uma forma do estado burguês. E ele surge fundamentalmente quando há uma crise desse estado burguês, uma crise da sociedade burguesa’, afirmou,

Carrion foi enfático ao afirmar que não há luta antifascista consequente sem enfrentamento ao imperialismo:

“O fascismo, é aliado ao imperialismo. Ele é inseparável do imperialismo e da dominação imperialista. Como dizia um grande mestre do socialismo, Lenin, o imperialismo é a reação política em todos os terrenos. Não quer dizer que todo o país imperialista seja fascista. Ele pode ser uma democracia liberal, mas quando ele entra em crise, nós vivemos hoje uma grande crise do imperialismo ocidental, fruto, digamos, da decadência tanto econômica, como social, como política do imperialismo, ele gera no seu dentro o fascismo. Então é impossível, companheiros e companheiras, nós fazermos a luta antifascista sem levar junto a luta anti-imperialista. Por isso, a nossa conferência de forma correta ela coloca, 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos, nada mais é que a luta anti-imperialista.”

O vereador do PSOL de Porto Alegre, Roberto Robaina, reforçou essa leitura a partir da conjuntura internacional.

“O imperialismo norte-americano, diante da sua crise, diante do seu processo de decadência, que já iniciou, se torna ainda mais agressivo. E nós estamos no continente que, para os Estados Unidos, o governo Trump, em particular, a América Latina é vista como um quintal. Eles querem fazer da América Latina o seu quintal. Por isso, atuaram como atuaram na Venezuela, atuaram na Colômbia, e ameaçam Cuba. Essa é a estratégia dos Estados Unidos. É evidente que uma situação muito mais difícil também para os Estados Unidos. Porque do ponto de vista econômico, a situação da América Latina não é como era décadas atrás. A América Latina hoje tem mais relações econômicas para a China do que para os próprios Estados Unidos. E há uma disputa geopolítica. É lógico, e eu acredito nisso, que nós, que somos trabalhadores, não podemos criar nossa estratégia política simplesmente para disputar geopolítica. Os trabalhadores não representam o Estado. Os trabalhadores são parte de classes sociais. E é como classe social que nós devemos pensar a política e a estratégia daquele que quer uma mudança estrutural. E eu digo isso porque, se nós fôssemos pensar só em termos de potências e disputa entre potências, nós não perceberíamos que uma das questões mais importantes que estão ocorrendo no mundo, da resistência contra o próprio imperialismo e contra o fascismo, porque os Estados Unidos hoje combinam o imperialismo e fascismo, porque o Trump tem a expressão também de alas da extrema direita dos Estados Unidos, mas se nós não percebéssemos que os Estados Unidos mesmo existem processos de luta muitíssimo importantes que estão questionando o imperialismo interior dos próprios Estados Unidos, como nós temos visto nas cidades de Minneapolis, e que nós, pela primeira vez depois de 70 anos, as últimas grandes gerais que ocorreram nos Estados Unidos de regiões como Minnesota e Minneapolis foram nos anos 30, e agora nós tivemos uma derrota da política do Trump nesse estado”, destacou.

Para ele, a resposta passa pela organização internacional da classe trabalhadora.

“Nós precisamos apostar na luta da classe trabalhadora no mundo todo, e esse é o grande ponto. Agora, evidentemente, que para a classe trabalhadora poder vencer, ela precisa de se organizar e ela precisa de estar unificada’, disse o vereador,

Robaina também destacou o sentido histórico da Conferência:

“Esse esforço para unir (…) para produzir um debate político que permita a esquerda compreender o que nós chegamos, aonde chegamos e como nós devemos atuar para sair de onde nós estamos.”

A promotora de Justiça Janine Soares, presidente da Associação Nacional dos Promotores de Justiça com atuação no terceiro setor, trouxe a defesa da democracia e da sociedade civil organizada como eixo central.

“Eu me identifico como uma pessoa antifascista (…) especialmente na defesa da sociedade civil organizada, que é a grande expressão da cidadania ativa.”

Ela associou diretamente o combate ao fascismo à defesa da democracia.

“Quando a gente fala em fascismo, em combater o fascismo, nós estamos falando de defender a democracia.”

Em sua manifestação inicial, a deputada estadual Luciana Genro parabenizou a realização da pré-conferência em Cachoeirinha.

“Quero parabenizar a vocês pela realização dessa pré-conferência, porque todos se empolgaram muito para que ela acontecesse. E tenho certeza que ela é uma demonstração de que Cacheirinha e os nossos partidos aqui, as nossas organizações sindicais e populares de Cachoeirinha, estão compreendendo a importância desse momento político que nós estamos vivendo”, disse.

Na sequência, Luciana situou a Conferência no atual cenário internacional e nacional.

“È uma conferência que acontece num momento extremamente duro da política internacional, em que o fascismo, o neofascismo ganha força na Europa, está fortíssimo nos Estados Unidos, continua resiliente no Brasil. E isso faz com que ela tenha uma importância ainda maior do que ela já teria em qualquer outra conjuntura. A importância de que nós tenhamos uma organização e uma mobilização que vá além dos processos eleitorais, na construção da nossa unidade para enfrentar o neofascismo e as suas expressões locais, como é o caso de Cachoeirinha. E a conferência internacional é essa demonstração da compreensão dos nossos partidos,de que não se trata exclusivamente de construir unidades eleitorais para derrotar o neofascismo, se trata de organizar um corpo político que tenha condições de derrotar esse atraso, esse neofascismo.”

Luciana ressaltou que o enfrentamento ao neofascismo não se limita ao terreno eleitoral.

“Se trata de organizar um corpo político que tenha condições de derrotar esse atraso, esse neofascismo.”

Ela também relacionou o avanço autoritário à ausência de respostas concretas às necessidades populares.

“À medida que o povo não tem resposta para os seus problemas concretos (…) nós vemos o neofascismo ganhando força”, destacou.

Encerrando as manifestações da mesa, Juçara Dutra, do PT, fez uma leitura histórica ao relacionar o avanço do fascismo à permanência do neoliberalismo como modelo econômico dominante. Para ela, não se trata de fenômenos sucessivos, mas combinados, que ajudam a explicar a atual ofensiva autoritária.

“Trabalhamos no propósito de combater as injustiças, combater as desigualdades e construir o socialismo democrático. Era em 1980, nós ainda tínhamos o resquício da ditadura que se abateu sobre o Brasil. Mas, na sequência, já tínhamos nos anos 80 a inteligência do neoliberalismo. Não são questões sucessivas, são questões concordantes, porque nós não vencemos o neoliberalismo. Nós entramos agora nesse período fascista ainda sob a organização econômica do neoliberalismo.”

A dirigente ressaltou que a luta antifascista exige enfrentar não apenas suas expressões políticas e ideológicas, mas também a base material que sustenta o aprofundamento das desigualdades sociais e a exclusão, elementos que seguem alimentando projetos autoritários no país e no mundo.

A pré-conferência de Cachoeirinha consolidou-se, assim, como parte de um processo mais amplo de mobilização nacional e internacional, que busca transformar Porto Alegre, entre 26 e 29 de março, em um ponto de convergência das lutas antifascistas, anti-imperialistas e em defesa da soberania dos povos.


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