Crise no BRB expõe contradições e pressiona Ibaneis após escândalo do Banco Master
Pedido bilionário ao FGC, suspeitas de créditos sem lastro e articulações frustradas de compra aprofundam crise política no DF e motivam cobrança por CPI
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A crise do Banco de Brasília (BRB) ganhou novos contornos políticos e financeiros após o governo do Distrito Federal, comandado por Ibaneis Rocha (MDB), solicitar R$ 4 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos para cobrir um rombo provocado por operações com o Banco Master. O pedido, feito na última terça-feira (24), evidencia o agravamento da situação do banco público – que, até recentemente, era apresentado como peça de expansão financeira do governo local.
A contradição salta aos olhos: o mesmo BRB que chegou a cogitar a compra do Banco Master agora enfrenta dificuldades para manter sua própria estabilidade. A operação, defendida politicamente pelo Palácio do Buriti, ocorre em meio a indícios de irregularidades graves. Investigações apontam que o BRB adquiriu cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos possivelmente falsificados, com necessidade de provisionamento que pode chegar a R$ 13,3 bilhões, segundo auditoria independente.
No documento enviado ao FGC, o governo afirma que o empréstimo busca “assegurar a continuidade de serviços financeiros essenciais” e “preservar condições adequadas de liquidez e capital do BRB”. Ainda assim, a medida escancara a fragilidade fiscal do Distrito Federal, que encerrou 2025 com um déficit de R$ 1 bilhão e sem capacidade de obter garantias do Tesouro Nacional.
Para viabilizar a operação, a gestão Ibaneis ofereceu como garantia participações em empresas públicas estratégicas – como a Caesb e a CEB – além de imóveis avaliados em mais de R$ 6,5 bilhões. Parte desses ativos, como a área da Serrinha do Paranoá, já foi alvo de questionamentos judiciais e ambientais, ampliando a controvérsia em torno do socorro financeiro.
A crise também impõe um prazo crítico: o BRB precisa apresentar ao Banco Central do Brasil, até o fim do mês, um plano concreto para equacionar o rombo. O presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, foi direto ao afirmar que a solução depende do acionista controlador – ou seja, do próprio governo do DF. “É uma questão de patrimônio e não de liquidez”, destacou.
No campo político, o desgaste de Ibaneis cresce. O envolvimento indireto com o escândalo do Banco Master — somado à tentativa frustrada de expansão via aquisição – alimenta críticas sobre a condução da política financeira do DF. Parlamentares da oposição têm elevado o tom: o deputado distrital Fábio Felix (PSOL) já protocolou pedido de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as operações do BRB e suas conexões com o caso Master.
A iniciativa busca esclarecer não apenas o rombo bilionário, mas também possíveis responsabilidades políticas na condução dos investimentos do banco público. Para setores críticos, o episódio revela uma combinação perigosa entre gestão temerária, falta de transparência e uso político de instituições financeiras estatais.
Enquanto isso, o governo tenta ganhar tempo com planos emergenciais e promessas de reestruturação. Mas, diante da dimensão do prejuízo e da pressão institucional crescente, a crise do BRB já deixou de ser apenas um problema financeiro – e se consolidou como um dos principais focos de instabilidade política no Distrito Federal.