Indígenas ocupam Brasília em defesa de seus territórios
Acampamento Terra Livre reúne milhares na capital para cobrar demarcação de terras, políticas públicas e enfrentar ameaças como o marco temporal
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Indígenas de todo o país começaram a chegar a Brasília no domingo (5) para a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026), maior mobilização do movimento indígena no Brasil. Realizado no Eixo Cultural Ibero-Americano, o encontro deve reunir entre 7 mil e 8 mil participantes ao longo da semana, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organizadora do evento.
De acordo com a Agência Brasil, o ATL reúne representantes de grande parte dos 391 povos originários do país e tem como eixo central a luta pela demarcação de terras — uma demanda histórica que segue sem solução. “Como todos os anos, estamos aguardando o governo federal anunciar a criação de novas terras indígenas”, afirmou o coordenador executivo da Apib, Dinamam Tuxá.
Apesar de avanços recentes – com a homologação de 20 territórios entre 2023 e 2025, somando cerca de 2,5 milhões de hectares, segundo a Funai – o movimento denuncia um passivo de cerca de 110 áreas ainda em processo de reconhecimento.
“Temos um passivo de demarcação muito alto e um cenário de muita violência e vulnerabilidade nas terras indígenas que governo algum conseguiu superar”, destacou Tuxá.
A dificuldade de acesso à terra se soma a outros problemas estruturais enfrentados pelos povos originários, como a precariedade nos serviços de saúde e educação, além do avanço de projetos que ameaçam seus direitos. Entre eles, estão propostas que liberam a mineração em terras indígenas e a tese do marco temporal, criticada pelo movimento por restringir o direito territorial às áreas ocupadas em 1988. Uma das principais marchas do ATL, marcada para esta terça-feira (7), será justamente contra essas iniciativas.
O encontro também marca o início do chamado Abril Indígena, período de mobilização nacional que amplia o debate para temas como crise climática, democracia e participação política.
“Estamos promovendo um amplo debate sobre diversos temas, como educação, saúde […] várias políticas públicas”, afirmou Tuxá.
A presença em Brasília, muitas vezes após longas viagens, evidencia o esforço coletivo dos povos indígenas para fazer suas vozes serem ouvidas. A maranhense Cotinha de Sousa Guajajara, que percorreu cerca de 1,4 mil quilômetros até a capital, resume uma das principais reivindicações:
“Nossa expectativa é que áreas sejam demarcadas, homologadas ou ampliadas”.
Mais do que um ato político, o ATL se consolida como espaço de articulação e resistência. “O acampamento trouxe uma nova forma de nos organizarmos […] tentando construir soluções para nossos problemas e proteger nossas culturas”, afirmou o comunicador indígena Oziel Ticuna. “Estaremos aqui para lutar pelo nosso povo.”
*Com informações da Agência Brasil