Manifesto da Maré Negra: o fascismo é expressão do racismo
Somos herdeiros de uma formação social forjada na escravidão, onde o racismo não é resquício, mas engrenagem ativa da acumulação capitalista
Foto: Plenária do movimento Maré Negra na 1ª Conferência Internacional Antifascista de Porto Alegre. (Maré Negra/Reprodução)
Em um momento de escalada brutal da barbárie imperialista, precisamos afirmar e reafirmar que não existe fascismo sem racismo. Após anos de ameaças, os Estados Unidos e Israel lançaram, em fevereiro de 2026, um ataque massivo contra o Irã, bombardeando cidades, instalações militares e até uma escola feminina, onde dezenas de meninas foram assassinadas. Sob o pretexto de um suposto programa nuclear o governo de Donald Trump aprofunda uma política de guerra baseada em mentiras, dominação e controle geopolítico.
Esse ataque não é um episódio isolado. Ele expressa um giro agressivo e colonialista do imperialismo estadunidense em um contexto de crise da ordem neoliberal e disputa global com outras potências. O genocídio do povo palestino, conduzido pelo Estado de Israel, a militarização de territórios, as ameaças a nações soberanas e as tentativas de controle direto sobre recursos naturais revelam uma lógica: a manutenção do poder global por meio da guerra, da morte e da expropriação dos povos racializados. Atualmente, é o que acontece com Haiti e Venezuela, Estados antes soberanos que agora sequer tem autonomia para gerir sua política e sua economia. O Haiti, por exemplo, vive em uma situação de caos, através de uma política imperialista de gestão da morte contra seu povo. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados e levado para os Estados Unidos, em uma operação que viola todos os princípios do direito internacional e da soberania, tudo em nome das reservas de petróleo. As ameaças não param por aí, Trump quer mais guerras, agora, através de boicotes sanções e sabotagens, pretende intervir em Cuba. Isso, por sua vez, demonstra que os Estados Unidos farão de tudo para manter sua decadente hegemonia e que o alvo são os povos racializados, pois a manutenção do seu poder tem um caráter fascista e, sendo assim, é racista. A luta anti-imperialista é a luta contra a classe burguesa que, através de guerras e intervenções submete povos à morte e à fome. Nesse sentido, não há imperialismo mais ou menos pior, por isso que somos contra a invasão russa à Ucrânia, pois o governo Putin e seu oligarcas querem sangue por lucro e nós defendemos o direito humano pela vida com dignidade e livre de opressão.
Como internacionalistas, nos somamos às mobilizações internacionais contra as guerras e as intervenções imperialistas, sejam quais forem, bem como às marchas anticoloniais em solidariedade ao povo palestino e à luta dos imigrantes nos Estados Unidos contra o racismo e o autoritarismo.
No Brasil, essa conjuntura internacional se conecta diretamente com o avanço da extrema direita, do bolsonarismo e de projetos fascistas que operam a partir da violência, do racismo e da destruição de direitos. Enfrentar o fascismo aqui exige compreender que ele é parte de um sistema global que tem na exploração racializada um de seus pilares centrais.
É nesse cenário que afirmamos: este manifesto expressa uma necessidade histórica. Fazer emergir, no Brasil e no mundo, uma Maré Negra que reposicione o debate racial no centro da luta de classes e da estratégia revolucionária. Não há enfrentamento real ao fascismo, ao capitalismo em crise e à barbárie sem colocar a luta antirracista como eixo cental do nosso projeto político.
Somos herdeiros de uma formação social forjada na escravidão, onde o racismo não é resquício, mas engrenagem ativa da acumulação capitalista. Como demonstram Clóvis Moura e Lélia Gonzalez, a população negra foi historicamente constituída como massa marginal, superexplorada e excluída dos direitos fundamentais. É essa realidade que ainda organiza o Brasil de hoje — das periferias às prisões, do mercado de trabalho à violência de Estado.
Diante disso, afirmamos: não há socialismo sem libertação negra. E não haverá libertação negra sem ruptura com o capitalismo racial.
O Maré Negra nasce para organizar essa ruptura a partir de um programa.
DEFENDEMOS:
- Marxismo Negro, internacionalismo e luta anticolonial
Reafirmamos o marxismo como ferramenta viva, atualizada pela experiência da luta negra. Defendemos um internacionalismo enraizado nas lutas dos povos racializados e na tradição da luta radical negra, articulando anticapitalismo e combate ao colonialismo em todas as suas formas.
- Ecossocialismo e racismo ambiental
A crise climática atinge de forma brutal os territórios negros, periféricos, quilombolas e tradicionais. Lutamos por um ecossocialismo que enfrente o racismo ambiental, garantindo proteção aos territórios ancestrais e o direito à vida digna.
- Trabalho, renda e reparação histórica
A população negra ocupa os piores postos de trabalho ou é empurrada para a informalidade. Defendemos políticas estruturais como a renda básica universal, ampliação de direitos sociais e medidas concretas de reparação histórica frente ao legado da escravidão.
- Amefricanizar o feminismo
Inspiradas em Lélia Gonzalez, afirmamos a centralidade das mulheres negras como sujeitas políticas e organizadoras das lutas. É nas periferias que se constrói a resistência cotidiana, e é a partir delas que devemos expandir nosso projeto político.
- Segurança pública
Denunciamos o genocídio da juventude negra, a política de guerra às drogas e o encarceramento em massa, afirmando a necessidade de ruptura com o modelo repressivo que sustenta o Estado penal.
- Fortalecimento teórico e intelectual negro
Reivindicamos e ampliamos os referenciais de Clóvis Moura, Lélia Gonzalez e Frantz Fanon como bases para a formulação política revolucionária.
- Cultura, etnicidade e ancestralidade
A cultura negra é território de resistência. Defendemos sua valorização, proteção e expansão como parte fundamental da luta política e da construção de identidade e consciência coletiva.
- Educação para emancipação negra
Lutamos por uma educação pública que rompa com o eurocentrismo e forme sujeitos críticos, comprometidos com a transformação social e a emancipação do povo negro.
- Direito à terra e à cidade
Defendemos reforma agrária e urbana radical, garantindo acesso à terra, moradia digna e o fim da lógica de expulsão das populações negras dos territórios.
- Movimento negro e disputa de rumos
Reconhecemos a importância histórica de organizações como Movimento Negro Unificado, UNEGRO e Coalizão Negra por Direitos. Nos colocamos em diálogo, mas afirmamos a necessidade de um projeto independente, classista e revolucionário para o movimento negro.
- Internacionalismo e construção na IV Internacional
Assumimos a tarefa de fortalecer a luta antirracista no interior da IV Internacional, construindo uma articulação internacional de negros e negras que integre o trotskismo à luta contra o racismo estrutural em escala mundial.
⸻
Nós do Maré Negra convocamos todas e todos a responder a este chamado histórico. Uma geração que se recusa a aceitar a marginalização como destino e que reivindica seu papel como sujeito central da transformação revolucionária.
Fazer emergir uma Maré Negra é afirmar que a luta contra o fascismo passa necessariamente pela luta contra o racismo. É afirmar que a classe trabalhadora tem cor, território e história.