‘Onde tem terra indígena tem floresta em pé’
ATL2026

‘Onde tem terra indígena tem floresta em pé’

No Acampamento Terra Livre 2026, lideranças como Maike Kumaruara articulam resistência territorial e fortalecem organização política indígena, com protagonismo de jovens ativistas 

Tatiana Py Dutra 10 abr 2026, 18:21

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Em meio à intensificação das disputas sobre territórios indígenas e ao avanço de grandes projetos econômicos sobre áreas tradicionais, o Acampamento Terra Livre 2026 (ATL) reúne, em Brasília, até este sábado (11), mais de 7 mil indígenas de cerca de 200 povos, consolidando-se como o principal espaço de articulação política dos povos originários no país. Sob o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, o encontro reafirma a centralidade da luta pela demarcação de terras, ao mesmo tempo em que amplia o debate sobre os impactos do extrativismo, do lobby mineral e das políticas estatais que ameaçam modos de vida ancestrais. Mais do que uma mobilização anual, o ATL se configura como território de elaboração política, troca de saberes e construção de estratégias coletivas de enfrentamento ao que lideranças denunciam como continuidade de um projeto colonial.

É nesse contexto que se insere a trajetória de Maike Kumaruara, liderança indígena do Baixo Tapajós, professor de Direitos Humanos e Direitos Especiais Indígenas da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), militante histórico do movimento indígena. Com mais de duas décadas de atuação, sua caminhada política remonta às mobilizações do final dos anos 1990, especialmente à resistência indígena às comemorações oficiais dos 500 anos da colonização. Desde então, Maike tem atuado na construção da consciência indígena em sua região, articulando universidade, território e militância, além de integrar o Conselho Indígena do Território Kumaruara e o Grupo Consciência Indígena. Também vinculado ao PSOL e ao Movimento Esquerda Socialista, ele participa da organização de um coletivo nacional de militantes indígenas, com forte presença de jovens, voltado à formulação política e à intervenção nos espaços institucionais.

Na entrevista a seguir, Maike analisa o significado político do ATL, aprofunda o debate sobre a demarcação de terras e denuncia os impactos estruturais do que define como um Estado “racista e colonizador”. Ele também aborda a articulação crescente de indígenas em espaços urbanos e partidários, destacando o papel da juventude na construção de um projeto ecossocialista e de “bem viver” como alternativa ao modelo predatório vigente.

Para começar, você pode  contar um pouco da sua trajetória como ativista indígena? 

Olá, eu sou Maike Kumaruara, sou professor de Direitos Humanos e Direitos Especiais Indígenas da UFOPA [Universidade Federal do Oeste do Pará], sou militante do Grupo Consciência Indígena, faço parte do Conselho Fiscal do Território Kumaruara, do Conselho Indígena do Território Kumaruara, faço parte também do Movimento Esquerda Socialista, sou militante do PSOL, estou nessa luta do movimento indígena há mais de 20 anos, que essa minha luta começa num período de levante do movimento indígena, no final da década de 90 para o ano 2000, especificamente naquela marcha dos 500 anos, onde se queria comemorar os 500 anos da “descoberta” do Brasil, e nós, do Baixo Tapajós, iniciamos uma campanha que ia na contramão dessa narrativa da descoberta. Já falávamos de invasão, de colonização do território, e nesse período que juntou movimento social e universidade, eu era calouro na universidade, descobri o processo de emergência dos povos indígenas, de identificação, autoidentificação e a necessidade de a gente questionar essa denominação de povos do mato, caboclo, gente do sítio, e assumir a identidade indígena. Então descobri a minha ancestralidade, a história da minha família no território Kumaruara, a história do processo de descimento, guerra justa, tropa de resgate, criação de aldeamentos em Santarém e, mais recentemente, a arqueologia da UFOPA descobriu que Santarém tem uma presença indígena de mais de 10 mil anos, uma presença do povo tapajós de 1.300 anos. Então o Diretório Pombalino – que suplantou o aldeamento dos Tapajós e colocou Santarém e fez isso com o nome de cidade portuguesa, onde tinha território indígena – nós entendemos que não foi suficiente para apagar a nossa história. E desde então a gente vem discutindo essa consciência indígena e falando dessa emergência étnica no baixo do tapajós e em outras regiões.

Como é a experiência de estar no ATL, reunido com tantas etnias distintas mas com tantos interesses afins?

Participar do acampamento Terra Livre é uma grande experiência, porque a gente entende que a identidade indígena é acima de tudo, identidade política. Então, a incidência é reivindicar território demarcado, comida boa, saudável; Rio Tapajós livre de mercúrio, saudável e vivo; É reivindicar uma educação diferenciada, que enfrente esse modelo eurocêntrico, positivista, matemático, no sentido esquemático. Então, é esse despertar também essa grande confraternização contra os povos, é troca de experiências, de saberes. É uma grande celebração da ancestralidade estar aqui.

A demarcação de terras segue como pauta central do movimento indígena. Como essa questão impacta diretamente a vida das comunidades?

Nós temos um entendimento que na região do Baixo Tapajós a gente vive um processo parecido com o que foi o processo de colonização dos territórios indígenas nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, houve uma colonização de imposição, uma espécie de política do fato consumado. E pior, os territórios dos Estados Unidos, os indígenas receberam seus territórios sem água, sem floresta, sem bicho. Então a gente acha um processo parecido com o que acontece aqui na nossa região, na região do Baixo Tapajós, sobretudo. A nossa principal reivindicação é a demarcação das terras. As terras são ancestrais, nós temos a ocupação histórica desse território, e a gente sabe que, segundo a Constituição de 88, a demarcação é um mero expediente administrativo. Mas a gente acha que demarcar a partir dessa declaração administrativa do Estado, passando por todo esse processo de criação de um grupo de trabalho, de apresentação desse relatório, de aprovação pelo Ministério da Justiça e da assinatura do presidente, é uma segurança jurídica. Então, a nossa principal reivindicação é a demarcação das terras, porque a partir dessa terra demarcada, também, a gente tem mais legitimidade para acessar direito à saúde, direito à infraestrutura, para a gente desenvolver ecoturismo, agroecologia, praticar o bem viver, reivindicar uma educação diferenciada, defender a floresta em pé.

Nós, da  região do Baixo Tapajós, estamos na fronteira do agronegócio, que sustenta a política da extrema direita. Então, se a gente parar para pensar, nós tivemos, em 2024, a pior seca de todos os tempos: o Rio Tapajós ficou com 34 centímetros de altura. Nós tivemos o ar mais poluído do mundo, que é oito vezes maior que a nossa capacidade de respirar saudavelmente. A Organização Mundial de Saúde declarou o ar de Santarém o mais poluído do planeta. Então tem uma conjunção de fatores, que é mercúrio no Rio Tapajós, especulação em queimadas, especulação imobiliária a partir de queimadas ilegais, nós temos a contaminação do solo com o glifosato da soja, do solo e do ar, nós tivemos um decreto que acabava com a educação escolar indígena; outro decreto que também nós conseguimos revogar, estabelecia a privatização e a dragagem do Rio Tapajós. E a gente acha que tudo isso está interligado, que no final das contas, o objetivo principal é a desterritorialização do nosso território. Então, na cabeça do agronegócio, eles precisam desmontar as organizações indígenas e precisam tirar as pessoas do lugar, porque além das derrotas no campo técnico, no campo do movimento, eles também sofrem derrotas eleitorais. Então, a demarcação é uma segurança a mais diante de todas essas ameaças.

O movimento denuncia um passivo de mais de 100 territórios ainda não reconhecidos. Como essa demora afeta o cotidiano e a segurança dos povos indígenas?

Nós temos um entendimento que o Brasil é território indígena. Então, na verdade, nada mais funcional que o disfuncional. Os caras colocarem uma Funai sem estrutura na região de Santarém, com três servidores, não ter voadeira, não ter lancha, ter dificuldade com gasolina, com infraestrutura, é para não funcionar mesmo, né? Nada mais funcional que o disfuncional. Mas a gente entende, por exemplo, que esse despertar da consciência indígena  está acontecendo em todos os espaços, né? Então, é uma segurança garantir esses direitos. Por outro lado, o Estado brasileiro é um Estado racista, colonizador. O projeto colonizador é totalizante, não é uma questão de que o Estado brasileiro, que os servidores não tenham disposição ou que a lei não seja suficiente ou que há uma lentidão no processo. Não, o Estado funciona dessa forma, o Estado é organizado para funcionar dessa forma: violento, racista institucional, racista ambiental. O Estado promove o genocídio de várias formas, seja na cultura, seja no conhecimento, seja na aniquilação dos territórios, da nossa saúde – a partir da contaminação da água, do solo, da eliminação física mesmo das nossas lideranças -, então é um projeto. O Estado é assim, o Estado é colonizador, ele se apresenta dessa forma, sucateando órgãos de proteção, não garantindo direito à terra, mudando a legislação ambiental para acabar com licenciamento e assim as dragagens de garimpo, a fumigação do veneno da soja, o racismo ambiental, o preconceito cultural… A galera que chega de fora, principalmente do sul e sudeste do Brasil, acredita que é superior culturalmente, superior em relação à sua origem, à sua raça, quando se depara com indígenas, com quilombolas, com os povos da floresta. Então é um projeto, né? É um projeto que a gente entende bem organizado e bem desempenhado pelo Estado brasileiro.

Como você avalia as ameaças representadas por propostas como o marco temporal e a liberação da mineração em terras indígenas?

Em relação ao marco temporal, além de estabelecer, criou-se uma história de ancianidade no processo, inclusive quem fez a autodemarcação para o final da fila como uma espécie de punição, é uma ameaça constante. Está na pauta agora no Senado para eles apresentarem de uma forma que nem passe pela discussão e não dependa do presidente para assinar. Então é uma ameaça constante de um congresso que é inimigo do povo, do congresso que é predominantemente branco? Essa é uma ameaça real que continua. E aí a gente segue nessa situação, da extrema direita já falar que vai ceder a floresta até as terras raras onde tem mineração, para os Estados Unidos para não ter guerra. Uma direita que historicamente é entreguista, que não enfrenta, que não tem esse todo nacionalismo na frente. É uma ameaça real ao Brasil, a essas terras, a esses minerais raros, a água, e onde tem terra indígena, onde tem demarcação, a gente tem floresta em pé.

O ATL também debate a participação política indígena. Qual a importância de ampliar a presença indígena nos espaços institucionais?

Na plenária que falou sobre as candidaturas indígenas, nós indicamos Auricélia Arapinhon pelo Baixo Tapajós, candidata a deputada estadual. Não tem um deputado estadual indígena na história do Brasil. Não tivemos. Então esse é o desafio. Ocupar espaços de poder. Nós temos que ocupar todos os espaços de poder. É fundamental para a gente desenvolver políticas públicas de acordo com as nossas necessidades.

O evento reúne milhares de pessoas de diferentes povos. Que tipo de articulação e fortalecimento coletivo nasce a partir desse encontro?

Olha, a gente está discutindo um coletivo de militantes indígenas do PSOL e da nossa organização do Movimento Esquerda Socialista para discutir esse despertar da consciência indígena, para discutir os indígenas em contexto urbano, para discutir esse projeto de colonização, de imposição ou de implantação que acontece no Brasil. Nós estamos organizando esse coletivo para elaborar coletivamente, a partir de militantes indígenas de várias partes do Brasil, uma política que possa servir de subsídio, de fundamentação para as intervenções das nossas lideranças no espaço de poder.

Diante do atual cenário de crise ambiental, avanço sobre territórios tradicionais e aprofundamento das desigualdades, que reflexão você considera fundamental para a sociedade brasileira compreender a centralidade da luta dos povos indígenas no presente e no futuro do país?

A mensagem que a gente deixa é que o futuro é ancestral, e que nós precisamos parar esse modelo de desenvolvimento que coloca a natureza como um grande depósito “infinito” de recursos naturais e a natureza em um organismo. A gente acredita que devemos superar essa visão antropocêntrica da natureza e defender o ecocentrismo, defender o ecossocialismo, porque esse é o futuro da humanidade. Então não é só adiar o fim do mundo, mas, é a gente construir outras relações, é viver no mundo de bem. Então esse modelo indígena que pisar na areia descalço, comer um peixe assado na beira da praia, viver de forma coletiva, contemplar a natureza, respirar, integrar a natureza, é o futuro da humanidade. A gente não precisa dessa pressa, dessa sociedade do cansaço, dessa sociedade do estresse. Nós precisamos de paz, nós precisamos do bem viver, nós precisamos manter esse estilo de vida que a gente tem. A gente sabe que esse estilo de vida é uma ameaça para o capitalismo, para quem pensa numa lógica da produtividade da multitarefa. Mas esse modelo da multitarefa, da sociedade do cansaço, da sociedade da ganância, está acabando com o planeta. Então é uma lógica meio que de autodestruição. E a gente vai na contramão disso apontando que o caminho é esse, o caminho de integração com a natureza, o caminho do bem viver.


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