50 anos após o golpe: a memória continua nas ruas
A mobilização que derrotou a ditadura volta a marcar presença diante do governo de Milei
A cinquenta anos do golpe, a memória não é um exercício do passado: é uma força viva. Como todos os anos, milhares de trabalhadores e setores populares voltam às ruas na Argentina. Mas, desta vez, a comemoração não olha apenas para trás: ela se carrega de atualidade diante de um governo que busca relativizar os crimes da ditadura e reabrir o debate sobre os genocidas.
Não é a primeira vez que se tenta reescrever a história ou garantir impunidade. Os governos posteriores à ditadura também o fizeram. Raul Alfonsín cedeu diante da revolta militar dos carapintadas e Carlos Menem avançou com os indultos. No entanto, essas tentativas esbarraram em uma resistência persistente.
Décadas depois, o Argentinazo – aquela grande mobilização popular que pôs fim ao governo de La Rúa, expulso da Casa Rosada novamente de helicóptero –, acabou por impor um lema que se tornara bandeira de reivindicação: “nem esquecimento nem perdão”. Os responsáveis pelo terrorismo de Estado foram julgados e presos. O governo de Néstor Kirchner decidiu ir contra os militares para canalizar, por essa via, a mobilização popular que havia se iniciado com o Argentinazo.
A ditadura liderada por Jorge Rafael Videla deixou um saldo de 30 mil desaparecidos. Mas também deixou uma história de resistência. Uma luta que começou a tomar forma em 1977 com as Mães da Praça de Maio e que teve um de seus momentos decisivos em 1982, quando a mobilização popular acabou por encurralar o regime.
O objetivo da ditadura era também apagar a memória histórica da classe trabalhadora e de sua vanguarda militante. No entanto, essa memória sobreviveu na resistência clandestina. Como apontei na apresentação do livro Rastros do Silêncio, que reúne depoimentos de militantes do PST durante aqueles anos: tratou-se da ditadura mais sangrenta do continente, mas também de uma das mais breves, em grande parte devido à combatividade dos trabalhadores e do povo argentino.
Já por volta de 1981, as greves e os protestos começavam a desgastar o regime. Nesse processo, os militantes do PST estiveram presentes, mantendo a organização em condições extremas, apoiados por uma forte moral militante, pela política e por uma tradição de luta.
A repressão foi brutal. Foi dirigida contra as lideranças e ativistas do movimento operário, contra as organizações guerrilheiras e os partidos de esquerda. Mais de cem militantes do PST (Partido Socialista dos Trabalhadores) foram desaparecidos: aproximadamente um em cada dez. Mesmo assim, o partido conseguiu manter sua atividade. Retirou-se para os bairros operários, reinseriu-se nas fábricas com novas gerações não fichadas e manteve o vínculo com a classe trabalhadora. A imprensa circulava clandestinamente, escondida em embalagens de produtos de consumo diário.
Enquanto isso, o regime começava a desmoronar. Setores da burguesia industrial, prejudicados pelo modelo econômico, começaram a se distanciar. Ao mesmo tempo, o movimento operário recuperava seu protagonismo: a CGT convocava greves e mobilizações, expressando uma rejeição social cada vez mais ampla.
A combinação de crise econômica, divisões na classe dominante e ascensão da luta operária foi enfraquecendo a ditadura.
Malvinas: uma guerra que acelerou a queda
Nesse contexto, a ditadura tentou uma manobra desesperada para recuperar a iniciativa: a guerra das Malvinas. Ela apostou em apoios internacionais que nunca chegaram. Durante anos, as Forças Armadas argentinas haviam atuado como aliadas dos Estados Unidos na América Central, mas isso não se traduziu em apoio.
A recuperação das ilhas — ocupadas pelo Reino Unido desde 1833 — desencadeou um forte sentimento anti-imperialista. Amplos setores populares apoiaram a causa, organizaram mobilizações e contribuíram com recursos. O PST interveio ativamente, impulsionando a mobilização e propondo medidas para enfrentar a guerra em termos anti-imperialistas.
Mas o cálculo da ditadura foi equivocado. Os Estados Unidos apoiaram a Grã-Bretanha, sua aliada estratégica. A superioridade militar britânica, somada à condução deficiente e corrupta do alto comando argentino, selou o desfecho.
Apesar das ações heroicas dos pilotos argentinos, as tropas britânicas conseguiram impor-se. A rendição deixou à mostra a fraqueza do regime.
A queda: quando o povo se levantou
A derrota provocou uma explosão popular. Durante semanas, a ditadura havia divulgado relatórios que afirmavam que a guerra estava sendo vencida. Mas quando a rendição se tornou pública e começaram a chegar os depoimentos dos soldados, a indignação explodiu nas ruas.
Naquela mesma noite, cerca de 30 mil pessoas se reuniram na Praça de Maio para repudiar os militares. Nos dias seguintes, as mobilizações cresceram de forma constante. O poder da ditadura já estava abalado e, pouco depois, suas principais figuras começaram a cair.
Cercado pela mobilização popular, o general Galtieri fugiu de helicóptero da Casa Rosada. Assim se abriu um vácuo de poder que marcou o colapso do regime. Não foi uma transição ordenada: foi o resultado direto da irrupção das massas.
Diante da crise, a burguesia impulsionou uma saída institucional: restabeleceu o Parlamento, dissolvido desde 1976, formou um governo provisório e convocou eleições.
Nesse contexto, o PST reapareceu publicamente. Fê-lo com uma coluna de mais de 800 militantes na Praça de Maio, em meio à mobilização popular. Foi um momento profundamente emocionante: após anos de clandestinidade, os militantes se reencontravam, se abraçavam e voltavam a gritar juntos pelo fim da ditadura.
Memória, presente e futuro
Cinquenta anos depois, essas memórias não são apenas história: são lições vivas. A queda da ditadura mostra o papel decisivo da mobilização popular diante de regimes autoritários.
Essa experiência se conecta diretamente com o presente. Diante do governo do neofascista Milei, agente direto de Trump, e de sua tentativa de reabrir debates já encerrados pela luta popular, a memória volta a ocupar as ruas.
Também coloca um desafio político: a necessidade de construir uma alternativa diante de um projeto neofascista e diante de um peronismo que, nessas décadas, demonstrou sua incapacidade de resolver os problemas estruturais do país e acabar com a herança neoliberal que continua empurrando a Argentina de crise em crise.