Esquerda tenta conter avanço da extrema-direita no Peru
No próximo dia 12, nas eleições presidenciais peruanas, a tarefa da esquerda é deter o avanço da extrema-direita
A menos de duas semanas das eleições presidenciais, partidos de esquerda tentam evitar o avanço do conservadorismo no Peru e impedir o que seria uma tragédia política: um segundo turno composto apenas por forças da extrema-direita. A tarefa não é fácil, diante do descrédito dos eleitores na casta política do país e da pulverização de candidaturas, que dificulta que o povo peruano conheça a fundo as propostas dos presidenciáveis. Ao todo, 35 candidatos postulam o cargo de presidente do Peru – eram 36, mas um morreu em um acidente de carro há duas semanas.
Embora pouco confiáveis e mais centradas nas áreas urbanas, as últimas pesquisas indicam que a disputa presidencial está sendo liderada pela extrema-direita, com a filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko Fujimori (Fuerza Popular) à frente, seguida pelo ex-prefeito de Lima, considerado o Bolsonaro peruano, Rafael Lopez Aliaga (Renovación Popular). Além deles, outros candidatos direitistas também se destacam, como o comediante Carlos Álvarez (País para Todos) e o empresário bilionário, ex-governador do Departamento de Libertad, Carlos Acuña (Alianza para El Progreso). A vitória de qualquer um deles representaria o aprofundamento do ajuste fiscal contra o povo, a continuidade do “pacto mafioso” no Congresso Nacional e a ampliação da influência de Donald Trump na América Latina.
No campo progressista, três candidatos alinhados à esquerda se destacam nas pesquisas: o economista e ex-reitor da Universidade Nacional de Engenharia, Alfonso Lopez Chau (Ahora Nación); o deputado nacional e ex-ministro de Comércio Exterior, Roberto Sanchez (Juntos pelo Peru); e o advogado popular e progressista, Ronald Atencio, que lidera a Aliança Venceremos, composta pelos partidos Nuevo Peru, Voces Del Pueblo e outras organizações.

Além dos candidatos à esquerda, correndo por fora, tentando captar esse voto progressista, está o centrista e ex-ministro da Defesa, Jorge Nieto Montensinos (Partido do Bom Governo). Com origem na esquerda, Jorge Nieto está mais à direita atualmente, tendo sido ministro do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski, com o qual rompeu, quando este concedeu indulto ao ex-ditador Alberto Fujimori.
Lopez Chau em queda, Sanchez estagnado e Atencio em ascensão
Até então melhor pontuado nas pesquisas entre os candidatos à esquerda, Lopez Chau tem caído nos últimos levantamentos, uma vez que não vemos volume de sua campanha nas ruas e nem apoio orgânicos dos movimentos sociais. Isso confirma a avaliação de setores da esquerda peruana, de que sua candidatura estava sendo inflada por setores midiáticos e parte da burguesia do país, com quem mantém relações. O ex-reitor defende a manutenção da estabilidade econômica e se diz preocupado com o déficit fiscal, apresentando um discurso moderado e sem enfrentar as raízes dos problemas de um país mergulhado na corrupção e com um Congresso acusado de relações com o crime organizado.
Já Roberto Sanchez tem se mantido estável nas pesquisas e conta como principal trunfo de campanha o apoio do ex-presidente Pedro Castillo, de quem foi ministro. Defende uma nova Assembleia Constutuinte e o enfrentamento às máfias e ao crime organizado, bem como a soberania do país com a industrialização e a proibição da exportação de minérios sem processamento, para garantir o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional. Porém, é visto com desconfiança por setores de esquerda, que o acusam de ter um projeto pessoal de poder e autoritarismo no controle partidário. Chegou a ser convidado para compor a Aliança Venceremos, mas recusou, por não concordar com a realização de prévias internas para definir quem seria o candidato presidencial.
Mas entre os candidatos à esquerda quem tem mais crescido na campanha é Ronald Atencio. Até duas semanas, ele sequer aparecia nas pesquisas, mas com forte militância tem feito comícios, caminhadas e reuniões numerosas nas províncias e ocupado estações de metrô e esquinas de Lima com panfletagens e atividades de corpo a corpo. Conta com o apoio do deputado Guillermo Bermejo, perseguido pelo governo peruano e preso político sob acusações de ligações com o grupo Sendero Luminoso. A candidatura de Ronald Atencio é resultado da unidade de diversas organizações de esquerda com distintas tradições, entre elas Nuevo Peru e Voces Del Pueblo, que se juntaram, formaram a Aliança Venceremos e realizaram prévia interna para, democraticamente, definir quem seria o candidato presidencial de esquerda.
Oriundo de Lima Norte e com forte ligação com as províncias, Atencio tem assumido um discurso antisistema e tem como eixo a defesa de uma Assembleia Constituinte Plurinacional e o enfrentamento ao “pacto mafioso” que domina o Congresso Nacional. Ele defende, ainda, a revogação das leis que favorecem o crime organizado e a prisão dos responsáveis pelas mortes nos protestos de rua de 2022 e 2023 contra o golpe de Dina Boluarte. No campo econômico, pretende fazer uma reforma tributária justa, investir na industrialização das matérias primas no próprio país e implantar uma política de crédito para trabalhadores informais, agricultores e pequenos empreendedores. Mais de 70% dos trabalhadores peruanos vivem hoje na informalidade.
As eleições no Peru ocorrem no dia 12 de abril, das 7 às 17 horas. Mais de 18 milhões de eleitores estão aptos a votar e terão que escolher o presidente e vice-presidente da República, senadores nacionais e regionais, deputados nacionais e representantes do país no parlamento andino. Uma votação complexa, em que muitos eleitores demonstram desconhecimento sobre como votar, o que aumenta a possibilidade de votos nulos. No dia da eleição, os peruanos terão que marcar em uma grande cédula de papel os símbolos das candidaturas para os 5 cargos a serem escolhidos, além de escrever o número de seus candidatos na extensa lista, antes de depositar o voto na urna.
