Os três acordos globais sobre o desmatamento e a aceleração do declínio das florestas

Os três acordos globais sobre o desmatamento e a aceleração do declínio das florestas

A cada hectare a mais de perda florestal e a cada décimo de grau a mais de aquecimento, a capacidade de reverter essa perda se tornará sempre mais difícil, mais lenta e mais incerta

Luiz Marques 10 abr 2026, 10:45

Em resposta ao apelo do ex-secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, após o fracasso da Rio+20 em 2012, mais de 50 governos nacionais e diversas organizações indígenas proclamaram em 2014 a “Declaração de Nova York das Florestas” (New York Declaration of Forests – NYDF). Inexplicavelmente, o governo brasileiro recusou-se então a subscrevê-la. Entre as 10 metas “voluntárias” da NYDF estavam diminuir em 50% o desmatamento das florestas até 2020, zerá-lo até 2030, restaurar 1,5 milhão de km2 até 2020 e 3,5 milhões de km2 até 2030. Além disso, a Declaração explicitava que commodities como óleo de palma, soja, polpa de celulose e pecuária bovina não deviam se estender sobre as florestas e propugnava a mobilização de recursos financeiros para o cumprimento dessas metas. Em 2015, o Acordo de Paris, em seu artigo 5, exortava: “As Partes devem agir para conservar e melhorar (…) os sumidouros e reservatórios de gases de efeito estufa a que se refere o Artigo 4 (…) da Convenção, incluindo as florestas”. Para esse malfadado Acordo, as florestas eram infelizmente apenas ativos negociáveis nos “mercados de carbono”, tal como diposto em seu Artigo 6. 

Veio então, em 2021, a “Declaração dos Líderes sobre as Florestas e o Uso da Terra”, na COP26 do clima em Glasgow. Nessa ocasião, 127 países, contendo 90% da cobertura arbórea mundial e 85% das florestas tropicais primárias, comprometeram-se a zerar o “desmatamento líquido” até 2030 e a “conservar as florestas e outros ecossistemas terrestres e acelerar sua restauração”. Desta vez, contrariamente a 2014, o Brasil foi signatário. Por que um ecocida como Bolsonaro apôs sua assinatura nessa Declaração? A resposta a essa pergunta é simples: nem ele, nem qualquer outro governante dos demais países signatários tinha intenção de honrar sua assinatura. O resultado é que, em 2025, a Forest Declaration Assessment assim resumiu sua avaliação anual sobre a declaração de Glasgow: “Na metade do caminho até 2030, o mundo deveria estar vendo um declínio acentuado no desmatamento. Em vez disso, a curva global do desmatamento não começou a se reverter”. De fato, o desmatamento aumentou em 2023 em relação a 2022 e aumentou de novo em 2024 em relação a 2023. O Global Forest Watch constata que, “dos 20 países com a maior área de florestas primárias, 17 tiveram mais perda hoje [2024] do que quando o acordo [de Glasgow] foi assinado”. O World Resources Institute mostra que, entre 2001 e 2024, “o mundo perdeu 517 milhões de hectares de cobertura arbórea [bruta] desde a virada do século, o equivalente a cerca de 13% da cobertura arbórea global em 2000”. A Figura 1 mostra essa perda bruta global, discriminada em quatro ecozonas florestais.

Figura 1 – Perda bruta de cobertura arbórea em escala global em milhões de hectares entre 2001 e 2024, discriminada em quatro ecozonas. De baixo para cima, em cada coluna: florestas boreais, florestas temperadas, florestas tropicais e florestas subtropicais. Fonte: M. Weisse & L. Goldman, “Forest Loss”, World Resources Institute (WRI), 21 maio 2025. Obs.: todos os valores são calculados considerando uma densidade mínima de cobertura arbórea de 30%. <https://gfr.wri.org/forest-extent-indicators/forest-loss>.

Em nenhum dos nove anos entre 2016 e 2024, essa perda arbórea foi menor do que 220 mil km2!! O World Resources Institute reitera que as três causas principais dessas perdas no século XXI são: (1) a agropecuária (1,68 milhão de km2); (2) os incêndios florestais (1,51 milhão de km2) e (3) a extração de madeira (1,31 milhão de km2). Esses três vetores somam 4,5 milhões de km2, ou 87% do total nesse período. “As regiões tropicais sofrem maior perda de cobertura arbórea relacionada à agropecuária, enquanto as maiores perdas nas regiões boreais e temperadas devem-se à exploração madeireira e aos incêndios florestais”. Isso posto, nas florestas tropicais úmidas, não naturalmente inflamáveis, o agronegócio, visando sua própria expansão, é o principal responsável pelos incêndios, como o ocorrido, por exemplo, no “Dia do Fogo” em 2019 no Pará, jamais punido, e em 2024 na Amazônia em geral.

Além de serem, de longe, os principais destruidores da biosfera terrestre, a produção globalizada de commodities agropecuárias é responsável por um terço das emissões antropogênicas globais de gases de efeito estufa (GEE). Há um círculo vicioso entre desmatamento e aquecimento, pois, em sua escala atual, “as próprias alterações climáticas estão levando, cada vez mais, à perda e degradação de florestas, pastagens, zonas úmidas, rios e até mesmo a agricultura, criando um ciclo de retroalimentação perigoso”. 

Conclusão 

Malgrado os três Acordos globais de 2014, 2015 e 2021, a Figura 1, acima, mostra que a perda de cobertura arbórea global bruta mais que dobrou ao longo do século XXI, passando de 134 mil km2 em 2001 para 296 mil km2 em 2024. Apenas neste ano, a perda alastrou-se por uma área maior do que a soma das áreas dos estados de São Paulo (248.219 km2) e do Rio de Janeiro (43.696 km2)… Uma prova suplementar do fracasso desses três Acordos é o aumento da mortalidade das árvores em todos os biomas florestais analisados, como alerta um estudo publicado em 2025 pela Rede Internacional sobre a Mortalidade das Árvores: “As taxas de mortalidade das árvores estão aumentando globalmente, com implicações para as florestas e para o clima”. O capitalismo – e, entre nós, o agronegócio – está fulminando irreversivelmente os alicerces biofísicos sobre os quais se assenta a viabilidade das espécies pluricelulares, inclusive, e não por último, a nossa. No século XXI, pouco mais de um terço (1,77 milhão de km2) da perda florestal primária global é considerada permanente, sendo que, nos Trópicos, pouco menos de dois terços dessas perdas tornaram-se permanentes:

“Entre 2001 e 2024, um terço (34%) das perdas florestais em escala global é provavelmente permanente. (…) O impacto é ainda maior nas florestas tropicais primárias, onde impressionantes 61% da perda estão ligados a mudanças permanentes no uso da terra — um grande revés para alguns dos ecossistemas mais vitais do planeta para a biodiversidade e o armazenamento de carbono”. 

Na Amazônia brasileira, mais de 90% da perda florestal teve por causa primária a expansão das pastagens. A cada hectare a mais de perda florestal e a cada décimo de grau a mais de aquecimento, a capacidade de reverter essa perda se tornará sempre mais difícil, mais lenta e mais incerta. Tão incerta quanto nossa sobrevivência. E, contudo, está ainda ao alcance da sociedade brasileira desviar-se in extremis de nossa atual trajetória suicida, elegendo em outubro um Congresso comprometido com a preservação e restauração de nosso patrimônio natural. É, definitivamente, nossa última chance. Ou alguém acha que ainda temos tempo?

 [1] Cf. Forests Declaration Assessment <https://forestdeclaration.org/about/new-york-declaration-on-forests/>.

[2]  Veja-se <https://unfccc.int/sites/default/files/resource/parisagreement_publication.pdf>.

[3]  Cf. UNFCCC, “Glasgow Leaders’ Declaration on Forests and Land Use”, 2 nov. 2021: “1. Conserve forests and other terrestrial ecosystems and accelerate their restoration” <https://webarchive.nationalarchives.gov.uk/ukgwa/20230418175226/https://ukcop26.org/glasgow-leaders-declaration-on-forests-and-land-use/>.

[4]  Cf. R. A. Butler, “Do forest declarations work? How do the Glasgow and New York declarations compare?”. Mongabay, 4 nov. 2021.

[5] Cf. Forest Declaration Assessment, 13 out. 2025 <https://forestdeclaration.org/resources/forest-declaration-assessment 2025/#:~:text=%22Global%20forests%20are%20still%20in,subsidies%20by%20over%20200:1>.

[6]  Cf. E. Goldman, S. Carter & M. Sims, “Fires Drove Record-breaking Tropical Forest Loss in 2024”. Global Forest Watch, 21 maio 2025 <https://gfr.wri.org/latest-analysis-deforestation-trends>.

[7]  Cf. M. Weisse & E. Goldman, “Forest Loss”. World Resources Institute,  21 maio 2025.

[8]  Cf. Weisse & Goldman, “Forest Loss”, cit. (2025).

[9]  Cf. Leandro Prazeres, “Cinco anos depois, investigações sobre o ‘Dia do Fogo’ são arquivadas e ninguém foi responsabilizado”. Folha de São Paulo, 27 ago. 2024.

[10]  Cf. Cf. M. Crippa, E. Solazzo, D. Guizzardi, D. et al., “Food systems are responsible for a third of global anthropogenic GHG emissions. Nat Food (2021). EDGAR-FOOD <https://edgar.jrc.ec.europa.eu/edgar_food>.

[11]  Cf. M. Hansen & C. Hanson, “Land Use Changed the Climate. Now Climate’s Changing the Land” World Resources Institute, 13 jan. 2026.

[12]  Cf. International Tree Mortality Network, “Towards a global understanding of tree mortality”. New Phytologist, 31 jan. 2025.
[13]  Cf. “One-Third of Forest Lost This Century Is Likely Gone for Good — and Remaining Loss Carries Lasting Consequences, New Analysis Warns”. World Resources Institute, 12 junho 2025. 

[14]  Cf. “Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagem”. MapBiomas, 3 out. 2024.


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