Brasil sob polarização: avaliação e perspectivas
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Brasil sob polarização: avaliação e perspectivas

Uma retrospectiva dos anos do último governo Lula oferece algumas perspectivas sobre as batalhas em curso contra a extrema direita

Alexandre Fuccille e Esther Solano 9 abr 2026, 16:17

Foto: Ricardo Stuckert / PR

Via Instituto Humanitas – Unisinos

Ao longo da última década, a democracia no Brasil esteve sob pressão, passando por diversos períodos em que foi questionada, ameaçada e até mesmo corroída internamente [1].O evento mais recente e simbólico nesse sentido foi a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, poucos dias após o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a condenação dos envolvidos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, pelo Supremo Tribunal Federal ( STF ). Ainda é cedo para dizer se isso marca uma virada, mas a decisão histórica do STF de condenar o ex-presidente e vários generais é certamente encorajadora em um país com uma longa tradição de impunidade.

O cenário político permanece turbulento. A situação do Brasil em 2025 foi caracterizada por tensões entre os três poderes, polarização política e incerteza econômica — elementos que geram considerável inquietação. Recentemente, um relatório da Polícia Federal, resultado de uma extensa investigação, revelou a existência de um plano, denominado Punhal Verde Amarelo, com o objetivo de assassinar o presidente Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes [2]. A proximidade das eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, também exacerba as disputas e intensifica a campanha eleitoral. A relação entre o governo e o Congresso Nacional, especialmente com o chamado “centro” — um grupo informal de parlamentares de diferentes partidos cuja principal característica é o pragmatismo extremo e a ambição por cargos e recursos — enfrenta diversos desafios. O apoio, ainda que parcial e minoritário, como tem sido o caso ao longo do atual governo, é fundamental para garantir a governabilidade. A ruptura com a coalizão governista por partidos como União Brasil e Progressistas (ambos membros do centro , que formou uma federação com vistas às eleições de 2026 e detém um bloco de 109 deputados federais — o maior da Câmara — e 14 senadores) é um exemplo notável, afetando a estabilidade da coalizão e a relação entre os Poderes Executivo e Legislativo na reta final do governo Lula. Isso representa novos desafios para o Presidente da República, cujo mandato termina em 31 de dezembro de 2026. Também é notável o crescente envolvimento do judiciário: questões que deveriam ser resolvidas na esfera política acabam sendo levadas aos tribunais, especialmente ao Supremo Tribunal Federal (STF), que, por sua vez, tem adotado uma postura mais ativa na tomada de decisões que afetam a política interna e, ocasionalmente, até mesmo a política externa.

O ritmo acelerado da política internacional também traz consigo mudanças geopolíticas significativas e desafia acordos e alianças de longa data. Na esfera econômica, as preocupações com as finanças públicas e a sustentabilidade fiscal pairam sobre o governo, especialmente após a desaceleração do crescimento projetada para 2025 e o aumento da dívida pública. Além disso, os avanços e os desafios na esfera social assumem nova importância diante de um Poder Legislativo com enorme influência política e poder orçamentário sem precedentes na história republicana do país. Por fim, as Forças Armadas são outro ator que não pode ser negligenciado e merece nossa análise sobre o que se pode esperar – ou não – em 2026. Assim, examinando as dimensões externa, política, econômica, social e militar, buscaremos compreender a caleidoscópica e desafiadora situação atual do Brasil, construindo uma visão geral do que poderá se desenrolar ao longo de 2026.

A paisagem externa

A aceleração da história, como alguns historiadores denominam o período atual em que múltiplos processos globais se desenrolam de forma interconectada, intensa e imprevisível, também teve repercussões no Brasil e em suas relações com o mundo exterior. O presidente Lula da Silva reforçou seu compromisso com o Sul Global, concebido inicialmente durante seus anos no Palácio do Planalto, entre 2003 e 2010 [3], sem prejuízo das alianças tradicionais com os Estados Unidos, a União Europeia e os países vizinhos da América Latina, entre outros.

Sem pretender ser exaustivo, eventos como a cúpula do G20 no Rio de Janeiro em novembro de 2024 (que marcou o fim da presidência brasileira do grupo), a presidência do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ao longo de 2025 e a presidência do Mercado Comum do Sul (Mercosul) a partir de julho de 2025 – de onde foram feitos esforços para finalizar a assinatura do acordo de livre comércio com a UE , há muito adiado – sem esquecer a COP30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, em novembro de 2025, dão uma ideia da intensa agenda externa do Brasil nos últimos meses do terceiro ano de mandato de Lula. Com relação à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Conferência das Partes), o Brasil tentou, por meio da agenda ambiental, reativar um antigo e poderoso trunfo diplomático: alcançou uma redução no desmatamento em comparação com 2024, no segundo ano consecutivo de declínio, com uma diminuição de 32,4% em relação a 2023 [4], e tem demonstrado, em termos gerais, uma maior preservação de seus seis biomas (AmazôniaCaatingaCerradoMata AtlânticaPampa e Pantanal).

O governo tem sido frequentemente criticado por manter laços estreitos com os países membros do BRICS — grupo que hoje compreende muito mais países do que aqueles que deram origem à sigla —, vários dos quais são, na verdade, autocracias. Mas Lula da Silva respondeu que se tratam de alianças pragmáticas que priorizam benefícios econômicos e diplomáticos. A posição oficial brasileira tem sido a de não se alinhar ideologicamente a esses regimes, mas sim a de buscar reforçar a autonomia estratégica do país e o multilateralismo no cenário global, caracterizado pela erosão da democracia liberal em diversos países. Outros preferem apontar uma contradição, visto que a política externa do terceiro mandato de Lula da Silva tem como um de seus princípios centrais a promoção e o fortalecimento da democracia, incluindo a criação de um mecanismo permanente de diálogo para coordenar sua defesa, anunciado em março de 2024 após a visita do presidente espanhol Pedro Sánchez a Brasília, e que atualmente conta com a participação de diversos países.

Este é um momento de declínio do multilateralismo no sistema internacional e de ressurgimento das relações de poder entre os Estados — a guerra entre Rússia e Ucrânia, o conflito entre Israel e Palestina, que Lula classificou como “genocídio”, e o ataque israelense-americano ao Irã — e de agravamento da deterioração das relações diplomáticas desde o retorno de Donald Trump à presidência da maior potência econômica e militar do mundo, em janeiro de 2025. No caso do Brasil, em uma clara tentativa de interferência, o presidente dos EUA tomou medidas unilaterais contra o país nas esferas econômica, comercial e diplomática, em decorrência dos processos judiciais contra seu aliado Jair Bolsonaro. O resultado tem sido uma maior dependência do Brasil em relação à China, seu maior parceiro comercial desde 2009, que atualmente absorve cerca de 25% de suas exportações e responde por aproximadamente 40% do superávit comercial brasileiro [5]. Essa é uma consequência indesejável para Brasília, que preferia manter uma distância pragmática entre Washington e Pequim, negociando vantagens estratégicas e investimentos conforme seus interesses nacionais.

Após esses eventos, o gigante asiático anunciou investimentos bilionários até 2032, abrangendo setores-chave da economia, como mobilidade, energias renováveis, tecnologia, mineração e semicondutores (muitos desses investimentos já estão em andamento). A lista de sanções americanas já começou a ser revisada com o anúncio de exceções significativas. Há sinais de Trump para Lula (iniciados na abertura da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro passado), lembrando-o de que o Brasil é um ator regional muito importante — uma das dez maiores economias do mundo —, além de ser o segundo maior detentor de terras raras do planeta, atrás apenas da China, e um importante fornecedor de alimentos para os EUA em alguns setores , mas ainda não sabemos quais serão as repercussões futuras. O Brasil chegou a começar a reconsiderar seu modelo de defesa, que está alinhado ao modelo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), embora nenhuma decisão efetiva tenha sido anunciada até o momento.

O cenário político

Com a inelegibilidade de Jair Bolsonaro para cargos públicos em 2023 (até 2030) e sua condenação por conspiração golpista, que resultou em uma pena de mais de 27 anos de prisão, a oposição buscou um novo líder, gerando tensões políticas no período pré-eleitoral. Em ordem de proximidade e importância, os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), Paraná (Ratinho Júnior), Minas Gerais (Romeu Zema) e Goiás (Ronaldo Caiado), e até mesmo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, tentaram ocupar seu lugar. Por fim, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, será um dos candidatos à presidência do Brasil, apoiado por seu pai.

O processo de impeachment contra Bolsonaro resultou em sanções contra o Brasil, incluindo uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, a suspensão de vistos para ministros do Supremo Tribunal Federal e membros do governo Lula (estendendo-se a seus familiares) e a aplicação da Lei Magnitsky (criada para punir estrangeiros por graves violações de direitos humanos e práticas corruptas). O ex-presidente Bolsonaro foi condenado à prisão, enquanto Trump continua a caracterizar os eventos como uma “caça às bruxas” e tenta interferir diretamente na política e no judiciário brasileiros.

Vale a pena relembrar, ainda que brevemente, a tentativa de golpe de janeiro de 2023 e suas repercussões na atualidade. Em 8 de janeiro daquele ano, o Brasil foi surpreendido pela invasão — e vandalismo — do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, por apoiadores de Bolsonaro, com o objetivo de impedir a reeleição de Lula da Silva.

Naquele dia em que a democracia foi ameaçada, os indignados com a derrota nas urnas, que estavam acampados em frente ao quartel-general do Exército desde o revés eleitoral, exigiram o cancelamento das eleições, a intervenção militar, o retorno do AI –5 (um conjunto de medidas decretadas pela última ditadura para consolidar seu poder) e a demissão do Ministro Supremo Federal Alexandre de Moraes [6]. Uma parte significativa da turba foi rapidamente condenada, enquanto as sentenças contra seus líderes foram anunciadas em 11 de setembro de 2025, na Ação Penal (AP) 2668, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A sentença envolveu os oito membros do Núcleo 1 da tentativa de golpe, ou Núcleo Crucial, de acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR) [7]. Desses, sete réus foram condenados pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito democrático, golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, danos graves e deterioração do patrimônio protegido.

Mesmo antes do veredicto final e do anúncio das sentenças, o Centrão começou a circular no Parlamento uma proposta de anistia para os envolvidos nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 [8]. Isso está em consonância com uma longa tradição brasileira de impunidade para esse tipo de crime, como se viu durante o período de redemocratização do país. As pesquisas indicam que a maioria da sociedade rejeita uma anistia, mas membros do Congresso apresentaram diferentes formatos e propostas (incluindo a forma mais “branda”, por meio da redução de penas).

Cabe ressaltar que essa proposta mantém acesa a chama da polarização. Além disso, a um ano das eleições, a posição de Lula como favorito é repleta de riscos. É importante lembrar que, das nove eleições presidenciais realizadas desde o retorno da democracia em 1985, em quatro delas os candidatos que lideravam as pesquisas um ano antes acabaram perdendo nas urnas. Diferentemente das democracias, onde a previsibilidade é a norma, no Brasil a volatilidade é estrutural. O sistema de representação proporcional por lista aberta, a fragmentação partidária, a instabilidade econômica, os laços partidários frágeis e um alto grau de ambivalência ideológica explicam esse fenômeno.

A ciência política internacional estabelece que, em eleições em que o incumbente tem 40% ou mais de aprovação, há 75% de chance de reeleição. Lula está exatamente nesse patamar. Seu governo mantém cerca de 45% de aprovação, e pouco mais da metade do eleitorado avalia o desempenho pessoal do presidente como “bom/excelente” ou “regular”. Trata-se de uma posição de equilíbrio instável: qualquer movimento pode empurrá-lo para dentro ou para fora da zona de conforto estatístico [9].

Atualmente, o presidente brasileiro, que vinha sofrendo um declínio histórico persistente em seus índices de aprovação, começou a recuperar uma parcela significativa de sua popularidade após os episódios de interferência de Donald Trump [10]. Invocando a soberania e afirmando que ela é inegociável, Lula e seus ministros usam bonés azuis com o slogan “Brasil pertence aos brasileiros” e a bandeira brasileira, em contraste com os bonés vermelhos com a inscrição “Make America Great Again” e a bandeira americana, juntamente com a bandeira israelense, usados ​​por uma parcela significativa da direita brasileira desde o início de 2025. O governo lançou o Plano Brasil Soberano, que destinará 40 bilhões de reais (aproximadamente US$ 7,6 bilhões) para compensar os exportadores pelas perdas afetadas pelo aumento das tarifas americanas em vigor desde agosto de 2025, e se reposicionou lançando uma nova marca governamental que mudou “Brasil: União e Reconstrução” para “Governo do Brasil, ao lado do povo brasileiro“.

No entanto, Flávio Bolsonaro está se aproximando de Lula nas pesquisas para um possível segundo turno [11]. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que a disputa será entre “Lula e Fávio, ponto final”. Assim, a eleição colocará mais uma vez Lula da Silva contra Bolsonaro, com resultado completamente incerto.

O cenário econômico decisivo

Enquanto a política permanece em suspenso, a economia emerge como a arena decisiva onde a batalha eleitoral será travada. De 1,5% durante o governo Bolsonaro (2019-2022), o crescimento médio do PIB subiu para 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, já sob a presidência de Lula. Mas em 2025, além da frágil situação fiscal interna, o cenário internacional trouxe novas instabilidades que, somadas às altas tarifas de Trump, causaram uma desaceleração da economia. Como resultado, o crescimento em 2025 foi de 2,3%, e o Banco Central e o mercado projetam um crescimento de 1,5% para 2026. E nesse horizonte, muitas nuvens negras ainda pairam.

Embora seja verdade que a taxa de desemprego esteja em seu nível mais baixo na série histórica (em torno de 5,5% da população economicamente ativa), a renda média do trabalhador continue a crescer e, em 2024, o Brasil tenha atingido um estoque de cerca de um trilhão de dólares em investimento estrangeiro direto (um recorde na série histórica do Banco Central, com os EUA liderando com mais de três vezes o investimento do segundo colocado), há outros fatores que devem ser considerados para se obter um panorama mais claro de como a economia poderá afetar a sucessão em 2026. Com a dívida bruta do governo (incluindo as obrigações dos governos federal, estaduais e municipais) em torno de 78% do PIB e um déficit em conta corrente equivalente a 3,5% do PIB , o Banco Central tem justificado a manutenção das taxas de juros em 15% (que não devem começar a cair antes de 2026), o que inibe o consumo, a produção e a expansão das atividades produtivas. O quadro fiscal, sancionado em 2023 para substituir a regra anterior de teto de gastos, acumulou quase 20 exceções em dois anos, como resultado da pressão do Executivo e do Congresso Nacional [12]. A cada exceção, a regra perde credibilidade.

Mas existem outros números, ainda menos animadores: 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes (ou seja, 43% dos adultos, o maior índice desde o início da pesquisa); a taxa de juros dos cartões de crédito rotativo ultrapassa há tempos os 450% ao ano (e a inadimplência já passou de 60%), em uma economia com inflação em torno de 5% ao ano. A sensação de exaustão e a dificuldade que uma parcela considerável da sociedade tem em vislumbrar uma saída complicam ainda mais a situação e levam a respostas sociais que exacerbam a crise atual. A busca por uma solução nas apostas eletrônicas tornou esse cenário ainda mais desafiador e sombrio: o percentual de brasileiros maiores de 16 anos (ou seja, aqueles que já podem votar) que relatam ter feito algum tipo de aposta subiu de 24% em outubro de 2024 para 36% em setembro de 2025, o que dobrou o índice de endividamento devido às apostas online e à drenagem de recursos do mundo do consumo [13].

Em resumo, existem problemas macroeconômicos e microeconômicos que podem ter impacto em 2026, e o atual governo carece tanto da vontade política quanto da maioria parlamentar para alcançar soluções estruturais e duradouras. Além disso, há uma clara tensão entre uma “ala técnica” liderada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e uma “ala política” chefiada pelo Chefe da Casa Civil, Rui Costa, ambos membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e ambos candidatos à presidência, em relação aos rumos da agenda econômica. Da mesma forma, a promessa de reindustrialização não está se concretizando, e o setor agroindustrial responde por grande parte do crescimento econômico. Vale sempre lembrar que a sensação de bem-estar é mais decisiva do que a curva do PIB, e aí reside um problema central que o atual governo deve enfrentar nas próximas eleições.

A esfera social (sempre desafiadora)

Em um país como o Brasil, marcado por uma desigualdade estrutural e estruturante em sua sociedade, com uma das maiores concentrações de renda do planeta, a questão social, sempre volátil, surge como uma variável importante.

Em 2022, Lula foi eleito com a promessa de resgatar a democracia e incluir os pobres no orçamento federal e os ricos no imposto de renda (apesar da alta carga tributária, esta é fundamentalmente regressiva). Nos dois primeiros anos (2023-2024), a classe média cresceu 18% (de 32,8 para 38,6 milhões de pessoas), enquanto o número de pessoas classificadas como “miseráveis” caiu 33% (de 19,3 para 12,9 milhões). Apesar desses indicadores positivos, Waldir Quadros, economista da Universidade Estadual de Campinas, aponta que a popularidade do governo não reflete os dados: “Trabalho com esse banco de dados e metodologia há mais de 20 anos. Esta é a primeira vez que vejo essa discrepância, porque normalmente, a mobilidade social aumenta e a popularidade do governo melhora.” [14].

Brasil alcançou um progresso histórico na luta contra a pobreza. Em dois anos, o número de famílias vulneráveis ​​cadastradas no Cadastro Único diminuiu 25%. Em maio de 2023, eram 26,1 milhões de domicílios, e em julho de 2025, esse número havia caído para 19,56 milhões. Isso representa uma melhora na vida de 6,55 milhões de famílias. Individualmente, 14,17 milhões de pessoas saíram da pobreza, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social [15]. Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou que o Brasil havia sido novamente removido do Mapa da Fome [16]. Isso ocorre quando o risco de desnutrição cai abaixo de 2,5% da população (o país havia retornado a essa categoria durante o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, mesmo antes da pandemia global de Covid-19, que exacerbou a situação). O retorno da política de aumento do salário mínimo, com reajustes anuais reais acima da inflação, sem dúvida também contribuiu para essa situação. No início de outubro de 2025, foi aprovada uma isenção do imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais por mês (aproximadamente US$ 950), que entrará em vigor em janeiro de 2026, em comparação com a faixa atual de tributação em torno de 3.000 reais (US$ 570), beneficiando diretamente 15 milhões de pessoas.

O programa Bolsa Família (criado durante o primeiro mandato de Lula da Silva) foi completamente reformulado, ampliando sua abrangência. O governo sabe que precisa de programas sociais concretos para ser competitivo até 2026 e, além da já mencionada isenção do imposto de renda, planejou iniciativas como Gás do Povo (que garante botijões de gás gratuitos para 17 milhões de famílias) e Luz do Povo (que oferece energia elétrica gratuita para usuários vulneráveis ​​cadastrados no Cadastro Único), entre outras. Na área da saúde, ampliou os programas Mais MédicosBrasil Sorridente (programa odontológico) e Agora Tem Especialistas, que agiliza consultas e exames no Sistema Único de Saúde (SUS).

Na área da educação, houve um aumento no investimento em mensalidades para o ensino fundamental e médio, e foi criado o programa PédeMeia, que incentiva os alunos a concluírem o ano letivo com auxílio financeiro de até R$ 1.750 para aqueles que forem aprovados nas três etapas e prestarem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Além disso, às vésperas do ciclo eleitoral, o governo promete mobilizar esforços para aprovar uma emenda constitucional que aboliria a jornada de trabalho 6×1 (o regime de trabalho padrão no Brasil, em que seis dias de trabalho são seguidos por um dia de descanso), bem como implementaria a gratuidade no transporte público.

Contudo, a percepção de uma melhoria na qualidade de vida não é garantida e, até o momento, muitos desses avanços (em sua maioria isolados e não estruturais) — e sua sustentabilidade a longo prazo — são vistos com ceticismo por grande parte da sociedade brasileira. A margem de manobra do governo é bastante limitada: aproximadamente um quarto dos gastos não discricionários é controlado pelo Poder Legislativo por meio de emendas tributárias, o que agrava a falta de transparência, a corrupção, a fragmentação e a incoerência das políticas públicas, além de enfraquecer a capacidade do Poder Executivo de definir a agenda.

A politização das forças armadas

A transição na área da Defesa, de Bolsonaro para Lula, foi particularmente tensa, com nomeações tardias para o ExércitoMarinha e Força Aérea, e com comandantes militares indicados pelo presidente Bolsonaro recusando-se a entregar seus cargos na presença do recém-eleito comandante supremo, além de demonstrarem total tolerância a extremistas de direita que continuavam a protestar em frente aos quartéis em favor de um golpe militar. Essa foi a única área da equipe de transição sem membros indicados por Lula, que nomeou José Múcio, político de direita que mantém diálogo com Bolsonaro, como novo ministro da Defesa [17]. Ainda assim, por exemplo, o novo comandante do Exército, Júlio Cesar de Arruda, permaneceu menos de um mês no cargo, já que o chefe militar manteve uma postura corporativista e desafiadora diante da necessidade de recuperar a confiança pública em um Exército questionado [18].

Como já mencionamos, a tentativa fracassada de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o plano Punhal Verde Amarelo — concebido em novembro de 2022, com equipes formadas por militares das Forças Especiais, os chamados “Kids Pretos“, que monitoravam o cotidiano e os itinerários do ministro, do presidente e do vice-presidente com a intenção de assassiná-los — e oficiais de alta patente envolvidos em atividades ilícitas, culminaram na já mencionada condenação histórica de 11 de setembro de 2025, na qual, pela primeira vez na história brasileira, oficiais superiores e generais foram condenados por um tribunal civil. Contudo, os quartéis permanecem altamente politizados e ainda simpáticos ao ex-presidente Bolsonaro, e não há, efetivamente, controle civil democrático ou direção política por parte das autoridades civis sobre esse instrumento de força do Estado.

Considerações finais

Independentemente do rumo e da forma que a situação política assumir em 2026, a polarização permanecerá uma realidade, dada a sua importância para os dois principais líderes da atualidade, Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Um Lula revigorado por Trump vem ganhando terreno, mas é sempre importante lembrar que ele terá 81 anos nas eleições de 2026, e a memória de Joe Biden, que teve de desistir da corrida presidencial por problemas de saúde relacionados à idade avançada, lança uma sombra sobre a candidatura do ex-metalúrgico (mesmo que ele seja apenas alguns meses mais velho que Trump).

Especialistas apontam que, de modo geral, o eleitorado brasileiro está dividido entre um terço que apoia a direita e um terço que apoia a esquerda. Os 30% restantes são o elemento central da equação. Estima-se que, desse grupo, dois terços se abstenham de votar, e os 10% restantes sejam compostos por eleitores indecisos, que podem pender para qualquer um dos lados. Lula tem um piso alto, mas um teto baixo, já que quase metade do eleitorado reitera consistentemente que não votaria nele. O bolsonarismo, por sua vez, tornou-se um legado tóxico para muitos de seus aliados: atrai votos, mas repele alianças. Portanto, a eleição de 2026 provavelmente será acirrada, na qual o candidato que conseguir se conectar com o público, mostrando-lhe um caminho para uma vida melhor, e não apenas agendas abstratas em favor do institucionalismo e da promoção da democracia, conquistará o voto dos indecisos.

Na esfera econômica, a reforma tributária, considerada a mudança mais significativa no sistema tributário das últimas décadas, entrou em vigor em janeiro de 2026 com a implementação experimental da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Isso poderá levar a uma redução da pesada carga tributária suportada por empresas, trabalhadores e consumidores. Espera-se que o PIB continue crescendo, com uma provável redução nas taxas de juros, o que beneficia diretamente os cidadãos comuns. No entanto, a inflação anual persistente em torno de 5% está impactando as receitas do governo e continua sendo um desafio que precisa ser enfrentado.

Os indicadores sociais, em particular a redução da pobreza e da pobreza extrema, devem continuar a melhorar, com a criação de mais empregos e o aumento do rendimento médio. A segurança pública, o controlo das despesas e os cuidados de saúde continuam a ser os calcanhares de Aquiles do atual governo, e a sociedade no seu conjunto exige reformas profundas nestas áreas.

Para concluir nossa avaliação, na véspera de 7 de setembro, Dia da Independência do BrasilLula da Silva se reuniu em um churrasco informal com o Ministro da Defesa, comandantes militares da ativa e ex-comandantes de seus mandatos anteriores. Na pauta, no que o Ministro Múcio chamou de “encontro entre amigos”, estava um pedido de um plano estratégico de defesa para os próximos 20 anos, levando em conta as atuais mudanças tectônicas no sistema internacional. Na prática, foi uma demonstração de apreço institucional às vésperas do julgamento de Jair Bolsonaro e de militares conhecidos por seu envolvimento em tentativas de golpe, e uma forma de tentar apaziguar as tropas em vista do período eleitoral iminente. A rápida concessão da vitória por Biden em 2022 e as mensagens diretas e indiretas de que, caso ocorresse qualquer tipo de colapso institucional, toda a cooperação militar com os EUA cessaria, desempenharam um papel significativo na posse de Lula. Com Trump na Casa Branca até 2029, o cenário muda substancialmente.

Em resumo, nesta breve avaliação e perspectiva para 2026, acreditamos que provavelmente teremos um ano marcado pela normalidade institucional, sem grandes convulsões, aguardando o resultado da candidatura de Flávio Bolsonaro. As esferas econômica e social, apesar dos desafios e crises ocasionais, devem, em geral, continuar apresentando números e indicadores positivos. A questão militar permanece uma variável indefinida, mas, por ora, foi apaziguada por sinais orçamentários e planos de defesa mais robustos. A corrida presidencial já começou e, de fato, se estende a todas as áreas da vida política, econômica e social do país, sob a sombra da polarização.


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