O que o discurso de Trump nos diz sobre o racismo atual?
A emergência contemporânea do neofascismo envolve também a ampliação do racismo como tecnologia social de controle, hierarquização e estabilização da dominação
Foto: Benedikt von Loebell/ World Economic Forum
Quer dizer, veja bem, eu tenho ascendência europeia – escocesa e alemã. 100% escocesa, por parte de mãe. 100% alemã, por parte de pai. E acreditamos profundamente nos laços que compartilhamos com a Europa como civilização. Quero ver isso prosperar.
(Discurso de Donald Trump no Fórum de Davos 2026)
O discurso de Donald Trump no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2026, não pode ser reduzido a um episódio de polarização política ou de mera extravagância retórica. Entendo que ele expressa, ao contrário, um novo momento de realinhamento das ideologias de poder no capitalismo global, diante da crise das narrativas liberais clássicas, em particular da meritocracia e do universalismo tecnocrático. Em um contexto de crescente concentração de riqueza, aprofundamento da polarização social e intensificação das rivalidades entre potências mundiais, Trump articula uma linguagem que funde um nacionalismo racializado com uma agenda de força, competição e hierarquização. Essa linguagem, como sugere o The Guardian, remete a formulações contemporâneas da chamada “política de identidade branca”, fortemente influenciadas por figuras centrais de seu entorno político, como Stephen Miller, e expressa um impulso explícito de ordenação racial e civilizacional que ultrapassa largamente a mera disputa territorial ou econômica.
Resolvi desenvolver este texto justamente para não tratar esse episódio de maneira isolada ou estritamente conjuntural, mas para reinscrevê-lo em uma problemática estrutural mais ampla. Sustento que a emergência contemporânea do neofascismo não se reduz à formação de um campo econômico, político e militar voltado para a disputa entre potências, mas envolve também a reativação e a ampliação do racismo como tecnologia social de controle, hierarquização e estabilização da dominação no nosso tempo.
Essa reconfiguração se expressa de maneira particularmente agressiva no presente, marcado pela crise da ideologia meritocrática, pela intensificação das disputas inter-imperialistas e pela ascensão de novas oligarquias financeiras e tecnológicas. É nesse terreno que discursos como o de Trump encontram condições materiais e simbólicas para sua expansão, reativando gramáticas racializadas, civilizacionais e autoritárias como formas de reorganização do poder. Ao articular esses elementos, busco avançar na compreensão das bases sociais e ideológicas do neofascismo contemporâneo, não como um desvio episódico ou patológico, mas como expressão orgânica das contradições estruturais do capitalismo global.
Identidade e racismo na geopolítica
“A civilização está em risco”
Para compreender plenamente o alcance político do discurso de Trump em Davos, é necessário situá-lo no interior de uma conjuntura geopolítica marcada por uma aceleração das disputas interimperialistas, especialmente em torno da reorganização das cadeias estratégicas de energia, minerais críticos, rotas comerciais e controle territorial no Ártico. A crise em torno da Groenlândia, retomada de maneira recorrente pelo próprio Trump desde seu primeiro mandato e novamente mobilizada como pauta estratégica, não é um episódio excêntrico, mas um sintoma de uma transformação profunda da geopolítica contemporânea. O derretimento acelerado das calotas polares, a abertura de novas rotas marítimas e a crescente relevância de reservas minerais e energéticas na região recolocam o Ártico no centro da disputa entre Estados Unidos, Rússia e China, redefinindo fronteiras de segurança, soberania e poder econômico.
A Groenlândia, formalmente vinculada à Dinamarca, ocupa uma posição geoestratégica decisiva nesse tabuleiro. Funciona como plataforma avançada de projeção militar, vigilância aérea e controle de fluxos no Atlântico Norte e no acesso ao Ártico. A insistência norte-americana em reivindicar influência direta sobre o território, seja por vias diplomáticas, econômicas ou militares, expressa uma lógica clássica de expansão e securitização de zonas consideradas vitais para a reprodução da hegemonia imperial. Nesse sentido, o discurso de Trump em Davos deve ser lido como parte de uma ofensiva mais ampla de reposicionamento estratégico dos Estados Unidos diante da consolidação da China como potência tecnológica e produtiva e da reafirmação militar e energética da Rússia.
O elemento novo não reside apenas na intensificação da disputa, mas na forma ideológica pela qual ela é apresentada. Trump não formula esse realinhamento em termos técnicos, multilaterais ou diplomáticos, mas recorre a uma linguagem de ordem civilizacional, identitária e hierárquica. Ao afirmar implicitamente que a Europa “não está indo na direção certa”, ao sugerir que determinados territórios e sociedades se tornaram “irreconhecíveis” e ao reivindicar a necessidade de restaurar a força e a centralidade do Ocidente sob liderança norte-americana, ele produz uma narrativa que combina geopolítica, moralização cultural e racialização do conflito internacional.
Esse movimento implica também uma redefinição da posição da própria Europa no interior do bloco ocidental. Longe de ocupar um papel autônomo ou de protagonismo estratégico, os países europeus aparecem crescentemente como espaços subordinados, dependentes da proteção militar, da infraestrutura tecnológica e da direção política dos Estados Unidos. A crise energética decorrente da guerra na Ucrânia, o enfraquecimento relativo das economias industriais europeias, a dependência de cadeias produtivas globais controladas por conglomerados norte-americanos e asiáticos e a fragilidade política das instituições multilaterais europeias reforçam esse deslocamento. O discurso de Trump, ao criticar abertamente os rumos da Europa, não expressa apenas desprezo retórico, mas uma tentativa de reposicionar o continente como área de retaguarda estratégica e disciplinada dentro da arquitetura imperial norte-americana.
Ao mesmo tempo, esse realinhamento não se sustenta apenas por meios econômicos e militares. Ele exige uma legitimação simbólica capaz de reorganizar consensos, redefinir inimigos e produzir adesão social em um cenário de crise prolongada. É precisamente nesse ponto que a linguagem racializada e civilizacional adquire centralidade. Ao transformar disputas por recursos, rotas e influência em conflitos entre “civilizações”, “valores” e identidades supostamente incompatíveis, o discurso político desloca o eixo da contradição. A exploração, a desigualdade e a espoliação deixam de aparecer como produtos de relações sociais historicamente determinadas e passam a ser apresentadas como efeitos inevitáveis de diferenças culturais, raciais ou morais.
O inimigo não é apenas externo
“Muitas partes do nosso mundo estão sendo destruídas diante dos nossos olhos“
Para além de demarcar rivalidades entre potências, como no caso da disputa pelo Ártico, da pressão sobre a Europa e da concorrência estratégica com Rússia e China, o discurso de Trump opera também como procedimento ativo de definição de inimigos internos, revelando uma dimensão estrutural do racismo que frequentemente foi mal compreendida por setores da esquerda ao longo do século XX. Contra a leitura que associa automaticamente racismo e nacionalismo, Benedict Anderson mostra que o nacionalismo tende a pensar em termos de destinos históricos compartilhados, enquanto o racismo opera como lógica de fixação biológica, de contaminação eterna e de negação da historicidade dos sujeitos. O racismo, portanto, não é uma derivação necessária do nacionalismo, mas uma tecnologia distinta de hierarquização e exclusão.
Mais do que isso, Anderson é ainda mais explícito ao afirmar que “os sonhos do racismo […] têm a sua origem nas ideologias de classe, e não nas de nação”, especialmente nas pretensões aristocráticas de linhagem, pureza e superioridade intrínseca. Isso significa que o racismo emerge historicamente como instrumento de ordenamento interno das sociedades de classe, funcionando prioritariamente para justificar desigualdades, repressões e hierarquias no interior das formações nacionais, e não apenas como ideologia de guerra externa ou de conflito entre Estados. Essa chave analítica desloca o eixo do debate: o problema central não é apenas o nacionalismo exacerbado, mas a forma como as classes dominantes recorrem à racialização para estabilizar relações de poder em momentos de crise.
É precisamente essa dimensão que se manifesta de forma nítida no discurso contemporâneo de Trump. Ao mesmo tempo em que mobiliza uma retórica civilizacional para reposicionar os Estados Unidos na disputa interimperialista, ele ativa uma gramática racializada voltada para a reorganização do conflito social interno. Questões que poderiam ser interpretadas como problemas estruturais de desigualdade, precarização do trabalho e crise urbana são deslocadas para o terreno da identidade racial, da ameaça cultural e da suposta incompatibilidade civilizacional.
A operação federal em Minneapolis e o levantamento popular subsequente são expressão dramática dessa dinâmica. No início de janeiro de 2026, durante a grande ofensiva de imigração conhecida como Operation Metro Surge, um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) matou a tiros Renée Nicole Good, cidadã americana de 37 anos, enquanto ela estava em seu veículo durante protestos contra a repressão em curso, episódio que desencadeou protestos massivos em todo o estado e em várias cidades do país. A resposta agressiva das forças federais, incluindo o envio de milhares de agentes à região e a reversão de liminares que limitavam o uso da força contra manifestantes, intensificou a percepção de uma “ocupação” federal, especialmente entre comunidades de imigrantes e setores racializados.
Os ataques reiterados à comunidade somali em Minnesota, rotulada por vozes governamentais como centro de fraudes e problema social, são inseparáveis dessa operação de racialização. As narrativas oficiais que associam somalis a ameaças à ordem e à segurança deslocam a crítica social para uma linguagem de exclusão. Deputados como Ilhan Omar, nascida na Somália e eleita por um distrito de Minnesota, tornaram-se alvos simbólicos dessa retórica. Além de críticas políticas, enfrentam ataques que questionam sua legitimidade como membro da comunidade política, sugerindo que sua presença é incompatível com a “ordem” que se pretende defender.
Essa construção de inimigos internos, sejam comunidades racializadas, imigrantes ou representantes políticas que desafiem a agenda dominante, confirma de maneira quase pedagógica a hipótese de Anderson: o racismo opera menos como expressão espontânea do nacionalismo e mais como instrumento de classificação social e controle político, capaz de redefinir quem é reconhecido como membro legítimo da comunidade e quem deve ser tratado como corpo estranho, descartável ou perigoso. Ao mesmo tempo em que o discurso trumpista constrói inimigos externos, como Rússia, China, imigração “descontrolada” e “ameaças civilizacionais”, ele reorganiza internamente a hierarquia social, delimitando quem se ajusta ao projeto hegemônico da burguesia norte-americana e quem é permanentemente situado na zona da suspeição, exclusão e marginalização.
O fim da promessa e o retorno dos “escolhidos”
“Nós somos os escolhidos”
Nas últimas décadas, a ideologia meritocrática funcionou como um princípio integrador do capitalismo liberal-globalizado. A desigualdade era amplamente legitimada pela narrativa de que talento individual, esforço e produtividade seriam suficientes para explicar trajetórias de ascensão social. Essa promessa, no entanto, entrou em colapso. Diante da concentração extrema de riqueza, da precarização estrutural do trabalho, da financeirização da vida cotidiana e da expansão das oligarquias tecnológicas, a relação entre esforço e recompensa tornou-se cada vez mais dissociada da experiência concreta da maioria da população. A legitimação social da desigualdade, nesse cenário, desloca-se e já não pode se sustentar exclusivamente na gramática do mérito.
É nesse contexto que figuras como Donald Trump reaparecem no centro do palco político articulando discursos que substituem a promessa de mobilidade social pela reafirmação de identidades hierarquizadas, frequentemente racializadas. No discurso em Davos, conforme analisado pelo The Guardian, Trump não apenas rechaça o “woke” e os consensos liberais, mas recoloca no centro a defesa de uma identidade civilizacional superior, associada à chamada “civilização ocidental”, ao status de branquitude e a uma ideia de supremacia cultural vinculada a linhagens europeias. Essa narrativa ecoa o que analistas vêm caracterizando como “política de identidade branca”, marcada pelo medo da perda de privilégios diante de transformações demográficas, culturais e geopolíticas.
É particularmente significativo que esse discurso seja enunciado a partir de um espaço como Davos, tradicionalmente associado às elites globais do capital financeiro e tecnológico. Isso evidencia que a crise da meritocracia não é apenas econômica, mas também simbólica e política. A ideologia meritocrática cede lugar a outras formas de legitimação da desigualdade, agora ancoradas em critérios identitários, civilizacionais e hierárquicos. A promessa de ascensão é substituída pela naturalização da exclusão: alguns pertencem, outros não; alguns são considerados aptos, outros estruturalmente descartáveis.
Esse deslocamento ideológico não se limita ao centro do capitalismo. No Brasil, ele assume formas específicas, mas convergentes. A explosão das plataformas de apostas, as chamadas bets, não é apenas um fenômeno econômico ou tecnológico, mas um sintoma social da erosão da expectativa de mobilidade baseada no trabalho, na educação e na estabilidade. O jogo, a sorte e o risco substituem simbolicamente a ideia de carreira, formação e planejamento de longo prazo. Trata-se de uma subjetividade moldada pela instabilidade estrutural: quando o futuro se torna opaco, aposta-se no acaso.
Ao mesmo tempo, o próprio discurso institucional contribui para a desvalorização da educação como via de ascensão social. Declarações recentes de autoridades públicas, como as falas do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, relativizando o papel da escola e enfatizando uma formação instrumental e subordinada às demandas imediatas do mercado, expressam esse rebaixamento simbólico da educação como direito e como projeto civilizatório. A escola deixa de ser apresentada como espaço de formação crítica e emancipação social e passa a ser tratada como mera plataforma de adaptação funcional à precariedade.
Nesse vazio, o empreendedorismo surge como ideologia compensatória. Promete autonomia, sucesso individual e inovação “do nada”, ocultando as condições estruturais de desigualdade, a concentração de capital e a brutal assimetria de acesso a crédito, tecnologia e redes de proteção. O empreendedor aparece como figura heroica isolada, deslocando a responsabilidade coletiva e naturalizando o fracasso como falha individual. Trata-se de uma reciclagem da meritocracia em versão ainda mais individualizada e despolitizada, mesmo quando sua base material já se encontra profundamente corroída.
Esse quadro converge de maneira particularmente potente com a expansão da teologia da prosperidade, que reinterpreta o sucesso econômico como sinal de eleição divina e o fracasso como indício de desvio moral ou espiritual. A lógica da prosperidade religiosa opera uma sacralização da desigualdade, transformando hierarquias sociais em hierarquias morais e metafísicas. Quando articulada com discursos racializados e civilizacionais, essa teologia reforça a ideia de “povos escolhidos”, de sujeitos naturalmente destinados ao comando, ao acúmulo e à autoridade, enquanto outros seriam estruturalmente incapazes, desviantes ou perigosos.
Nesse sentido, a crise da meritocracia não conduz automaticamente a uma crítica estrutural do capitalismo. Ela abre espaço, ao contrário, para a recomposição autoritária e racializada das formas de legitimação da desigualdade. O que se observa é a transição de uma ideologia que prometia inclusão pelo desempenho para outra que naturaliza a exclusão pelo pertencimento, seja ele racial, cultural, religioso ou civilizacional. É nesse terreno que o racismo reaparece não como resíduo arcaico, mas como tecnologia contemporânea de organização da dominação, articulando classe, poder e identidade de maneira funcional às novas formas de acumulação e controle social.
Racismo explícito e neofascismo como forma de governo
O discurso de Trump em Davos não inaugura uma nova lógica de dominação; ele torna explícito aquilo que sempre operou, de modo mais ou menos velado, na organização do capitalismo moderno. O racismo sempre funcionou como tecnologia de hierarquização social, de legitimação da desigualdade e de administração da violência. A diferença do presente não está em sua existência, mas em sua exposição aberta e em sua normalização pública como linguagem legítima de governo, de disputa geopolítica e de reorganização do conflito social.
Essa explicitação não é casual. Ela constitui um dos traços centrais do neofascismo contemporâneo. Quando a ideologia liberal-meritocrática perde capacidade de produzir consenso, o poder deixa de buscar legitimação pela promessa de inclusão e passa a operar pela afirmação direta da hierarquia, do pertencimento e da força. O neofascismo não surge como simples regressão autoritária, mas como forma funcional de gestão da crise, capaz de reorganizar consentimentos, disciplinar populações e bloquear a politização da desigualdade.
Quando Trump associa liderança internacional à superioridade civilizacional, quando naturaliza a subordinação europeia, quando racializa inimigos externos e, simultaneamente, criminaliza populações internas racializadas, ele não apenas radicaliza preconceitos. Ele ativa uma gramática política típica das experiências fascistas históricas, agora reconfigurada para o capitalismo financeirizado, digitalizado e oligárquico do século XXI. A hierarquia deixa de ser dissimulada e passa a ser assumida como princípio organizador legítimo da vida social e da ordem internacional.
O racismo, nesse cenário, deixa de operar prioritariamente como subtexto e passa a funcionar como política explícita de poder, articulando coerção, exclusão e produção de inimigos como instrumentos ordinários de governo. Ao transformar desigualdade em destino e diferença em essência, o neofascismo consolida uma forma de dominação que combina autoritarismo político, radicalização identitária e aprofundamento da exploração econômica.
Enfrentar essa dinâmica exige mais do que respostas morais ou disputas culturais fragmentadas. Exige reconhecer que o combate ao racismo é inseparável da luta contra a recomposição autoritária do capitalismo e contra o avanço neofascista como forma de governo da crise. Se o racismo sempre estruturou a dominação, o fato de agora se apresentar de modo aberto e legitimado indica que a crise atual não é apenas econômica ou institucional, mas civilizatória, e que seu desfecho dependerá da capacidade de articular igualdade material, democracia substantiva e desmonte radical das hierarquias que sustentam a ordem vigente.
Referências bibliográficas
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
THE GUARDIAN. Trump’s Davos speech: Stephen Miller, white identity politics and the strain of Western dominance. Londres, 21 jan. 2026.