O que a luta dos povos indígenas revela na polêmica da federação defendida por Boulos?
Um debate necessário entre a militância da esquerda brasileira
O editorial do jornal O Globo de 25/02/2026, contra os povos indígenas, foi sintomático em dois pontos. O primeiro não surpreende ninguém, mas nem por isso é menos nefasto, que foi a crítica ao recuo do governo Lula que, por sua vez, suspendeu os estudos para concessão de hidrovias em rios amazônicos, após a impactante e vitoriosa mobilização dos povos originários.
O Globo, como parte e porta-voz de uma fração – supostamente liberal – da burguesia brasileira, não tolerou a ideia de um freio nas pretensões econômicas do chamado agronegócio, que nada mais é do que um punhado de herdeiros de latifundiários que outrora foram dos donos de cafezais com trabalho escravo. Isto é: a representação, sob uma “nova embalagem”, do que é de mais retrógrado na história do país. Portanto, é parte da natureza de frações capitalistas, como o oligopólio da família Marinho, defender os interesses de seus aliados de classe como o tal “agro pop” da propaganda oficial da Rede Globo de televisão.
Quer dizer, do lado da burguesia só podemos esperar proposições de ataque aos povos originários e ao meio ambiente, tendo como lógica, nesse caso específico, a mercantilização dos rios da Amazônia. Por isso, desde o início, o erro original da crise com os povos indígenas esteve contido no Decreto 12.600 do governo federal, que previa, sem consulta às comunidades locais, a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, que são a fonte de existência de povos indígenas, ribeirinhas e quilombolas. Ou seja, o Decreto 12.600 do governo Lula obedecia os interesses econômicos do agronegócio que teria um caminho fácil e ágil para o escoamento de grãos. Porém, a briosa mobilização dos povos indígenas e a ocupação da Cargill, impediu que a tragédia fosse consumada.
Por isso, todos os louvores devem ser registrados para os sujeitos sociais que protagonizaram as mobilizações. O papel do governo federal nesse caso e, consequentemente, dos ministros, Boulos e Guajajara, foi apenas de carimbar uma decisão que foi decidida pela força da mobilização e não por uma suposta negociação de cima para baixo. Assim sendo, houve uma vitória concreta do movimento dos povos indígenas e o recuo do governo Lula com a suspensão do Decreto 12.600. Qualquer narrativa fora dessa baliza é falsa.
Contudo, é inegável que diante das contradições de um governo de colaboração de classes num período defensivo, a luta abnegada do movimento indígena demonstrou que há espaço pela via da mobilização para arrancar conquistas, mesmo que parciais, nessa conjuntura. No entanto, um ponto precisa ser melhor aprofundado frente ao que foi a superfície do recuo do governo Lula, que é o papel (ainda em disputa) de um sujeito político que obteve holofotes diante dos desdobramentos do conflito dos rios da Amazônia.
Não foi à toa que o editorial do Globo (25/02/2026) registrou a seguinte caracterização: “Mas o recuo foi claramente uma capitulação à chantagem, para reduzir o desgaste à imagem do Planalto, na base governista, especialmente no PSOL”. Esse é o segundo ponto e o mais importante que gostaria de assinalar no referido editorial do Globo, que obviamente, ao nominar o PSOL, não estava se referindo aos setores do partido que ficaram em silêncio aguardando a posição de “sim ou não” de Lula diante da crise na Amazônia. Pelo contrário, tudo leva a crer que o jornal estava se referindo às ações concretas de apoio presencial na ocupação da Cargill, das deputadas federais Fernanda Melchionna e Sâmia Bomfim, que também foram autoras do PDL 942/2025 pela revogação do Decreto. Isto é, parte da representação pública do PSOL, por princípio político e programático, se jogou de cabeça na defesa do movimento dos indígenas e disputaram a posição do governo federal, com a bandeira da revogação, se colocando como parte da ação direta do movimento de resistência das comunidades amazônicas.
Aí reside uma amostragem do X da questão na disputa interna do PSOL entre a posição de Boulos e parte da corrente Revolução Solidária, de incorporação na federação liderada pelo PT e da posição contrária, pela independência do PSOL, como assinalou a nota do Secretariado Nacional do MES, “Unidade [com o governo Lula e o PT] para enfrentar a extrema direita, sim. Mas com projeto próprio”. A posição de Boulos é justamente oposta, conforme descreveu José Luís Fevereiro em sua carta de ruptura com a corrente Revolução Solidária:
“Boulos e o núcleo dirigente da Revolução Solidária, mudaram de estratégia. Buscaram um atalho. Não se trata mais de acumular força à esquerda para disputar a hegemonia do próximo período político, mas de localizar Guilherme Boulos o mais próximo possível de Lula para tentar furar a fila da ‘benção’ em 2030”.
A proposta defendida por Boulos, de federação com o PT, sacrifica o projeto político do PSOL em nome de um suposto projeto eleitoral com traços oportunistas e caudilhescos. Mas isso não é novo no PSOL. Não faz tanto tempo que Marcelo Freixo deixou o partido para trilhar um caminho de adaptação à direita que o liquidou como uma liderança da esquerda. No entanto, verdade seja dita, Freixo não colocou o PSOL em risco em sua escolha equivocada. Portanto, o movimento de Boulos é de outra natureza, o que me faz rever o título “Boulos, o novo Freixo?” do artigo que publiquei em 29 de janeiro de 2023 na Revista Movimento.
O PSOL, diante dos acontecimentos do país como a revogação do Decreto 12.600, demonstra que segue vivo como uma ferramenta útil para as lutas imediatas da classe trabalhadora e dos povos oprimidos. Todavia, continua a batalha para a preservação da razão de sua função histórica como um projeto anticapitalista e socialista. Por isso, a unidade do partido, independentemente das alas internas, é determinante para derrotar e colocar uma pá de cal na proposta de federação que pode significar um tiro de morte no partido que nasceu com objetivo de ser alternativa à esquerda ao lulopetismo e que para Boulos, com todo seu desprezo ao marxismo, pode ser mais uma legenda em chapas eleitorais encabeçadas pela burguesia como de Eduardo Paes no Rio de Janeiro em troca de um passo em seu projeto de ser “o herdeiro” de Lula.