Qual a agenda para enfrentar os desafios?
Enfrentar os desafios da conjuntura atual exige coordenar esforços capazes de mobilizar uma maioria social a partir de bandeiras populares, como o fim da escala 6×1
Foto: Mobilização de trabalhadores contra a escala 6×1 em Belo Horizonte. (Sindifes/Reprodução)
A conjuntura política brasileira está acelerada. Por um lado, pela inegável influência da situação internacional, com as consequências da guerra e dos movimentos de Trump se fazendo sentir na política e na economia. Por outro, pela própria dinâmica política, com o prazo da chamada “janela” de trocas partidárias definindo melhor o cenário eleitoral nos estados.
Diante disso, a pré-campanha eleitoral opõe Lula e Flávio Bolsonaro – com uma diferença cada vez menor nas pesquisas – e indica os contornos da disputa política dos próximos meses. Desde o anúncio da pré-candidatura do clã Bolsonaro em dezembro, as pesquisas têm mostrado um acirramento em todos os índices de intenção de voto. Há exatamente um mês atrás, o Datafolha registrou 6 pontos percentuais de diferença em favor de Lula contra Flávio no primeiro turno, indicando, no entanto, empate técnico em eventual segundo turno.
O PSOL, cujo Diretório Nacional aprovou em sua última reunião o apoio à Lula, e rejeitando por 75% de votos a proposta de federação com o PT, tem um grande desafio depois de sair fortalecido das suas últimas disputas: responder à altura as responsabilidades impostas pela conjuntura acelerada, imediatamente no plano eleitoral – superando a cláusula de barreira – e fazendo disputa de sentido e de futuro apoiando-se em seu programa político e na mobilização social.
Uma eleição marcada pela polarização mundial
No mundo, a extrema direita escolhe suas batalhas. A ofensiva neofascista de Donald Trump contra os povos do mudo se choca com resistências de distintos níveis, incluindo mais recentemente a resistência militar iraniana e a disputa pelo controle do Estreito de Ormuz, que impuseram a Trump um recuo ao aceitar os termos do acordo de cessar fogo atual. De tal modo, internamente, cresce nos Estados Unidos a luta social e política contra Trump, como demonstrado nos 3300 atos em 50 estados dos EUA, que reuniram mais de 8 milhões de pessoas no No Kings.
Na América Latina, tem peso na disputa eleitoral polarizada a estratégia imperialista de revalidação da Doutrina Monroe por meio da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Depois da intervenção aberta na Venezuela, com o sequestro de Maduro e Cilia Flores, está colocada a hipótese do imperialismo sob Trump buscar galvanizar vitórias em novos processos eleitorais na região, no interior da qual, evidentemente, as eleições deste ano no Brasil e na Colômbia terão papel estratégico.
Não por acaso, Flávio Bolsonaro usou o púlpito da CPAC em Dallas, onde se reunia a extrema direita mundial, para renovar seus votos de subordinação ao imperialismo quando se comprometeu a vender para os EUA a exploração das terras raras brasileiras. O mesmo movimento já iniciado por Ronaldo Caiado em Goiás que, em disputa com o governo federal, decidiu unilateralmente ceder ao governo Trump a exploração de minerais críticos e terras raras no estado.
Portanto, a defesa da soberania nacional é um pilar fundamental da frente única antifascista, elemento que buscamos desenvolver a partir da exitosa Conferência Antifascista de Porto Alegre. Nessa próxima eleição marcada pela polarização mundial, a defesa da soberania nacional precisa ter lugar não só nas palavras, mas no programa e na ação, pelos quais será possível acumular forças contra a extrema direita brasileira – candidata a administradora de colônia, como disse recentemente Vladimir Safatle – e contra o imperialismo que a dirige.
O PSOL se fortalece – em nova perspectiva
É necessário, ao mesmo tempo, que a mais ampla unidade contra a extrema direita esteja combinada a construção de um polo crítico, independente e anticapitalista, que busque exercer influência de massas e aponte um sentido de futuro para humanidade. Nesse sentido, a resposta da maioria do PSOL contra a proposta de federação com o PT, empalmada por Boulos e a Revolução Solidária, é um sinal de futuro para esquerda brasileira.
O expediente da chantagem contra o PSOL, com ameaças de debandadas permanentes às vésperas do processo eleitoral, não se revelou suficiente para fazer com que a maioria do partido aceitasse um giro estratégico e prescindisse da sua vocação fundacional. O PSOL saiu da “crise da federação” mais forte para disputa de sentido e de futuro, além de ampliar suas possibilidades no terreno eleitoral, com as quais estaremos em melhor posição para enfrentar a cláusula de barreira, como demonstram as chegadas de Jones Manoel, Duda Salabert, Manuela d’Ávila, Áurea Carolina e, na federação com a Rede, Luizianne Lins, entre outras lideranças.
O PSOL sai mais forte para encabeçar a ala crítica da sociedade, que vê que as medidas do governo são insuficientes para uma derrota efetiva da extrema direita. Dos que acompanharam vibrando a ocupação da Cargill, encabeçada pelos indígenas do Baixo Tapajós, que derrotou a privatização dos rios da região.
A vitória na Conferência Antifascista e o êxito da nova Revista Retomada indicam a dinâmica que está posta: lutar por um PSOL militante e ecossocialista.
Nossa agenda e a deles
A agenda para enfrentar os desafios postos nesta conjuntura política acelerada precisa coordenar esforços em torno de uma agenda capaz de mobilizar maioria social, a partir de bandeiras populares, como a bandeira pelo fim da escala 6×1 – medida apoiada por 71% dos brasileiros. A matéria deve ser votada na CCJ na semana que vem, havendo expectativa de ser votado no plenário em maio – para o que será fundamental a pressão popular e a mobilização social, tornando-a um processo a quente. Além de todas as outras lutas em curso, como a greve federal dos Técnicos Administrativos em Educação pelo cumprimento do Acordo de Greve. A USP acabou de votar pela greve, assim como existem paralisações de professores no Paraná e em SP. Apenas com um plano de lutas vamos poder combinar a agenda política com a luta social.
É preciso uma agenda para enfrentar os desafios da realidade no mundo, onde uma vez mais nos colocamos diante da hipótese da barbárie (neo)fascista – contra a qual os povos do planeta podem começar a se levantar.
Em termos econômicos, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu no mundo. Porém, isso não é percebido pela população, por conta de que os recursos são granjeados pelo agronegócio e pelos bancos, como escancarou o escândalo do Master. A única saída diante da trava do Congresso é a mobilização popular. Não estamos apenas nesse lado da trincheira. Estamos lutando para colocar nossa classe em ação: a única saída possível para derrotar nossos inimigos, nas ruas e nas urnas.