Da lama à luta: 7 anos após o crime, a vida ainda vale menos que o lucro
Sete anos depois, a cidade ainda convive com as consequências profundas dessa tragédia: famílias seguem em busca de justiça, verdade e reparação integral, enquanto os impactos sociais, econômicos e ambientais permanecem longe de serem superados
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem de rejeitos da Vale, na Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), resultou na morte de 272 pessoas, muitos eram trabalhadores da mineradora. O crime atingiu as comunidades do Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira, Aranha, Tejuco, Marinhos, Pires, Aldeia, Retiro do Campo e o Povoado de Colégio, incluindo povos indígenas e comunidades quilombolas. Para além dessas comunidades, é preciso ressaltar que todas as atividades entorno da bacia do Rio Paraopeba foram afetadas, o trabalho, o lazer, transmissão de saberes, práticas religiosas, foram paralisadas ou interrompidas. Não se tratou de um acidente, mas de um crime socioambiental, reconhecido como um dos maiores desastres industriais da história do Brasil. Sete anos depois, a cidade ainda convive com as consequências profundas dessa tragédia: famílias seguem em busca de justiça, verdade e reparação integral, enquanto os impactos sociais, econômicos e ambientais permanecem longe de serem superados.
Brumadinho, localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, passou a ser internacionalmente conhecida pelo crime cometido pela mineradora Vale. No entanto, antes da tragédia, a cidade possuía outra dinâmica de vida: comunidades ribeirinhas, pescadores artesanais, indígenas e produtores rurais que dependiam do rio para sobreviver. Outro ponto a se destacar, é o carnaval de Brumadinho, por exemplo, era referência regional, atraindo moradores e visitantes. Resgatar essa memória é fundamental, pois a mineração não pode ser naturalizada como única forma de existência econômica. Existe uma Brumadinho para além da mineração, uma cidade com modos de vida diversos.
Mesmo após tantos anos, a empresa responsável continua impune e a população vive com graves sequelas, como por exemplo: altos índices de transtornos mentais e exposição a metais pesados, doenças respiratórias, de pele e crônicas. Essa realidade impõe uma reflexão crítica sobre o Antropoceno, entendido aqui como a expressão de uma lógica de exploração predatória que transforma territórios, corpos e a própria natureza em mercadoria. Os grandes empreendimentos minerários operam a serviço do capital, subordinados à ideologia do “progresso” e do lucro a qualquer custo. Trata-se de uma lógica que avança sistematicamente sobre a sociobiodiversidade, destruindo saberes tradicionais, comunidades e formas de existência que não estão alinhadas ao lucro. O crime cometido pela Vale em Brumadinho, escancara que a população negra, periférica e pobre são as que sofrem mais impactos com relação a desastres ambientais e isso denuncia algo muito presente nos países do Sul global, o racismo ambiental.
Enquanto comunidades seguem sem reparação justa pelos crimes da mineração, o governo Zema (NOVO) destina mais de R$ 3 bilhões do acordo com a Vale para o chamado Rodoanel ou “Rodominério”, um megaprojeto que facilita o escoamento de minério e maximiza os lucros das mineradoras. A obra ameaça remover centenas de famílias, destruir territórios, atingir comunidades tradicionais e colocar em risco mananciais essenciais, como a Bacia da Várzea das Flores, em Contagem. Fica evidente que o Estado escolhe servir ao grande capital e ao modelo extrativista predatório imposto pela mineração, sacrificando vidas, natureza e o direito à água e à moradia do povo mineiro.
Diante disso, é inevitável perguntar: por que a barragem rompeu e por que a empresa segue sem responsabilização proporcional à gravidade do crime? As respostas para essas perguntas se encontram em um ponto: a conivência do Estado com os interesses do capital. Ao não garantir o direito fundamental à vida, previsto no artigo 5º da Constituição Federal, e ao ignorar princípios básicos da administração pública, especialmente o princípio da precaução, em que o Estado falhou gravemente. Mais do que omissão, estamos falando, obviamente, de um Estado burguês que atua a favor dos interesses da burguesia e do capital internacional, em detrimento da população e do meio ambiente. A chamada produtividade burguesa é irracional e neocolonial, incapaz de reconhecer os limites da Terra e de enfrentar as crises climática e civilizatória. É uma lógica que transforma destruição em lucro e morte, a chamada necropolítica.
Diante desse cenário, torna-se urgente reconstruir a partir dos escombros, recolher os cacos deixados pela exploração predatória e afirmar outro projeto de sociedade. Um projeto que respeite a natureza em sua totalidade, reconheça as relações complexas entre seres humanos e não humanos e coloque a vida do povo no centro das decisões políticas e econômicas. Essa é a perspectiva ecossocialista: uma proposta que rompe com a centralidade do lucro e compreende que a dignidade da vida vale mais do que um saldo bancário.