Sobre as mobilizações de março e as limitações das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo
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Sobre as mobilizações de março e as limitações das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo

Um debate sobre os recentes atos contra a anistia aos golpistas e os desafios da esquerda

Foto: Manifestação em São Paulo. (Zé Barbosa Júnior/Revista Fórum)

O mês de março colocou a necessidade do início de um debate. Após a fragilidade demonstrada pelo bolsonarismo em Copacabana, os atos puxados na última semana pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo demonstraram uma incapacidade de construir um processo efetivo que aproveitasse o momento de defensiva do bolsonarismo para criar uma ofensiva, de nossa parte, contra a extrema-direita.

A falta de mobilização foi a marca nas ruas. Somente São Paulo foi além das centenas de pessoas no 30M e mesmo assim, as estimativas de presentes na Avenida Paulista não chegaram a 7 mil. É preciso refletir mais seriamente os motivos dessa realidade.

Em primeiro lugar, é importante frisar que não estamos em uma situação onde a mobilização social é inexistente. O breque dos aplicativos, que teve, também em São Paulo, uma manifestação com milhares de entregadores tomando a rua, conseguiu parar as entregas em diversas partes da cidade durante o dia e impactando nacionalmente a pauta por melhores condições de trabalho. Demonstrando, assim, que existem ainda espaço para construir iniciativas.

Algumas organizações políticas, inclusive da direção majoritária do PSOL, insistem em um argumento de que não há espaço para construção de lutas, porque estamos numa ofensiva global da extrema-direita. Como demonstrado pelas mobilizações aqui, mas também ao redor do mundo (Argentina, Alemanha, EUA – especialmente contra a extrema-direita), esse argumento valoriza apenas os aspectos pessimistas de uma realidade que é necessariamente contraditória. 

Não negamos as dificuldades da conjuntura. Por exemplo, hoje há uma geração de ativistas no movimento estudantil que não viveram grandes atos. Em 2021 tivemos mobilizações importantes, mas que não foram tão massivas. Na época, caracterizavamos como atos de uma vanguarda ampliada. Em 2019, tivemos atos com mais de centenas de milhares nos Tsunamis da Educação. Mas estamos falando de 6 anos atrás. De qualquer modo, as conjunturas global e nacional demonstram que existem espaços para se mobilizar, mas que não necessariamente indicam uma explosão de grandes lutas em todos os cenários, ainda que isso possa acontecer em menor probabilidade. O central é que existe espaço para se mobilizar.

Uma das questões, porém, é pelo que se mobilizar 

A queda da popularidade do governo Lula expressa também uma realidade objetiva: a continuidade da piora da vida da maior parte da população. Além da alta nos preços dos alimentos, um estudo recente da FGV demonstrou como nos últimos 12 anos, houve uma piora nas condições de trabalho, com muitos casos com estagnação e queda salarial. Ainda que exista uma redução do desemprego, os postos de trabalho disponíveis possibilitam uma condição de vida muito inferior ao que um trabalhador de carteira assinada já teve em outros momentos. A realidade que o breque dos APPs já expressava em seu início e hoje reforça é exatamente que construir política sem refletir a precarização da vida do povo é basicamente se fechar à maior parte da população. A análise dos dados não pode ser formal, a qualidade importa: as pessoas não vivem em números.

Isso se reflete em outros espaços também. Os cortes e a precarização das escolas e das universidades demonstram que debater mais abertamente sobre as mudanças estruturais que seguem acontecendo se torna cada vez mais necessário. As greves e mobilizações de setores importantes, como os profissionais de educação do Rio de Janeiro que pararam as aulas neste 28 de março, demonstram isso.

Outra questão, é sobre como organizar a mobilização

A articulação dos atos do 30M também demonstrou um limite de direção. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo foram criadas em 2015, em meio às movimentações da direita pelo impeachment da Dilma e serviram como um espaço de articulação de atos nacionais durante o governo Temer e Bolsonaro. No fim do governo Bolsonaro, as frentes também serviram à estratégia de construir mobilizações contra o governo voltadas a criar um desgaste para as eleições de 2022 e não levar até às últimas consequências a política do impeachment.

Durante o governo Lula, é ainda mais visível a insuficiência desses espaços. Mesmo antes do 30 de março, as iniciativas organizadas pelas frentes não só foram marcadas pela desmobilização, mas pela própria desarticulação de suas iniciativas. Atos que foram tirados com meses de antecedências, mas divulgados de forma protocolar e muitas vezes em cima da hora, além da ausência de participação da militância e base social de setores importantes, como em especial, o próprio PT. 

Este foi justamente o caso do 30M, que foi visto por nós como uma iniciativa positiva, mas cujas limitações já se expressaram desde a sua convocação. O ato foi anunciado em fevereiro, mas timidamente divulgado. Mesmo após o recebimento da denúncia de Bolsonaro às vésperas do Carnaval, a conquista do Oscar pelo filme Ainda Estou Aqui, que animou parte da vanguarda, e a decisão que tornou Bolsonaro réu, o ato seguiu tendo pouca hierarquia para os próprios setores que o convocaram. 

Isso acontece já que a Frente Brasil Popular, em especial, reflete os partidos e movimentos ligados ao próprio governo federal, que possui uma aposta consciente de não aquecer as ruas para manter um controle (que hoje é frágil) sobre os movimentos sociais. Nesse sentido, as articulações nacionais ficam a serviço de uma estratégia que aposta na institucionalização da luta e não, efetivamente, nas próprias agendas que puxa. A Frente Povo Sem Medo, nesse cenário, apesar de ter surgido em 2015 com um discurso maior de independência frente ao governo, hoje se constroi como um apêndice, não tendo iniciativas próprias que não tenham aval da FBP. Na prática, as frentes reúnem e atuam como uma só e até se debate a possibilidade de fusão.

Isso significa que hoje as agendas nacionais no Brasil são construídas por espaços superestruturais fechados, com pouca disposição real de utilizar a rua como método tanto de enfrentamento à extrema-direita como centro, mas também de construir agendas que coloquem pautas centrais para os estudantes e trabalhadores, também como lutas a serem tocadas. A ausência de debate nesses espaços sobre as lutas da educação no ano passado, como foi o caso da greve das federais, e a decisão para construir um plebiscito sobre a escala 6×1 somente em novembro, quase um ano depois dos atos puxados ano passado pelo VAT, demonstram essas contradições.

Ou seja, precisamos refletir a que caminho apontar. Não é possível que os movimentos sociais e organizações de esquerda se limitem somente a esses espaços de articulação. Se torna necessário, portanto, refletir como podemos fortalecer e somar iniciativas próprias, conectadas com os atores que já têm se articulado a partir de suas pautas, no qual os movimentos sociais e a esquerda não-institucional possam apostar em mais iniciativas que se conectem com os temas reais pelos quais existe caldo de mobilização, que não sejam pautadas somente pela resposta à extrema-direita.

Mas para que isso seja possível, também é necessário refletir nossa articulação

Em 2021, tivemos uma experiência interessante com a articulação Povo na Rua, que ainda com limitações em sua composição, pode articular o ato do dia 29 de maio, que deu um pontapé nas ruas pelo impeachment de Bolsonaro, seguindo o exemplo do movimento estudantil e negro, que já haviam organizado atos no mesmo mês. Após essa iniciativa, as frentes começaram a se mover, para não perder a direção de um processo de luta que tomava às ruas com centenas de milhares em plena pandemia.

Recentemente, no Rio de Janeiro, temos sido parte do FEPERJ (Fórum de Segmentos da Educação Pública do RJ), articulando sindicatos, entidades estudantis e ativistas independentes para organizar de forma unitária a luta da educação no Rio de Janeiro. O ato convocado para o dia 28 conseguiu ser maior que o ato do calendário “unitário” das Frentes para o Rio. Ainda que limitado, pelos mesmos aspectos objetivos da conjuntura que mencionamos, mas que serve a um sentido geral de apontar as ruas como um caminho.

Como construir um sentido, entre os setores independentes ao governo e dispostos a mobilizar, precisa ser uma questão. Não basta a crítica aos limites da direção do movimento social hoje no Brasil, sem que se reflita estratégias unitárias de construir outra tendência. A aceitação da realidade de forma passiva, nem as ações isoladas servem para travar esse debate de como atuar sobre uma mudança de perspectiva da esquerda. Por isso, precisamos refletir sobre como construir no Brasil a unidade dos que lutam e têm independência para lutar.


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